Licensa

25/02/2015

Dor sem nome

DOR SEM NOME
Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?
Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?

Esta é a dor Sem Nome
Só sei que é uma dor enorme
Que dilacera o coração
Que feriu meu coração

Nossa Senhora entende essa dor
Pois recebeu da Cruz Jesus sem vida
O Filho que brotou do seu Sim
Morto pelo não dos homens
Do Sem Nome

Entrega pra Mãe sua dor de Mãe
Entrega pra Deus sua dor de Pai
Entrega pra Deus seu coração que grita:
Porque levou pedaço de mim?
Porque feriu meu coração?

Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?
Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?
Depressão - crescer com o sofrimento - Dr. Roque Savioli

23/02/2015

A sabedoria do silêncio - Por RAYMUNDO DE LIMA

“Dentre todas as manifestações humanas, o silêncio continua sendo a que, de maneira muito pura, melhor exprime a estrutura densa e compacta, sem ruído nem palavras, de nosso inconsciente próprio” (J.-D. Nasio) 

“O analista não tem medo do silêncio [...]; ele não escuta somente o que está nas palavras, escuta também o que as palavras não dizem. Escuta com a “terceira orelha”... (T. Reik) 

"Na Finlândia, se você está feliz, deve estar em silêncio para ouvir os próprios pensamentos” (?)

É praticamente impossível esperar que crianças e adolescentes naturalmente fiquem em silêncio numa missa, aula, teatro, concerto musical, reunião, cinema. Os adultos, por sua vez, deviam dar o exemplo ficando de boca fechada nas igrejas antes ou durante missa, numa palestra, na biblioteca, etc. Será que existe medo do silêncio, necessário para reflexão? 

Para ler e compreender um texto filosófico ou teológico, um poema, é preciso silêncio. Há músicas que só podem ser ouvidas sob um fundo de silêncio. Os retiros espirituais são importantes para capacitar as pessoas a conviverem melhor consigo mesmas; aprender a controlar a inquietação de nossa alma, rumo à ascese. Não “treinar” o silêncio é se entregar à fala vazia ou boba, reforçando um estilo sustentado na ignorância. 

O combate contra a ignorância é a meta de toda educação” diz o professor da UFMG, Roberto Jamil Cury. “Se a barbárie está presente através de atos na própria civilização, desbarbarizar tornou-se uma questão urgente da educação”, alertava o filósofo T. Adorno, na década de 1950. 

Contudo, o elogio ao silêncio como sinal de educação deve ser rompido, sempre, para protestar contra os atos que causam direta ou indiretamente indignação, violência e destruição. 

Silêncio para ensinar. 

Os professores do ensino fundamental e médio, atualmente, reclamam que na sala de aula passam mais tempo pedindo silêncio aos alunos do que ensinando. Apesar dos sinais de barbárie na escola contemporânea, pouco se tem feito para impedir o seu avanço. Que fazer se os especialistas em educação se limitam a rotina de produção teórica abstracionista, e os responsáveis pelo sistema educacional continuam fugindo do compromisso de fazer “dialética do concreto” com o cotidiano das relações humanas na escola e na universidade? Onde está o equilíbrio entre conhecimento e sabedoria na formação dos professores para o futuro? Quem educará os pais para melhor educar os filhos? 

Um dos efeitos da “geração net” é não respeitar os espaços cujo silêncio é quase obrigatório. Além de não suportar o silêncio necessário para introspecção, a “geração net” não tem paciência de seguir o fio condutor de uma conversa. Quanto mais jovem, mais rapidamente passa de um tema para outro ou troca de interlocutor como quem aperta o botão do controle remoto da TV. Mais do que impaciência, tais atitudes podem também revelar intolerância e desrespeito para com o próximo e falta de sintonia com o ambiente. 

Como imaginam que “mandam no pedaço”, crianças e adolescentes se acham no direito de interromper a conversa dos adultos por motivo fútil. Os adultos, por sua vez, fingem que aceitam a atitude grosseira, ou se acovardam, deixando de exercer a autoridade de educadores, cujo resultado previsível é a incivilidade. 

Muitas pessoas estão deixando de freqüentar os cinemas para evitar constrangimentos com platéias mal educadas, barulhentas, parecendo estar mais interessadas em comer pipoca e dar arrotos de refrigerantes do que assistir ao filme em silêncio. (Existe diferença entre a demonstração de incivilidade do MLST no Congresso Nacional, as depredações das escolas públicas, ou outras menos barulhentas promovidas pelas gangs no dia-a-dia urbano?). 

