Licensa

10/08/2015

A semente e os frutos - Maria Rosa Colaço

A literatura para crianças é como uma semente de palmeira que, há mais de seis meses, um africano me vendeu, ali, para os lados do Martim Moniz. Num cesto pequenino tinha dez sementes ovais, duras, quase esquecidas. Era o seu negócio, tudo o que possuía, possivelmente o que lhe restava do seu país de sol e florestas onde talvez não regresse mais. Afagava as sementes, tocava-lhes e garantia:
— Leve, senhora! Primeiro, põe na água oito dias, depois mete na terra e rega pouco- pouco. Quando estiver quase a esquecer que tem lá uma semente enterrada, vai ver que nasce uma folhinha verde. Depois, é só esperar, que vai crescer até ficar grande, assim!
E com a mão de dedos esguios, marcava por alturas do coração o tamanho da palmeira. A convicção do vendedor e outras convicções que não vêm agora ao caso levaram-me a comprar a pequena semente. Meti-a na carteira, e nunca mais me lembrei que a tinha. Um dia, numa loja cheia de gente, abro o porta-moedas, a semente cai no chão e consegui pôr meio-mundo de cócoras a procurá-la como se tivesse perdido a maior preciosidade do mundo.
A menina da caixa lá a encontrou, debaixo do estrado. Uns senhores apressados já me olhavam como se eu tivesse fugido de um centro de doentes mentais em estado último de gravidade. Uma senhora, muito cheia de laca, ainda murmurou em tom bastante audível:
— Pensei que andavam à procura de algum anel, mas aquilo não é um caroço?
Foi uma vergonha, mas recuperei a semente de palmeira que, subitamente, adquirira a importância de um amuleto, de um cristal contra as ondas negativas como o que a Ana me trouxe do Brasil num saquinho que diz Princípio e Fim. Fui para casa, lá segui o conselho do vendedor de palmeiras – É preciso nunca faltar com a água –, depois esqueci-me outra vez que a tinha semeado e fui plantar hortelã no mesmo vaso. Mas, ao mexer na terra, lá encontro a semente com uma quase invisível pontinha verde, a começar a germinar.
E agora tenho a certeza que, lá para o ano dois mil e tal, se Deus me der vida e sonho, vou ter uma palmeira africana, que depois se encherá de cachos de pequenas tâmaras…
A princípio, nas escolas, ninguém saía dos mais que insípidos e gastos textos do livrinho de leitura. Não tinham tempo, os programas são um horror, os inspetores uns chatos, só ligam a burocracias, aos papéis, querem lá saber de criatividade. Mas, a pouco e pouco, lenta mas eficazmente, os pelouros da cultura de certas autarquias foram alargando as iniciativas, organizando colóquios, abrindo bibliotecas, dinamizando a leitura, convidando os escritores e pronto! Nasceu a ponte para o outro lado da alegria.
Agora, aí andamos nós a caminho das escolas, calcorreando estradas, conversando com os meninos que trabalham nos textos, fazem exposições, querem saber coisas, escrevem poemas, cantam, recitam e nos olham por dentro da alma, sem se importarem se somos novos ou velhos, se estamos bem ou mal vestidos. E é isto, esta disponibilidade para a fantasia, para repartir o coração, para oferecer a flor, o desenho, o beijo, que comove e nos faz sentir que vale a pena.
Mas ainda há sítios em que se negam, em que ficam sentados na sombra, em que têm medo de sonhar, de soltar-se, de abrir as janelas das salas de aulas para entrar a luz e o perfume das estações.
Mas, hoje, tenho a certeza: como a semente de palmeira, o que é preciso é paciência; o sonho bem regado acaba por dar raízes! É só esperar! O africano é que sabe.
Maria Rosa Colaço
Ela ainda mora aqui
Lisboa, Ed. Escritor, 1998
Adaptação

