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17/12/2014

A APRENDIZAGEM AMARGA © THIAGO DE MELLO


 
Chega um dia em que o dia se termina 
antes que a noite caia inteiramente. 
Chega um dia em que a mão, já no caminho, 
de repente se esquece do seu gesto. 
Chega um dia em que a lenha já não chega 
para acender o fogo da lareira. 
Chega um dia em que o amor, que era infinito, 
de repente se acaba, de repente. 

Força é saber amar, perto e distante, 
como o encanto de rosa livre na haste, 
para que o amor ferido não se acabe 
na eternidade amarga de um instante. 

© THIAGO DE MELLO 
In Faz escuro mas eu canto, 1965 

A ALMA DA MATA © DORA BRISA

A alma desata 
Um grito engasgado, 
Na boca da mata, 
Terreno sagrado... 

Suspiro contido, 
Respiração ofegante, 
Nenhum ruído... 
Só o instante... 

A mata sagrada 
Convida o caminhante 
A seguir a luz da estrada, 
Ainda que vacilante... 

Em passo incerto, 
Adentra a mata... 
A luz, cada vez mais perto... 
A alma se dilata... 

O humano ficou para trás, 
Feito lembrança... 
Silenciosa, a mata faz 
Brincar a criança... 

Mata - mistério, 
segredos, 
cemitério 
de todos os medos... 

O mundo já não existe mais... 
Só troncos, folhas - Vida! 
...E muita paz 
Na alma agradecida... 

Mata - que tanto bem nos faz, 
Companhia segura, 
Nos desvenda 
A vida mais pura... 

Por entre as árvores seguimos 
Os passos dos Donos da mata... 
Seguros, nosso caminho abrimos 
Na consciência que se desata... 

Brisa suave nos faz continuar... 
De mãos dadas, 
Eles insistem em nos mostrar 
A seguir suas pegadas... 

E lá vamos nós, 
Seguros mata adentro... 
Escutando sempre a voz 
Das folhas, da cascata, do vento... 
Poesia integrante da I Antologia Poética A Voz da Poesia - 2008, pag. 148
Fonte(s) do(s) áudio(s):
Declamadora: Rosany Costa
Gentilmente autorizada à Voz da Poesia a publicação do arquivo de áudio © Todos os direitos reservados

06/12/2014

Poemas "Quem Sou Eu"

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.

Depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
Charles Bukowski

03/12/2014

RECADO AOS AMIGOS DISTANTES

Meus companheiros amados, 
não vos espero nem chamo: 
porque vou para outros lados. 
Mas é certo que vos amo. 

Nem sempre os que estão mais perto 
fazem melhor companhia. 
Mesmo com sol encoberto, 
todos sabem quando é dia. 

Pelo vosso campo imenso, 
vou cortando meus atalhos. 
Por vosso amor é que penso 
e me dou tantos trabalhos. 

Não condeneis, por enquanto, 
minha rebelde maneira. 
Para libertar-me tanto, 
fico vossa prisioneira. 

Por mais que longe pareça, 
ides na minha lembrança, 
ides na minha cabeça, 
valeis a minha Esperança. 

©CECíLIA MEIRELES 
In Poemas, 1951 

02/12/2014

Conto de Hermano Hesse

“José e Daniel foram dois renomados curandeiros que viveram em tempos bíblicos. Ambos eram muito eficazes, ainda que trabalhassem de maneiras e com estilos diferentes. Ainda que contemporâneos, nunca tiveram um encontro e se consideravam mutuamente rivais. Foi assim durante anos, até que José, o mais jovem, adoeceu espiritualmente. Desesperado e sentindo-se incapaz de curar-se a si mesmo, partiu em peregrinação buscando a ajuda de Daniel. Durante seu percurso, descansando em um oásis durante a noite, iniciou uma conversa com outro viajante que, ao escutar o propósito de sua viagem, ofereceu-se como guia para ajudá-lo em sua busca por Daniel. Partiram juntos e, no meio de sua longa expedição, o homem mais velho revelou sua identidade. Ele era Daniel, a quem José procurava. Ato contínuo, passado o assombro de José, Daniel o conduziu até sua casa, convidando-o a permanecer ali. No princípio, diante do pedido de Daniel, José foi seu servente. Logo aprendiz e, finalmente, um colega de igual hierarquia. Assim viveram e trabalharam juntos muitos anos. Anos depois, velho e doente, Daniel pediu a José que escutasse uma confissão. Começou recordando seu encontro no oásis quando José, doente, viajou em busca de sua ajuda e como José havia considerado milagroso aquele encontro. Agora, enfrentando sua própria morte, Daniel quebrou o silêncio de tantos anos confessando que, para ele, também foi milagroso. Ele também, naquela época, havia caído em um sombrio desespero, sentindo-se vazio espiritualmente e incapaz de curar a si mesmo. Aquela noite do encontro, ele havia iniciado sua própria viagem em busca da ajuda do famoso curandeiro chamado José.” Fonte
Aprender é descobrir aquilo que você já sabe. Fazer é demonstrar que você sabe. Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você. Vocês são todos aprendizes, fazedores e professores” Richard Bach, no livro Ilusões

A QUEM SE MACHUCA - Por Artur da Távola

Inimigos são duas pessoas pertinho uma da outra. Só que de costas. Há duas situações inimigas dentro do amor. Pertinho e uma de costas para outra. Ambas ameaçam dar certo e não dar certo.

Quando se ama, tanto se teme enfrentar a possibilidade de dar certo, cheia de prisões e tentáculos, como o risco de não dar certo e ficar rompida uma harmonia que poderia ter funcionado.