Mede-se o nível de ensino de uma universidade pelo grau de silêncio de sua biblioteca. Alunos de alguns cursos de nível superior são mais propensos ao zunzunzun da “conversa paralela” que, sem querer-querendo, termina atrapalhando o silêncio imprescindível para ouvir uma exposição oral. Se o assunto é complexo e/ou o professor tem o estilo monótono, aumenta a probabilidade de dispersão e cochichos inconvenientes. O historiador Peter Burke observa que essa inclinação para romper a romper com o silêncio necessário de uma aula, nos países latinos, talvez viria de costume cultural de “tentar ouvir muitas pessoas falando ao mesmo tempo”. Ao contrário do costume anglo-saxônico que exige total silêncio da audiência, o palestrante para público latino-americano deve estar preparado para discorrer seu assunto tendo como ruído de fundo o zumbido de vozes. Curiosamente, ele seria considerado mal educado ou impolido se pedir silêncio, deixando transparecer certa irritação para com os verdadeiros mal educados. 

Convenção do silêncio. 

Burke observa que existe um “acordo público” que nos induz ficarmos em silêncio em certas ocasiões. Num velório, solenidade, audiência pública, culto religioso, concerto musical, durante a execução do Hino Nacional, o silêncio é sinal de respeito e sintonia espiritual. Devemos evitar falar, ainda que baixinho, para não causar constrangimentos em ambientes sociais necessariamente silenciosos. O silêncio é natural porque faz parte da função biológica, quando estamos num banheiro, tentando dormir; ou psicológica, quando nos entregamos à introspecção; ou social, quando esperamos nossa vez, numa fila, cortejo fúnebre. 

O “silêncio é um dos elementos essenciais em todas as religiões”, observa G. Mensching. Há variedades de silêncio sagrado: pessoal, comunal, o ‘silêncio eleito’ dos monges e freiras de clausura, a oração silenciosa ou ‘mental’. “O silêncio religioso é um misto de respeito por uma divindade; uma técnica para abrir o ouvido interior; e um sentido de inadequação de palavras para descrever as realidades espirituais”, escreve P. Burke. 

É preciso “saber ficar em silêncio”, sentenciava La Rochefoucault. Os mal educados ignoram o sentido ético, estético, cultural, moral, jurídico e psicológico do silêncio. Assim como o sábio e o monge escolhem ficar mais tempo em silêncio – meditando, orando – podemos inferir que os verdadeiramente civilizados e comprometidos com a sabedoria são propensos a conversas intercaladas com o silêncio da prudência ao dizer e esperar o outro revelar seu ponto de vista. O silêncio atua como parte fundamental de uma conversação, que deve obedecer às regras de diversas situações, revelando assim o grau de civilidade das pessoas que participam dos diferentes encontros sociais. 

Existe o “silêncio localista” das igrejas, bibliotecas, museus e hospitais. Recebe um olhar de reprovação e um discreto psiu quem desrespeitar o silêncio necessário para rezar, estudar, apreciar, ouvir uma palestra, ou visitar um enfermo. 

Portanto, precisa ser reeducado aquele que desrespeita os locais de silêncio. A pessoa que fala pelos cotovelos palavras vazias, que sofre de incontinência verbal monopolizando a palavra, poderia receber benefícios incalculáveis psicanálise. É preciso compreender que excesso de palavras cansa, irrita, chateia, e termina boicotando a harmonização do ambiente social e comprometendo a própria imagem do falante compulsivo. 

Sabedoria e cálculo do silêncio

Vários ditados populares dão importância ao silêncio: “Deus nos deu uma boca e dois ouvidos para que possamos menos falar e mais ouvir”; “Manter a boca fechada e os olhos bem abertos”, diz uma versão italiana; “Em boca fechada não entra mosca”, dizem os espanhóis e portugueses. Os comerciantes europeus inventaram a metáfora “o silêncio é de ouro e palavra é de prata”. O provérbio árabe “cada palavra que tu falas é uma espada que te ameaças” induz a prudência e o cálculo sobre o que, como e em que ocasião falar. 

Existe uma relação íntima entre o silêncio e a prudência. O padre jesuíta Baltazar Gracian (séc.17) achava que “no silêncio cauteloso é que a prudência se refugia”. Ou seja, escolher ficar em silêncio não é valorizar a mudez, mas sim, saber calar de acordo com o lugar ou a ocasião: “Fale pouco, mas nunca pareça mudo e embaraçado...”, dizia uma antiga etiqueta social. Até o filósofo da linguagem, Wittgenstein (séc. 20), alertava que “Aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Enfim, o silêncio pode ser reconhecido como uma virtude que evita polêmicas desnecessárias e brigas perigosas. “Diante de tanta ignorância respondo com meu silêncio”, encurtava Rui Barbosa. 