Jardins - Rubem Alves

Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mágico que me levava instantaneamente a viajar pelo mundo… Lendo, eu deixava de ser o menino pobre que era e tornava-me um outro. Vejo-me sentado no chão, num dos quartos do sótão do meu avô. Via figuras. Era um livro, folhas de tecido vermelho. Nas suas páginas alguém colara gravuras, recortadas de revistas. Não sei quem o fez. Só sei que quem o fez amava as crianças. Eu passava horas a ver as figuras e nunca me cansava de as ver.
Um outro livro que me encantava era o Jeca Tatu, do Monteiro Lobato. Começava assim: "Jeca Tatu era um pobre caboclo…". De tanto ouvir a estória lida para mim, acabei por sabê-lo de cor. "De cor": no coração. Aquilo que o coração ama não é jamais esquecido. E eu "lia-o" para a minha tia Mema, que estava doente, presa numa cadeira de baloiço. Ela ria com o seu sorriso suave, ouvindo a minha leitura.
Um outro livro que eu amava pertencera à minha mãe quando era criança. Era um livro muito velho. Façam as contas: a minha mãe nasceu em 1896… Na capa havia um menino e uma menina que brincavam com o globo terrestre. Era um livro que me fazia viajar por países e povos distantes e estranhos. Gravuras apenas. Esquimós, com as suas roupas de couro, dando tiros para o ar, saudando o fim do seu longo inverno. Em baixo, a explicação: "Onde os esquimós vivem, a noite é muito longa; dura seis meses". Um crocodilo, boca enorme aberta, com os seus dentes pontiagudos, e um negro a arrastar-se na sua direcção, tendo na mão direita um pau com duas pontas afiadas. O que ele queria era introduzir o pau na boca do crocodilo, sem que ele se desse conta. Quando o crocodilo fechasse a boca estaria fisgado e haveria festa e comedoria!
Na gravura dedicada aos Estados Unidos havia um edifício, com a explicação assombrosa: "Nos Estados Unidos há casas com dez andares…". Mas a gravura que mais mexia comigo representava um menino e uma menina a brincar, querendo fazer um jardim. Na verdade, era mais que um jardim. Era um minicenário. Haviam feito montanhas de terra e pedra. Entre as montanhas, um lago cuja água, transbordando, transformava-se num riachinho.
E, nas suas margens, o menino e a menina haviam plantado uma floresta de pequenas plantas e musgos. A menina enchia o lago com um regador. Eu não me contentava em ver o jardim: largava o livro e ia para a horta, com a ideia de plantar um jardim parecido. E assim passava toda uma tarde, fazendo o meu jardim e usando galhos de hortelã como as árvores da floresta…
Onde foi parar o livro da minha mãe? Não sei. Também não importa. Ele continua aberto dentro de mim.
Rubem Alves
Mansamente pastam as ovelhas…
São Paulo, Papirus Editora, 2002

03/05/2015

O Cavalo e o Seu Cuidador

Os Bajuladores não são confiáveis
O Cavalo e o Seu Tratador
O fingimento é a natureza original do Hipócrita...
Um zeloso empregado de uma cocheira, costumava passar horas, e as vezes dias inteiros, limpando e escovando o pelo de um cavalo que estava sob seus cuidados.
Agindo assim, passava para todos a impressão de que era gentil para com o animal, que se preocupava com o seu bem estar.
Entretanto, ao mesmo tempo que o acariciava diante de todos, sem que ninguém suspeitasse, roubava a maior parte dos grãos de aveia destinados à alimentar o pobre animal, e os vendia às escondidas para obter lucro.
Então o cavalo se volta para ele e diz:
"Acho apenas que se o senhor de fato desejasse me ver em boas condições, me acariciava menos e me alimentava mais..."
Moral da História:
Devemos desconfiar sempre dos exibicionistas que fazem questão de promover publicamente suas próprias virtudes.


Notas sobre O Autor:[1] Esopo, o mais conhecido dentre os fabulistas, foi sem dúvida um grande sábio que viveu na antiguidade. Sua origem é um mistério cercado de muitas lendas. Mas, pode ter ocorrido por volta do ano 620 A.C. 
Várias cidades se colocam como seu local de nascimento, e é comum que o tratem como originário de uma cidade chamada Cotiaeum na província da antiga Frígia, Grécia. 
Acredita-se que já nasceu escravo, e pertenceu a dois senhores. O Segundo, viria a torná-lo livre ao reconhecer sua grande e natural sabedoria. Conta-se que mais tarde ele se tornaria embaixador. 
Em suas fábulas ou parábolas, ricas em ensinamentos, ele retrata o drama existencial do homem, substituindo os personagens humanos por animais, objetos, ou coisas do reino vegetal e mineral.