Ambas as situações convivem em quem ama: porque "viver bem" não é dar certo. Dar certo é ser capaz de prosseguir apesar do desacerto: "Viver mal" não é necessariamente dar errado. Dar errado é não poder prosseguir.

Composto também de partes inimigas, o amor se enriquece dos cansaços incapazes da destruição. Só vive do imperfeito de cada confronto. Só é, quando vive ameaçado de deixar de ser. Caso contrário, não seria: simplesmente deixaria de ser.

Os inimigos são duas pessoas pertinho uma da outra, mas de costas, porque se se virarem encontrar-se-ão. E é isso o que temem. São mais unidos, talvez, que amigos, um de frente para o outro, mas a metros ou quilômetros de distância, e só por isso se entendem.

O medo de amar é o medo de estar perto demais (ainda que de costas) o que de certa forma escraviza. O engano de amor é estar longe, mas de frente, o que de certa forma atenua.

A coragem de amar equivale à coragem de ser: é fazer dois inimigos, de costas um para outro, virarem-se de frente para sentir hálito, olho, medo, força, ternura, muita raiva e muito carinho e aceitar tudo, por isso amar.

A falsidade do amor é permanecer de frente como amigos: pura e simplesmente se aceitando. Sem contradita. Sem a oposição capaz de ser vencida pela permanência do sentimento, a despeito do eu de cada um.

O medo de quem ama é o medo da relação profunda porque nela está a entrega que não rompe, apesar das tragédias da superfície. E a superfície só faz a tragédia, para impedir que o eu contemple de frente a relação profunda. Esta contém o que não se destrói, apesar das diferenças.

Na relação profunda está o desamparo e a necessidade tão pura que nunca pôde vir à tona. Na relação superficial está a fantasia, o eu idealizado, a armadura enfeitada de cada um.

Quem se relacionar ao nível da armadura será feliz no começo, na fase hipnótica do amor. Quem preferir o nível profundo de relacionamento talvez seja até infeliz. Mas amará. A infelicidade pode fazer virar as costas para o inimigo, separar-se dele. Mesmo assim não será maior que o amor adivinhado e sentido, se a relação é profunda.

Não te vires de frente para o inimigo! Podes amá-lo. Ele vai adivinhar, e tu também, o amor que está na peleja de quem ama. Não fiques tão de frente, mas tão longe de quem gostas. No que chegares perto, talvez detestes e sejas detestado.

Amar é estar de costas. Gostar é estar de frente. Um ultrapassa a inimizade que vive junta. Outro vive da amizade fácil, mas que se se aproximar pode não ser amor. Por isso era tão fácil sentir.

Amar é apesar. É através. É a despeito, mas é com. Amar, às vezes, é contra, mas perto e fundo. Mesmo de costas. É malgrado. É com ferida e cicatriz, mas íntegro.

Amar fundo é ter medo de virar de frente. Porque aí pode surgir, cristalina, a possibilidade de dar certo. E a entrega. Que é, no fundo, o que mais teme quem ama. Fonte

01/12/2014

O SENTIDO SECRETO DA VIDA

Há um sentido profundo 
Na superficialidade das coisas, 
Uma ordem inalterável 
No caos aparente dos mundos. 

Vibra um trabalho silencioso e incessante 
Dentro da imobilidade das plantas: 
No crescer das raízes, 
No desabrochar das flores, 
No sazonar das frutas. 

Há um aperfeiçoamento invisível 
Dentro do silêncio de nosso Eu: 
Nos sentimentos que florescem, 
Nas idéias que voam, 
Nas mágoas que sangram. 

Uma folha morta 
Não cai inutilmente. 
A lágrima não rola em vão. 
Uma invisível mão misericordiosa 
Suaviza a queda da folha, 
Enxuga o pranto da face. 

© HELENA KOLODY 
In Correnteza, 1977 

PRECE

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, 
De ser o coração singelo que perdoa, 
A solícita mão que espalha, sem medidas, 
Estrelas pela noite escura de outras vidas 
E tira d′alma alheia o espinho que magoa. 

© HELENA KOLODY 
In Paisagem Interior, 1941 

SENSIBILIDADE


Meu coração,
É um quarto de espelhos,
Que reflete e multiplica,
Infinitamente,
Uma impressão.

É como o eco
Dos longos corredores desertos,
Que repete e amplifica,
Misteriosamente,
Uma palavra.

É como um frasco de perfume raro
Que guardou,
Para sempre,
Um leve aroma da essência que encerrou.

© HELENA KOLODY 
In Infinito Presente, 1980

A TRISTEZA DAS MÃOS

Mãos tristes, sulcadas de rugas, 
Que choram em silêncio a dor de envelhecer... 

Pensar que já foram a alma festiva, 
A graça inocente dum berço, num lar. 
Frágeis mãozinhas, de dedos rosados, 
Brincando com a vida. 
Rainhas de um mundo de legenda, 
Maleável e submisso ao seu comando. 

Pálidas mãos, sulcadas de renúncias! 

Mãos que foram jovens, belas e triunfais, 
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas, 
Capazes de curvar a fronte mais altiva, 
E de alterar o curso eterno das estrelas. 

Tímidas mãos, que se apagam na sombra! 

Mãos feitas de luz, doces mãos liriais. 
Companheiras intrépidas e leais, 
Solícitas e compreensivas. 
Cheias de incentivo e paciência, 
Misericordiosas mãos maternais. 

Velhas mãos solitárias, 
Como dói recordar!

© HELENA KOLODY 
In Paisagem Interior, 1941 
Nota: 
Poesia dedicada a seu pai, no seu primeiro livro.