Entretanto, diante da intolerância, do racismo e dos fundamentalismos, devemos ficar em silêncio? Nessas situações, o bom senso entende que “o dever do intelectual é romper o silêncio, ainda que sua voz seja abafada pelos poderosos e seus cúmplices de plantão[1]. “O grande cúmplice da tirania é o silêncio; não atacar o despotismo é a maneira mais covarde de servi-lo; não denunciá-lo é auxiliá-lo; estar próximo dele sem feri-lo é a maneira mais vil de protegê-lo; e proteger o crime é mil vezes pior que cometê-lo; eis aí a hora em que a palavra é um dever e o silêncio é um crime[2]

Nada justifica, portanto, que muitos intelectuais – principalmente aqueles que acreditam que a “esquerda deve ser, sempre, moral ou ética” fiquem calados diante do terrorismo (condenado, inclusive, por Che Guevara), do genocídio nos regimes totalitários autodenominados socialistas ou nacional-socialistas (nazi-fascistas), da corrupção, da delação em nome da “causa justa”. É triste reconhecer como o infantilismo ainda domina uma parte da esquerda que cultua personalidades e faz “turismo revolucionário[3], se alienando de ver o “todo”. Há que sustentar, sempre, uma atitude crítica das contradições dos regimes ou dos homens “demasiadamente humanos”. Tomás de Aquino dizia temer o homem que só conhece um livro [Timeo hominem unius libri]. Os homens sensatos deveriam desconfiar de todos os discursos, sobretudo os que produzem entorpecimento da razão crítica dos ouvintes condenados a somente ouvir em silêncio, repetindo o que o “grande mestre” diz. Os alunos deveriam questionar os professores que falam tanto como que obrigando os alunos a um silêncio de fé. Provavelmente, nesse caso, não temos ensino, mas sim, doutrinação. 

Hoje, convivemos com uma civilização complexa, dominada pelo fetiche tecnológico sem um código moral de como usar tais bugigangas. O celular, por exemplo, é útil, mas também pode ser um instrumento de incivilidade quando toca fora de hora e no lugar inadequado. Pior é quando o dono se acha no direito de atender, ali mesmo, sem cerimônia e sem vergonha, falando alto para quem quiser ouvir. E o que dizer daqueles que falam com o famigerado aparelho dirigindo seu carro? E os que rompem o silêncio imposto por uma prisão que serviria para fazerem seu exame de consciência e se sentem autorizados a usarem o aparelhinho para desencadear violência numa cidade como São Paulo? Fonte

[1] OZAI, Antonio. “Assim falou Vargas Vila”. Disponível em Revista Espaço Acadêmico, nº. 61, junho de 2006. Acesso em: jun. 2006. Acesso em: jun. 2006. 

[2] BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília: Companhia das Tetas Publicadora, 2005. (XLVIII). 

[3] O psicanalista Contardo Calligaris toma emprestado uma idéia de outro psicanalista, Fábio Hermann, que observou que o “turista é quem tira seu retrato colocando-se na frente do lugar visitado, mas olhando para a câmera: somos turistas quando viajamos de costas para o real [...]. Aos turistas revolucionários de Caracas, sugiro uma leitura. Rossana Rossanda acaba de publicar (na Itália) suas memórias, "La Ragazza del Secolo Scorso" (a moça do século passado; Einaudi)”. (CALLIGARIS, C. Os revolucionários silenciosos. Folha de S. Paulo, Cad. Ilustrada, 22 de junho de 2006.

A Escola dos meus Sonhos- Por Frei Betto

Na escola dos meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, a fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, a conhecer mecânica de automóvel e de geladeira e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra. Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limite da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a Matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o Português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a Geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a Física, nas corridas de Fórmula-1 e nas pesquisas do supertelescópio Huble; a Química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a História, na violência de policiais contra cidadãos, para mostrar os 
antecedentes na relação colonizadores - índios, senhores - escravos, Exército - Canudos, etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a História do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas. Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo, o pai-de-santo, do candomblé; o padre, do catolicismo; o médium, do espiritismo; o pastor, do protestantismo; o guru, do budismo, etc. Se for católica, há periódicos retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja. Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazer periódicos treinamentos e cursos de capacitação e só são admitidos se, além da competência, comungam os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido do que sejam democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente, a visão de felicidade, a relação animador-platéia, os tabus e preconceitos reforçados, etc. Em suma, não se fecham os olhos à realidade, muda-se a ótica de encará-la. Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e, um mês por ano, setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil, os alunos traziam para a classe a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar. Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e seus recursos. É mais importante educar do que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório.

Frei Betto é escritor, autor do romance "O Vencedor" (Ática), entre outros livros.

E.C.T. - Cássia Eller

Tava com cara
Que carimba postais
Que por descuido
Abriu uma carta que voltou
Levou um susto
Que lhe abriu a boca
Esse recado veio pra mim
Não pro senhor

Recebo o crack, colante
Dinheiro parco, embrulhado
Em papel carbono e barbante
Até cabelo cortado
Retrato de 3x4
Prá batizado distante
Mas isso aqui, meu senhor
É uma carta de amor...