26/04/2015

Último discurso de Martin Luther King

Frequentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é dominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos de morte.
Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num sentido angustiante.
Freqüentemente pergunto a mim mesmo que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui com vocês a resposta.
Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembre-se de que não quero um longo funeral. Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe 
- para não falar muito;
- para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante;
- para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que
- eu tentei dar minha vida a serviço dos outros;
- eu tentei amar alguém;
- eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo;
- eu tentei visitar os que estavam na prisão;
- eu tentei vestir um mendigo;
- eu tentei amar e servir a humanidade.
Sim, se quiseres dizer algo, digam que
EU FUI ARAUTO:
- arauto de justiça;
- arauto de paz;
- arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar atrás
- nenhum dinheiro;
- coisas finas e luxuosas.
Só quero deixar atrás
- uma vida de dedicação.
E isto é tudo o que tenho a dizer:
SE EU PUDER
- ajudar alguém e seguir adiante;
- animar alguém com uma canção;
- mostrar a alguém o caminho certo;
- cumprir meu dever de cristão;
- levar a solução para alguém;
- divulgar a mensagem que o Senhor deixou;
então,
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO.

Mentira - Rui Barbosa

"Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o Padre Vieira, que não chegou a conhecer o Dr. Urbano dos Santos, o próprio sol mentia ao Maranhão, e diríeis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentiras nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados aos caudilhos, mentira de caudilhos e apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindoiros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que, à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso."
Associação Comercial do Rio de Janeiro
Obras Completas de Rui Barbosa. 
V. 46, t. 1, 1919. p. 31

Medo - Juliana Duzzo

Medo de falar, de ouvir...
De falar muito e muito pouco, de ouvir o que não se quer, ou o que se queria ouvir, mas imaginava que jamais ouviria.
Medo de encarar...
Medo de encarar os medos, medo de dizer oi, de dizer tchau...
Medo de rir na hora errada e chorar de assustada.
Medo de não saber o que dizer... de ir, de ficar, de não saber se ficar, se ir...
Medo de discar o último dígito, alguém atender e não se saber o que falar...
Medo de discar e não atender nunca mais.
Medo de ter medo. Medo de ter coragem de fazer a coisa errada. Ou, a coisa certa e acertar. Mas mesmo assim sofrer, mesmo assim chorar.
Medo de tudo, medo do escuro, medo da luz, da noite, do dia, da tarde...
Medo do telefone, do e-mail, do carteiro, dos conhecidos, dos amigos, dos parentes, dos pais.
Medo de qualquer um que possa dizer o que não se quer ouvir.
Ou dos que não dizem o que se precisa dizer.
Medo de se enganar, ou de já saber demais, mesmo sem nada saber.
Medo de ti.
Medo de mim.

Saudade - Kátia Simone Menegat

Lembrar das coisas ruins, das que me fizeram sofrer, dos sonhos não realizados, eu não queria. Para que sofrer com coisas inúteis, como o acidente que sofremos há muitos anos, a mentira que nos contaram, como quando nos difamaram? Eu não queria.

Se eu pudesse, esqueceria daquele amor não correspondido, das brigas que me fizeram sofrer, das pessoas que por mim passaram e causaram muitos estragos. Lembrar, eu não queria. 
Mas por que, então? Porque guardamos um espaço em nossa mente e coração para a imagem de quem não gostamos, de quem desprezamos, de quem não queremos ouvir falar? Por que ainda memorizamos seus rostos, e também os acontecimento passados e tão nocivos ao nosso presente, que só nos fazem sofrer? Sinceramente, eu não queria. 
As lembranças que ficam não podem ser apagadas, embora muitas vezes as tentamos mascarar. E aquela pessoa, aquele acontecimento, aquilo que queríamos esquecer vai estar sempre lá, mesmo que não a queiramos. E eu, realmente, não os queria. 
Mas a memória tem seu valor, e é isso que faz com que lembremos das coisas boas que vivemos, apesar dos acontecimento ruins; das pessoas maravilhosas que encontramos, apesar daquelas com quem nos desencontramos; e dos momentos preciosos pelos quais passamos, apesar daqueles que apenas passaram por nós. 
Mesmo que haja o mau, haverá sempre o bom a ser lembrado, e mesmo que existam coisas que queríamos esquecer, sem o que lembramos, quem haveríamos de ser? Sem nossas lembrança, esqueceríamos de muitas coisas, mas mais do que isso,desconheceríamos o significado de uma coisa que nos faz crescer,idealizar, sonhar e sorrir: a saudade. 
Dizer que não quero lembrar é, então, dizer que não a queria.

22/04/2015

Palavras - Manoel de Barros

Palavra dentro da qual estou a milhões 
de anos é árvore. 
Pedra também. 
Eu tenho precedências para pedra. 
Pássaro também. 
Não posso ver nenhuma dessas palavras que 
não leve um susto. 

Andarilho também. 
Não posso ver a palavra andarilho que 
eu não tenha vontade de dormir debaixo de uma árvore. Que eu não tenha vontade de olhar com 
espanto, de novo, aquele homem do saco 
a passar como um rei de andrajos nos 
arruados de minha aldeia. 

E tem mais uma: as andorinhas, 
pelo que sei, consideram os andarilhos 
como árvore.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

Meu avô - Manoel de Barros

Meu avô dava grandeza ao abandono. 
Era com ele que vinham os ventos a conversar 
Sentava-se o velho sobre uma pedra nos fundos 
do quintal 
E vinham as pombas e vinham as moscas a 
Conversar. Saía do fundo do quintal para dentro da 
casa 
E vinham os gatos a conversar com ele. 
Tenho certeza que o meu avô enriquecia 
a palavra abandono. 
Ele ampliava a solidão dessa palavra.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

A língua mãe - Manoel de Barros

Não sinto o mesmo gosto nas palavras: 
oiseau e pássaro. 
Embora elas tenham o mesmo sentido. 
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe? 
Seria porque eu não tenha amor pela língua 
de Flaubert? 
Mas eu tenho. 
(Faço este registro 
porque tenho a estupefação 
de não sentir com a mesma riqueza as 
palavras oiseau e pássaro) 

Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância 
E oiseau não repercute. 
Pensão que a palavra pássaro carrega até hoje 
Nela o menino que ia de tarde pra 
debaixo das árvores a ouvir os pássaros. 
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux 
Só tinha pássaros. 
É o que me ocorre sobre língua mãe.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

O amor - Manoel de Barros

Fazer pessoas no frasco não é fácil 
Mas se eu estudar ciências eu faço. 

Sendo que não é melhor do que fazer 
pessoas na cama 
Nem na rede 
Nem mesmo no jirau como os índios fazem. 
(no jirau é coisa primitiva, eu sei, 
Mas é bastante proveitosa) 

Para fazer pessoas ninguém ainda não 
Inventou nada melhor que o amor. 
Deus ajeitou isso pra nós de presente. 
De forma que não é aconselhável trocar 
o amor por vidro.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

Eras - Manoel de Barros

Antes a gente falava: faz de conta que 
este sapo é pedra. 
E o sapo eras. 
Faz de conta que o menino é um tau. 
A gente agora parou de fazer comunhão de 
Pessoas com bicho, de entes com coisas. 
A gente hoje faz imagens. 
Tipo assim: 
Encostado na Porta da Tarde estava um 
Caramujo. 
Estavas um caramujo – disse o menino 
Porque a Tarde é oca e não pode ter porta. 
A porta eras. 
Então é tudo faz de conta como antes?
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

O fazedor de amanhecer - Manoel de Barros

Sou leso em tratagens com máquina. 
Tenho desapetite para inventar coisas 
prestáveis. 
Em toda a minha vida só engenhei 
3 máquinas 
Como sejam: 
Uma pequena manivela para pegar no sono. 
Um fazedor de amanhecer 
para usamentos de poetas 
E um platinado de mandioca para o 
fordeco do meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca. 
Fui aclamado de idiota pela maioria 
das autoridades na entrega do prêmio. 
Pelo que fiquei um tanto soberbo. 
E a glória eternizou-se para sempre em minha existência.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

25/02/2015

Dor sem nome

DOR SEM NOME
Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?
Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?