Levo o mundo
E não vou lá
Levo o mundo e não vou

Mas esse cara
Tem a língua solta
A minha carta
Ele musicou
Tava em casa
A vitamina pronta
Ouvi no rádio
A minha carta
De amor

Dizendo:
Eu caso contente
Papel passado e presente
Desembrulhado o vestido
Eu volto logo, me espera
Não brigue nunca comigo
Eu quero ver nossos filhos
O professor me ensinou
Fazer uma carta de amor

Leve o mundo
Que eu vou já
Leve o mundo que eu vou

Mas esse cara
Tem a língua solta
A minha carta
Ele musicou
Tava em casa
A vitamina pronta
Ouvi no rádio
A minha carta
Sim senhor!

Dizendo:
Eu caso contente
Papel passado e presente
Desembrulhado o vestido
Eu volto logo, me espera
Não brigue nunca comigo
Eu quero ver nossos filhos
O professor me ensinou
Fazer uma carta de amor

Leve o mundo
Que eu vou já
Leve o mundo que eu vou

Todas as Vidas - Por Cora Coralina

Vive dentro de mim 
uma cabocla velha 
de mau-olhado, 
acocorada ao pé 
do borralho, 
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço... 
Ogum. Orixá. 
Macumba, terreiro. 
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho. 
Seu cheiro gostoso 
d'água e sabão. 
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa, 
pedra de anil.
Sua coroa verde 
de São-caetano.
Vive dentro de mim 
a mulher cozinheira. 
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro. 
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco. 
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim 
a mulher do povo. 
Bem proletária. 
Bem linguaruda, 
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha, 
e filharada. 
Vive dentro de mim
a mulher roceira. 
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira. 
Madrugadeira. 
Analfabeta. 
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos, 
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida. 
Minha irmãzinha... 
tão desprezada, 
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado. 
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida - 
a vida mera 
das obscuras!

21/02/2015

Tijolo por tijolo

“Eis o problema do gradual: ele é crônico, traiçoeiro e sutil. As pessoas estão acima do peso? Eu sei como chegaram lá: uma batata frita de cada vez. Não poluímos os rios em uma semana. Isso é resultado de anos de despejo de substâncias químicas. Sua empresa não contratou 30, 100 ou 1.000 funcionários desmotivados de uma vez. Levou anos para isso. O problema das coisas que acontecem gradualmente é que só percebemos o dano depois que ele se torna extremo. E o que ocorre quando nos damos conta dele? Entramos em pânico e concentramos todos os nossos esforços na busca por uma solução rápida. Mas a questão central é que não se conquista uma medalha de ouro olímpica com algumas semanas de treinamento intensivo; uma ópera não se torna uma sensação da noite para o dia. Cada empresa de sucesso, cada marca de sucesso, cada carreira de sucesso foi construída exatamente da mesma maneira: tijolo por tijolo, passo a passo. Se um elemento de uma empresa melhora um pouquinho todos os dias, a organização se torna imbatível.” – Seth Godin, autor de O melhor do mundo.

Como a mudança não acontece

“Pense num ovo. Dia após dia, ele está ali. Ninguém presta atenção nele. Ninguém o observa. Certamente ninguém tira uma foto dele ou o coloca na capa de uma revista de negócios. Até que um dia a casca se rompe e sai um pinto lá de dentro. De uma hora para outra, grandes revistas e jornais querem dar a notícia: ‘A espantosa reviravolta do Ovo’ e ‘O pinto que liderou uma revolução no Ovo’. Para o observador externo, sempre parece uma coisa súbita, como se o ovo tivesse, de forma repentina e radical, se transformado em um pinto. Trata-se de uma analogia tola – mas nossa forma convencional de ver as mudanças não é menos simplória. Todo mundo procura o ‘momento do milagre’ quando a mudança ocorre. Mas pergunte aos grandes executivos quando é que a transformação acontece. Eles não conseguem indicar um único evento-chave que exemplifique uma transição bem-sucedida.” – Jim Collins, autor de Empresas feitas para vencer. 

Livros para gênios? Por Claudio de Moura Castro

 
O Brasil tinha um currículo para gênios. Pena que faltassem alunos à altura. Em uma erupção de bom senso, o MEC produziu algumas diretrizes curriculares que encurtaram e enxugaram os conteúdos. Examinei recentemente um livro de matemática e física, já enquadrado nas novas diretrizes e voltado para alunos de modestíssimas ambições. Li para ver se entendia. Não entendi quase nada. Ou me perdia nas fórmulas ou não via ali algo que se conectasse com o meu mundo. Será que minha vida teria sido mais interessante ou produtiva se houvesse aprendido os princípios supremamente importantes da lei de Pouillet, de Kirchhoff ou o teorema de Binet, o D'Alembert, a extensão do teorema do resto, o plano de ArgandGauss, a divisão de números complexos na forma trigonométrica, o dispositivo de briot-Ruffini e as relações de Girard em uma equação do terceiro grau?