Esta é a dor Sem Nome
Só sei que é uma dor enorme
Que dilacera o coração
Que feriu meu coração

Nossa Senhora entende essa dor
Pois recebeu da Cruz Jesus sem vida
O Filho que brotou do seu Sim
Morto pelo não dos homens
Do Sem Nome

Entrega pra Mãe sua dor de Mãe
Entrega pra Deus sua dor de Pai
Entrega pra Deus seu coração que grita:
Porque levou pedaço de mim?
Porque feriu meu coração?

Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?
Filho quando perde o pai ou mãe é órfão
Pai e mãe quando perde o filho que nome tem esta dor?
Depressão - crescer com o sofrimento - Dr. Roque Savioli

23/02/2015

A sabedoria do silêncio - Por RAYMUNDO DE LIMA

“Dentre todas as manifestações humanas, o silêncio continua sendo a que, de maneira muito pura, melhor exprime a estrutura densa e compacta, sem ruído nem palavras, de nosso inconsciente próprio” (J.-D. Nasio) 

“O analista não tem medo do silêncio [...]; ele não escuta somente o que está nas palavras, escuta também o que as palavras não dizem. Escuta com a “terceira orelha”... (T. Reik) 

"Na Finlândia, se você está feliz, deve estar em silêncio para ouvir os próprios pensamentos” (?)

É praticamente impossível esperar que crianças e adolescentes naturalmente fiquem em silêncio numa missa, aula, teatro, concerto musical, reunião, cinema. Os adultos, por sua vez, deviam dar o exemplo ficando de boca fechada nas igrejas antes ou durante missa, numa palestra, na biblioteca, etc. Será que existe medo do silêncio, necessário para reflexão? 

Para ler e compreender um texto filosófico ou teológico, um poema, é preciso silêncio. Há músicas que só podem ser ouvidas sob um fundo de silêncio. Os retiros espirituais são importantes para capacitar as pessoas a conviverem melhor consigo mesmas; aprender a controlar a inquietação de nossa alma, rumo à ascese. Não “treinar” o silêncio é se entregar à fala vazia ou boba, reforçando um estilo sustentado na ignorância. 

O combate contra a ignorância é a meta de toda educação” diz o professor da UFMG, Roberto Jamil Cury. “Se a barbárie está presente através de atos na própria civilização, desbarbarizar tornou-se uma questão urgente da educação”, alertava o filósofo T. Adorno, na década de 1950. 

Contudo, o elogio ao silêncio como sinal de educação deve ser rompido, sempre, para protestar contra os atos que causam direta ou indiretamente indignação, violência e destruição. 

Silêncio para ensinar. 

Os professores do ensino fundamental e médio, atualmente, reclamam que na sala de aula passam mais tempo pedindo silêncio aos alunos do que ensinando. Apesar dos sinais de barbárie na escola contemporânea, pouco se tem feito para impedir o seu avanço. Que fazer se os especialistas em educação se limitam a rotina de produção teórica abstracionista, e os responsáveis pelo sistema educacional continuam fugindo do compromisso de fazer “dialética do concreto” com o cotidiano das relações humanas na escola e na universidade? Onde está o equilíbrio entre conhecimento e sabedoria na formação dos professores para o futuro? Quem educará os pais para melhor educar os filhos? 

Um dos efeitos da “geração net” é não respeitar os espaços cujo silêncio é quase obrigatório. Além de não suportar o silêncio necessário para introspecção, a “geração net” não tem paciência de seguir o fio condutor de uma conversa. Quanto mais jovem, mais rapidamente passa de um tema para outro ou troca de interlocutor como quem aperta o botão do controle remoto da TV. Mais do que impaciência, tais atitudes podem também revelar intolerância e desrespeito para com o próximo e falta de sintonia com o ambiente. 

Como imaginam que “mandam no pedaço”, crianças e adolescentes se acham no direito de interromper a conversa dos adultos por motivo fútil. Os adultos, por sua vez, fingem que aceitam a atitude grosseira, ou se acovardam, deixando de exercer a autoridade de educadores, cujo resultado previsível é a incivilidade. 

Muitas pessoas estão deixando de freqüentar os cinemas para evitar constrangimentos com platéias mal educadas, barulhentas, parecendo estar mais interessadas em comer pipoca e dar arrotos de refrigerantes do que assistir ao filme em silêncio. (Existe diferença entre a demonstração de incivilidade do MLST no Congresso Nacional, as depredações das escolas públicas, ou outras menos barulhentas promovidas pelas gangs no dia-a-dia urbano?). 

Mede-se o nível de ensino de uma universidade pelo grau de silêncio de sua biblioteca. Alunos de alguns cursos de nível superior são mais propensos ao zunzunzun da “conversa paralela” que, sem querer-querendo, termina atrapalhando o silêncio imprescindível para ouvir uma exposição oral. Se o assunto é complexo e/ou o professor tem o estilo monótono, aumenta a probabilidade de dispersão e cochichos inconvenientes. O historiador Peter Burke observa que essa inclinação para romper a romper com o silêncio necessário de uma aula, nos países latinos, talvez viria de costume cultural de “tentar ouvir muitas pessoas falando ao mesmo tempo”. Ao contrário do costume anglo-saxônico que exige total silêncio da audiência, o palestrante para público latino-americano deve estar preparado para discorrer seu assunto tendo como ruído de fundo o zumbido de vozes. Curiosamente, ele seria considerado mal educado ou impolido se pedir silêncio, deixando transparecer certa irritação para com os verdadeiros mal educados. 

Convenção do silêncio. 

Burke observa que existe um “acordo público” que nos induz ficarmos em silêncio em certas ocasiões. Num velório, solenidade, audiência pública, culto religioso, concerto musical, durante a execução do Hino Nacional, o silêncio é sinal de respeito e sintonia espiritual. Devemos evitar falar, ainda que baixinho, para não causar constrangimentos em ambientes sociais necessariamente silenciosos. O silêncio é natural porque faz parte da função biológica, quando estamos num banheiro, tentando dormir; ou psicológica, quando nos entregamos à introspecção; ou social, quando esperamos nossa vez, numa fila, cortejo fúnebre. 

O “silêncio é um dos elementos essenciais em todas as religiões”, observa G. Mensching. Há variedades de silêncio sagrado: pessoal, comunal, o ‘silêncio eleito’ dos monges e freiras de clausura, a oração silenciosa ou ‘mental’. “O silêncio religioso é um misto de respeito por uma divindade; uma técnica para abrir o ouvido interior; e um sentido de inadequação de palavras para descrever as realidades espirituais”, escreve P. Burke. 

É preciso “saber ficar em silêncio”, sentenciava La Rochefoucault. Os mal educados ignoram o sentido ético, estético, cultural, moral, jurídico e psicológico do silêncio. Assim como o sábio e o monge escolhem ficar mais tempo em silêncio – meditando, orando – podemos inferir que os verdadeiramente civilizados e comprometidos com a sabedoria são propensos a conversas intercaladas com o silêncio da prudência ao dizer e esperar o outro revelar seu ponto de vista. O silêncio atua como parte fundamental de uma conversação, que deve obedecer às regras de diversas situações, revelando assim o grau de civilidade das pessoas que participam dos diferentes encontros sociais. 

Existe o “silêncio localista” das igrejas, bibliotecas, museus e hospitais. Recebe um olhar de reprovação e um discreto psiu quem desrespeitar o silêncio necessário para rezar, estudar, apreciar, ouvir uma palestra, ou visitar um enfermo. 

Portanto, precisa ser reeducado aquele que desrespeita os locais de silêncio. A pessoa que fala pelos cotovelos palavras vazias, que sofre de incontinência verbal monopolizando a palavra, poderia receber benefícios incalculáveis psicanálise. É preciso compreender que excesso de palavras cansa, irrita, chateia, e termina boicotando a harmonização do ambiente social e comprometendo a própria imagem do falante compulsivo. 