De metade a dois terços dos capítulos de física são dedicados a fórmulas matemáticas. Sobra pouco espaço para explicar o que significam no mundo real ou para que servem. Comparei com um texto americano de física para 1° ano de universidade: tem a mesma matemática, mas explica muito mais o que querem dizer os conceitos. No caso da parte de matemática, jamais se sugere que possa servir para alguma coisa. Em meu curso de doutorado, o conceito tão central de probabilidade merecia inúmeras páginas do livro. Imagino que alunos do secundário requeressem explicação ainda mais pausada. Mas terão de entender o mesmo conceito em cinco linhas e uma fórmula matemática. As fórmulas da hipérbole e elipse são apresentadas em sete páginas. Em um livro americano de 1° ano universitário, o mesmo material é mastigado em 28. A lei de Ohm, peça fundamental da eletricidade, ocupa um quarto de página. Os solenóides (sobre os quais o autor se esquece de dizer que todos os chamam de bobina), os capacitores e transformadores não têm melhor sina. Pergunte-se a qualquer técnico o que é um "curto-circuito" e ouviremos descrições de "pipocos" e fagulhas. O livro diz apenas que "um circuito estará em curto-circuito se interligado por um fio ideal". Fiquei imaginando tal "fio ideal". A eletrônica se perde em fórmulas e em uma abundância de teorias e conceitos que jamais se usam na prática também não ajudam a entender a miríade de equipamentos eletrônicos que nos cercam. De fato, não se fala nos semicondutores transistores que revolucionaram a eletrônica e criaram a informática.

Estamos diante de um precipício que separa duas visões do ensino. Pensava-se que pouco importava saber para que servem as teorias, o importante era o exercício mental de aprender a manipular conceitos abstratos (como os da matemática). Mas qual sentido de percorrer superficialmente e deitar erudição sobre centenas de teorias, o mesmo que se fazia nos lamentáveis livros em que estudei? Era de esperar progresso quase meio século depois. Hoje vimos que não é por aí, e os novos parâmetros curriculares "propõem um currículo baseado no domínio de competências básicas e não no acúmulo de informações" (MEC). São cruciais os conselhos para que o livro "contextualize" o que ensina. Isto é, que "tenha vínculos com os diversos contextos da vida do aluno", que conecte o que está sendo ensinado a problemas, fatos e circunstâncias próximos de sua vida. Sabemos com segurança, o importante é entender em profundidade algumas poucas ideias e não chafurdar em um pantanal de fórmulas e teoremas. Despejei peçonha nos currículos enciclopédicos do passado. Agora, o MEC tomou jeito, mas alguma coisa permanece travada. Um livro para alunos modestos de 2° grau no Brasil é mais árido e difícil que livros usados por universitários americanos. Sobrevive a miragem de que haja alunos capazes de entender e aproveitar o que está nesse livro. (Castro, 2000: 21) Apresentamos, a seguir, os mapeamentos que possibilitaram uma nova postura dos alunos ao considerarem a leitura como um processo e não uma atividade mecânica apenas
CASTRO, Claudio. Livros para gênios? - ponto de vista. In: Veja, São Paulo: Abril, Ed. 1638, ano 33, n° 9, p. 21, março, 2000. 

17/02/2015

Homenagem a Tomie Ohtake

101 anos e nenhuma vontade de parar de fazer arte. Tomie Ohtake disse uma vez que não sentia o peso da idade. “Ainda eu não estou sentindo nada de 100 anos. Nem percebi ainda”, contava a artista.
Só mesmo a morte conseguiu parar a artista plástica, uma trabalhadora incansável. Ela ensinou aos filhos que arte não deve ser privilégio de quem pode mais.
Que tipo de legado? A dedicação pela arte, acreditar que a arte ajuda uma cidade, a população. Então, uma arte para todos, não só para uma elite, mas para toda a população”, acredita o arquiteto Rui Ohtake.
Ricardo Ohtake, presidente do instituto que leva o nome da mãe, e que é um cartão postal de São Paulo, promete que em abril vamos poder ver trabalhos inéditos de Tomie.
No último ano, ela fez muitas pinturas e aí a gente achou que seria uma grande exposição”, conta Ricardo Ohtake, filho da artista.
A história de Tomie Ohtake tem muito a ver com a história de São Paulo. Imigrante, deixou o Japão e adotou São Paulo como a cidade do coração. A ligação que a artista tinha com a cidade não termina com a morte dela.
As obras de Tomie estão espalhadas por São Paulo para quem quiser ver. Uma delas fica no auditório dentro do Parque do Ibirapuera.
A dona de casa baixinha e suave que saiu de Kioto e adotou o bairro da Mooca aprendeu a pintar aos 40 anos e virou uma fera no abstracionismo, na gravura e na escultura.
A Tomie traz como contribuição para a arte brasileira essa capacidade de articular, o Oriente e o Ocidente, o gestual e o geométrico”, aponta Miguel Chaia, professor da PUC.
Ela usa metal, ela usa concreto, são obras pesadas, mas aparentemente elas são leves, elas flutuam”, analisa Cauê Alves, professor da Escola de Belas Artes.
Em japonês, Ohtake quer dizer “bambu forte”. É um paradoxo com a obra de Dona Tomie. Se topar com algo criado por ela, e isso não é difícil, aí sim você vai se sentir entrando em um tempo da delicadeza. Fonte

Filme conta a história do primeiro dia de aula de uma menina com paralisa cerebral

A história de Heloísa começou no livro e agora ganha movimento em um curta-metragem em animação.

Em "Por que Heloísa?", a autora Cristiana Soares se baseou numa história real para levar o espectador a repensar o conceito de deficiência.

O curta-metragem dá continuidade à trajetória de Heloísa, uma menina com paralisia cerebral, a partir do seu primeiro dia de aula em uma escola comum. Mostra também outros aspectos da primeira infância como suas relações familiares.

O vídeo apresenta recursos acessíveis para pessoas com deficiências auditiva e visual.

É de Cristiana Soares que escreveu o livro de mesmo nome e inspirou a produção do curta. Trata-se da história de uma garotinha muito simpática com paralisia cerebral. O filme aborda a sua dinâmica familiar e o início de sua nada fácil vida escolar desde seu primeiro dia de aula. Impressionante como Heloísa lida bem com situações que à primeira vista poderiam lhe intimidar, mas não, encara tudo com entusiasmo e bom-humor.

Muitas possibilidade de reflexões em torno do vídeo, no entanto destaco o viés da prática efetiva da Educação Inclusiva nas escolas e na sociedade de uma maneira geral. Que consigamos ampliar nossos entendimentos quanto ao assunto e pensar sobre a seguinte questão: o que podemos fazer diante das questões relacionadas a deficiência e como podemos educar e ampliar nosso olhar e nossa sensibilidade para a existência humana, no sentido de colaborar para a construção de um mundo melhor, não para nós ou para poucos, mas para todos? Fonte

Caro professor – Rubem Alves

Caro professor: compreendo a sua situação. Foi contratado para ensinar uma disciplina e ganha para isso. A escolha do programa não foi sua. Foi imposta. Veio de cima. Talvez tenha ideias diferentes. Mas isso é irrelevante. Tem de ensinar o que lhe foi ordenado. Será julgado pelos resultados do seu ensino – e disso depende o seu emprego. A avaliação do seu trabalho faz-se por meio da avaliação do desempenho dos seus alunos. Se, de uma forma sistemática, os seus alunos não aprenderem, é porque não tem competência.

O processo de avaliação dos alunos é curioso. Imagine uma pessoa que conheça uma série de ferramentas, a forma como são feitas, a forma como funcionam – mas não saiba para que servem. Os saberes que se ensinam nas escolas são ferramentas. Frequentemente os alunos dominam abstratamente os saberes, sem entretanto conhecerem a sua relação com a vida.

Como aconteceu com aquela assistente de bordo a quem perguntei o nome de um rio perto de Londrina, no norte do Paraná. Ela respondeu-me: Acho que é o São Francisco. Apanhei um susto. Pensei que tinha apanhado o voo errado e que estava a chegar ao norte de Minas… Garanto que, numa prova, a rapariga responderia certo. No mapa saberia onde se encontra São Francisco. Mas não aprendera a relação entre o símbolo e a realidade.

É possível que os alunos acumulem montanhas de conhecimentos que os levarão a passar nos exames, sem saber para que servem. Como acontece com os “vasos comunicantes” que qualquer pedreiro sabe para que servem sem, entretanto, conhecerem o seu nome. O pedreiro seria reprovado na avaliação escolar, mas construiria a casa no nível certo. Mas você não é culpado. Você é contratado para ensinar a disciplina.

Cada professor ensina uma disciplina diferente: Física, Química, Matemática, Geografia, etc. Isso é parte da tendência que dominou o desenvolvimento da ciência: especialização, fragmentação. A ciência não conhece o todo, conhece as partes. Essa tendência teve consequências para a prática da medicina: o corpo como uma máquina formada por partes isoladas. Mas o corpo não é uma máquina formada por partes isoladas.