Sabedoria e cálculo do silêncio

Vários ditados populares dão importância ao silêncio: “Deus nos deu uma boca e dois ouvidos para que possamos menos falar e mais ouvir”; “Manter a boca fechada e os olhos bem abertos”, diz uma versão italiana; “Em boca fechada não entra mosca”, dizem os espanhóis e portugueses. Os comerciantes europeus inventaram a metáfora “o silêncio é de ouro e palavra é de prata”. O provérbio árabe “cada palavra que tu falas é uma espada que te ameaças” induz a prudência e o cálculo sobre o que, como e em que ocasião falar. 

Existe uma relação íntima entre o silêncio e a prudência. O padre jesuíta Baltazar Gracian (séc.17) achava que “no silêncio cauteloso é que a prudência se refugia”. Ou seja, escolher ficar em silêncio não é valorizar a mudez, mas sim, saber calar de acordo com o lugar ou a ocasião: “Fale pouco, mas nunca pareça mudo e embaraçado...”, dizia uma antiga etiqueta social. Até o filósofo da linguagem, Wittgenstein (séc. 20), alertava que “Aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Enfim, o silêncio pode ser reconhecido como uma virtude que evita polêmicas desnecessárias e brigas perigosas. “Diante de tanta ignorância respondo com meu silêncio”, encurtava Rui Barbosa. 

Entretanto, diante da intolerância, do racismo e dos fundamentalismos, devemos ficar em silêncio? Nessas situações, o bom senso entende que “o dever do intelectual é romper o silêncio, ainda que sua voz seja abafada pelos poderosos e seus cúmplices de plantão[1]. “O grande cúmplice da tirania é o silêncio; não atacar o despotismo é a maneira mais covarde de servi-lo; não denunciá-lo é auxiliá-lo; estar próximo dele sem feri-lo é a maneira mais vil de protegê-lo; e proteger o crime é mil vezes pior que cometê-lo; eis aí a hora em que a palavra é um dever e o silêncio é um crime[2]

Nada justifica, portanto, que muitos intelectuais – principalmente aqueles que acreditam que a “esquerda deve ser, sempre, moral ou ética” fiquem calados diante do terrorismo (condenado, inclusive, por Che Guevara), do genocídio nos regimes totalitários autodenominados socialistas ou nacional-socialistas (nazi-fascistas), da corrupção, da delação em nome da “causa justa”. É triste reconhecer como o infantilismo ainda domina uma parte da esquerda que cultua personalidades e faz “turismo revolucionário[3], se alienando de ver o “todo”. Há que sustentar, sempre, uma atitude crítica das contradições dos regimes ou dos homens “demasiadamente humanos”. Tomás de Aquino dizia temer o homem que só conhece um livro [Timeo hominem unius libri]. Os homens sensatos deveriam desconfiar de todos os discursos, sobretudo os que produzem entorpecimento da razão crítica dos ouvintes condenados a somente ouvir em silêncio, repetindo o que o “grande mestre” diz. Os alunos deveriam questionar os professores que falam tanto como que obrigando os alunos a um silêncio de fé. Provavelmente, nesse caso, não temos ensino, mas sim, doutrinação. 

Hoje, convivemos com uma civilização complexa, dominada pelo fetiche tecnológico sem um código moral de como usar tais bugigangas. O celular, por exemplo, é útil, mas também pode ser um instrumento de incivilidade quando toca fora de hora e no lugar inadequado. Pior é quando o dono se acha no direito de atender, ali mesmo, sem cerimônia e sem vergonha, falando alto para quem quiser ouvir. E o que dizer daqueles que falam com o famigerado aparelho dirigindo seu carro? E os que rompem o silêncio imposto por uma prisão que serviria para fazerem seu exame de consciência e se sentem autorizados a usarem o aparelhinho para desencadear violência numa cidade como São Paulo? Fonte

[1] OZAI, Antonio. “Assim falou Vargas Vila”. Disponível em Revista Espaço Acadêmico, nº. 61, junho de 2006. Acesso em: jun. 2006. Acesso em: jun. 2006. 

[2] BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília: Companhia das Tetas Publicadora, 2005. (XLVIII). 