Às vezes, as escolas fazem-me lembrar o Vaticano. O Vaticano, 400 anos depois, penitenciou-se sobre Galileu e está prestes a fazer as pazes com Darwin. Os currículos, só agora, muito depois da hora, estão a começar a falar de “interdisciplinaridade”. “Interdisciplinaridade” é isto: uma maçã é, ao mesmo tempo, uma realidade matemática, física, química, biológica, alimentar, estética, cultural, mitológica, econômica, geográfica, erótica…

Mas o fato é que você é o professor de uma disciplina específica. Ano após ano, hora após hora, ensina aquela disciplina. Mas, como ser de dever, tem de fazer de forma competente aquilo que lhe foi ordenado. A fim de sobreviver, faz o que deve fazer para passar na avaliação. A disciplina é o deus a quem você e os alunos se devem submeter. O pressuposto desse procedimento é que o saber é sempre uma coisa boa e que, mais cedo ou mais tarde, fará sentido.

São sobretudo os adolescentes que, movidos pela inteligência da contestação, perguntam sobre o sentido daquilo que têm de aprender. Mas frequentemente os professores não sabem dar respostas convincentes. Para quê aprender o uso dessa ferramenta complicadíssima se não sei para que serve e não vou usá-la? A única resposta é: Tens de aprender porque sai no exame – resposta que não convence por não ser inteligente mas simplesmente autoritária.

O que está pressuposto, nos nossos currículos, é que o saber é sempre bom. Isso talvez seja abstratamente verdade. Mas, nesse caso, teríamos de aprender tudo o que há para ser aprendido – o que é tarefa impossível. Quem acumula muito saber só prova um ponto: que é um idiota de memória boa. Não faz sentido aprender a arte de escalar montanhas nos desertos, nem a arte de fazer iglus nos trópicos. Abstratamente, todos os saberes podem ser úteis. Mas, na vida, a utilidade dos saberes subordina-se às exigências práticas do viver. Como diz Cecília Meireles: O mar é longo, a vida é curta.

Eu penso a educação ao contrário. Não começo com os saberes. Começo com a criança. Não julgo as crianças em função dos saberes. Julgo os saberes em função das crianças. É isso que distingue um educador. Os educadores olham primeiro para o aluno e depois para as disciplinas a serem ensinadas. Os educadores não estão ao serviço de saberes. Estão ao serviço de seres humanos – crianças, adultos, velhos. Dizia Nietzsche: Aquele que é um mestre, realmente um mestre, leva as coisas a sério – inclusive ele mesmo – somente em relação aos seus alunos. (Nietzsche, Além do bem e do mal).

Eu penso por meio de metáforas. As minhas ideias nascem da poesia. Descobri que o que penso sobre a educação está resumido num verso célebre de Fernando Pessoa: Navegar é preciso. Viver não é preciso.

Navegação é ciência, conhecimento rigoroso. Para navegar, são necessários barcos. E os barcos fazem-se com ciência, física, números, técnica. A própria navegação se faz com ciência: mapas, bússolas, coordenadas, meteorologia. Para a ciência da navegação é necessária a inteligência instrumental, que decifra o segredo dos meios. Barcos, remos, velas e bússolas são meios.

Já o viver não é coisa precisa. Nunca se sabe ao certo. A vida não se faz com ciência. Faz-se com sapiência. É possível ter a ciência da construção de barcos e, ao mesmo tempo, o terror de navegar. A ciência da navegação não nos dá o fascínio dos mares e os sonhos de portos onde chegar. Conheço um erudito que tudo sabe sobre filosofia, sem que a filosofia jamais tenha tocado a sua pele. A arte de viver não se faz com a inteligência instrumental. Ela faz-se com a inteligência amorosa.

A palavra amor tornou-se maldita entre os educadores que pensam a educação como ciência dos meios, ao lado de barcos, remos, velas e bússolas. Envergonham-se de que a educação seja coisa do amor-piegas. Mas o amor – Platão, Nietzsche e Freud sabiam-no – nada tem de piegas. O amor marca o impreciso círculo de prazer que liga o corpo aos objetos. Sem o amor tudo nos seria indiferente – inclusive a ciência.

Não teríamos sentido de direção, não teríamos prioridades. A inteligência instrumental precisa de ser educada. Parte da educação é ensinar a pensar. Mas essa educação, sendo necessária, não é suficiente. Os meios não bastam para nos trazer prazer e alegria – que são o sentido da vida. Para isso é preciso que a sensibilidade seja educada. Fernando Pessoa fala, então, na educação da sensibilidade.

Educação da sensibilidade: Marx, nos Manuscritos de 1844, dizia que a tarefa da História, até então, tinha sido a de educar os sentidos: aprender os prazeres dos olhos, dos ouvidos, do nariz, da boca, da pele, do pensamento (Ah! O prazer da leitura!). Se fôssemos animais, isso não seria necessário. Mas somos seres da cultura: inventamos objetos de prazer que não se encontram na natureza: a música, a pintura, a culinária, a arquitetura, os perfumes, os toques.