[3] O psicanalista Contardo Calligaris toma emprestado uma idéia de outro psicanalista, Fábio Hermann, que observou que o “turista é quem tira seu retrato colocando-se na frente do lugar visitado, mas olhando para a câmera: somos turistas quando viajamos de costas para o real [...]. Aos turistas revolucionários de Caracas, sugiro uma leitura. Rossana Rossanda acaba de publicar (na Itália) suas memórias, "La Ragazza del Secolo Scorso" (a moça do século passado; Einaudi)”. (CALLIGARIS, C. Os revolucionários silenciosos. Folha de S. Paulo, Cad. Ilustrada, 22 de junho de 2006.

A Escola dos meus Sonhos- Por Frei Betto

Na escola dos meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, a fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, a conhecer mecânica de automóvel e de geladeira e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra. Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limite da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a Matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o Português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a Geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a Física, nas corridas de Fórmula-1 e nas pesquisas do supertelescópio Huble; a Química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a História, na violência de policiais contra cidadãos, para mostrar os 
antecedentes na relação colonizadores - índios, senhores - escravos, Exército - Canudos, etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a História do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas. Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo, o pai-de-santo, do candomblé; o padre, do catolicismo; o médium, do espiritismo; o pastor, do protestantismo; o guru, do budismo, etc. Se for católica, há periódicos retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja. Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazer periódicos treinamentos e cursos de capacitação e só são admitidos se, além da competência, comungam os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido do que sejam democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente, a visão de felicidade, a relação animador-platéia, os tabus e preconceitos reforçados, etc. Em suma, não se fecham os olhos à realidade, muda-se a ótica de encará-la. Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e, um mês por ano, setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil, os alunos traziam para a classe a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar. Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e seus recursos. É mais importante educar do que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório.

Frei Betto é escritor, autor do romance "O Vencedor" (Ática), entre outros livros.

E.C.T. - Cássia Eller

Tava com cara
Que carimba postais
Que por descuido
Abriu uma carta que voltou
Levou um susto
Que lhe abriu a boca
Esse recado veio pra mim
Não pro senhor

Recebo o crack, colante
Dinheiro parco, embrulhado
Em papel carbono e barbante
Até cabelo cortado
Retrato de 3x4
Prá batizado distante
Mas isso aqui, meu senhor
É uma carta de amor...

Levo o mundo
E não vou lá
Levo o mundo e não vou

Mas esse cara
Tem a língua solta
A minha carta
Ele musicou
Tava em casa
A vitamina pronta
Ouvi no rádio
A minha carta
De amor

Dizendo:
Eu caso contente
Papel passado e presente
Desembrulhado o vestido
Eu volto logo, me espera
Não brigue nunca comigo
Eu quero ver nossos filhos
O professor me ensinou
Fazer uma carta de amor

Leve o mundo
Que eu vou já
Leve o mundo que eu vou

Mas esse cara
Tem a língua solta
A minha carta
Ele musicou
Tava em casa
A vitamina pronta
Ouvi no rádio
A minha carta
Sim senhor!

Dizendo:
Eu caso contente
Papel passado e presente
Desembrulhado o vestido
Eu volto logo, me espera
Não brigue nunca comigo
Eu quero ver nossos filhos
O professor me ensinou
Fazer uma carta de amor

Leve o mundo
Que eu vou já
Leve o mundo que eu vou

Todas as Vidas - Por Cora Coralina

Vive dentro de mim 
uma cabocla velha 
de mau-olhado, 
acocorada ao pé 
do borralho, 
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço... 
Ogum. Orixá. 
Macumba, terreiro. 
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho. 
Seu cheiro gostoso 
d'água e sabão. 
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa, 
pedra de anil.
Sua coroa verde 
de São-caetano.
Vive dentro de mim 
a mulher cozinheira. 
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro. 
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco. 
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim 
a mulher do povo. 
Bem proletária. 
Bem linguaruda, 
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha, 
e filharada. 
Vive dentro de mim
a mulher roceira. 
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira. 
Madrugadeira. 
Analfabeta. 
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos, 
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida. 
Minha irmãzinha... 
tão desprezada, 
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado. 
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida - 
a vida mera 
das obscuras!