No corpo de cada aluno encontram-se, adormecidos, os sentidos. Como na história da Bela Adormecida… É preciso despertá-los, para que a sua capacidade de sentir prazer e alegria se expanda.

Rubem Alves
Gaiolas ou Asas
A arte do voo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004
(excertos adaptados)

Descubra se você tem perfil de Líder

Vídeo muito interessante que mostra as diferenças de um Líder ou Chefe no local de trabalho, e também serve para refletirmos de como devemos tratar alguém quando estamos no lugar de alguém que precisa coordenar pessoas e tomar decisões.

O que é tristeza pra você? Por Fê Sztok

Artista: Fê Sztok
Direção: Henrique Genereze e Rafael Nobre
Fotografia: Rafael Nobre
Edição: Diego Cardoso e Rodrigo Usberco

O que é tristeza pra você? Por Gezo Marques

Criação: Coletivo Centro
Produtora: Albiñana Films
Diretor: Nuno Baltazar
Trilha Sonora: Luciana Elaiuy e Thiago Duar
Artista: Gezo Marques
Atendimento Produtora: Vanessa Ferreira e Paola Maluf

O que é tristeza pra você? Por Rita Pires

Artista: Rita Pires
Dirigido, fotografado e editado por: André Saito & Cesar Nery
Trilha: Fê Sztok 
Arte Gráfica: Pedro Hefs
Agradecimento: Carla D’aqui, Família Saito, Família Pires, Coletivo Soy Loco por Ti, Érico Massoli.

O que é tristeza pra você? Por Julia Duarte

Artista: Julia Duarte
Direção: Los Cabras
Fotografia: Thiago Reys
Música: In A Dream I'm Not Here - Cover de Julie Cocq (Original de Johnny Ripper)
Edição: Thiago Reys
Motion - Color: Antonio Adriano
Tradução: Cesar Nery
Agradecimentos: Cesar Nery, Pedro Cury, Fernanda Baffa

Documentário parte do projeto Thomás Tristonho

Artistas revelam suas perspectivas a respeito do tema tristeza
Uma série de mini-documentários que circundam o projeto Thomás Tristonho (“A história de um triste garoto que acredita ter o poder de entristecer tudo o que toca”), cujo carro-chefe é um curta-metragem de mesmo nome. Os artistas envolvidos nele revelam suas perspectivas a respeito do tema “Tristeza”, enquanto somos apresentados aos seus traços.
Artista: Hélio Leites
Dirigido, fotografado e editado por: André Saito & Cesar Nery
Trilha original: Fê Sztok e André Saito
Arte Gráfica: Pedro Hefs

Pequenas felicidades - Por Cecília Meireles

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Nunca houve mais vazio no coração do que no presente…

Digo que fomos os que melhor encaramos nossa época e nossas terras inquisitivamente, como um médico a diagnosticar uma doença profunda. Nunca houve, todavia, mais vazio (falsidade?) no coração do que no presente — e aqui nos Estados Unidos. A crença genuína parece ter nos abandonado. Não cremos honestamente nos princípios básicos dos Estados (por todo esse brilho frenético e esses gritos melodramáticos), nem mesmo na própria humanidade. Que olho penetrante não vê, em todos os lugares, através da máscara?

O espetáculo é pavoroso. Vivemos em uma atmosfera de hipocrisia por toda parte. Os homens não acreditam nas mulheres, nem as mulheres nos homens. Uma arrogância desdenhosa dita as regras na literatura. O objetivo de todos os literatos é encontrar algo para ridicularizar. Uma variedade de igrejas, seitas, etc — os fantasmas mais sombrios que conheço — usurpam o nome da religião.

A conversação é uma massa de zombaria. Do engano no espírito, o pai de todas as falsas ações, a prole já é incalculável. Uma pessoa perspicaz e sincera no Departamento da Receita em Washington, que é levada, por conta de seu trabalho, a visitar regularmente muitas cidades ao norte, sul e oeste para investigar fraudes, tem falado muito comigo sobre suas descobertas. A depravação das classes empresariais de nosso país não é menor do que se supunha, mas infinitamente maior. Os serviços oficiais americanos — nacionais, estaduais e municipais — em todas as suas filiais e departamentos, com exceção do Judiciário, estão saturados em corrupção, suborno, falsidade, má administração; e o Judiciário [já] está contaminado. As grandes cidades fedem tanto com o roubo e a patifaria respeitável, quanto com a não-respeitável.

Na vida moderna, frivolidade, amores tépidos, infidelidade débil, objetivos mediocres, ou completa falta de objetivos, apenas para matar o tempo. Nos negócios (esses do mundo moderno que a tudo devoram), o único objetivo é o ganho monetário, por qualquer meio [disponível]. Na fábula, a serpente do mago comeu todas as outras serpentes; e o fazer dinheiro é a nossa serpente do mago, permanecendo hoje em dia como o único mestre em toda esfera de ação.