Licensa

28/09/2014

Um pouco de silêncio - Lya Luft

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.
Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.
Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
O normal é ser atualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe. Se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.
Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinados – como hamsteres que se alimentam da sua própria agitação.
Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.
Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.
Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de atividades frenéticas está com algum problema.
O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal-resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.
Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projetos e sonhos?
No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distração.
O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.
Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.
Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no meu ombro de criança e disse:
— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.
Então, por favor, deem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.
Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005
Texto adaptado

A visita do anjo - Lya Luft

O homem estava a pegar nas chaves do carro (a mulher já tinha saído para levar as crianças à escola) quando tocaram à campainha.
Irritado, pois já se atrasara bastante, ele abre a porta:
— Sim?
O ser andrógino, belo e feio, alto e baixo, negro e louro, faz um sinalzinho dobrando o indicador:
— Vim buscar-te.
Não era preciso explicar, o homem entendeu logo: o Anjo da Morte estava ali, e não havia como escapar. Mas, acostumado a negociações, mesmo perturbado ele rapidamente pensou que era cedo, cedo demais, e tentou argumentar:
— Mas, como, o quê? Agora, assim, sem aviso, sem nada? Nem um prazo decente?
O Anjo sorri um sorriso bondoso e perverso, suspira e diz:
— Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste mundo? Nunca ninguém está preparado? Está certo que só tens quarenta anos, mas mesmo os de oitenta…
O homem agarrou mais firmemente a chave do carro que acabara por encontrar no bolso do casaco, e insistiu:
— Vá lá, dá-me uma oportunidade.
O Anjo teve pena, aquele grandalhão estava realmente apavorado. Ah, os humanos… Então teve um acesso de bondade e concedeu:
— Tudo bem. Eu dou-te uma oportunidade, se me deres três boas razões para não vires comigo desta vez.
(Passaria um brilho malicioso nos olhos azuis e negros daquele Anjo?)
O homem aprumou-se, claro, sabia que ia dar resultado, sempre fora um bom negociador. Mas, quando abriu a boca para começar a sua ladainha de razões — muito mais que três, ah sim — o Anjo ergueu um dedo imperioso:
— Espera aí. Três boas razões, mas… não vale dizer que os teus negócios precisam de ser organizados, a tua mulher nem sabe assinar cheques, os teus filhos nada conhecem da realidade. O que interessa és tu, tu mesmo. Porque valeria a pena deixar-te ainda aqui por algum tempo?
Já narrei esta fábula noutro livro e, nele, quem abria a porta era uma mulher. A objeção que o Anjo lhe fazia antes de ela começar a recitar os seus motivos era:
— Não vale dizer que é porque o marido e os filhos precisam de ti…
Muitas vezes contei esta historiazinha, e inevitavelmente homens e mulheres ficam surpresos e pensativos, sem resposta imediata ainda que de brincadeira.
E nós? Com que argumentos persuadiríamos o anjo visitante de ainda não nos levar?
Eles seriam falsos, inventados no momento, ou brotariam da nossa eventual contemplação — e reavaliação — da vida, e do sentido de tudo, dos nossos projetos e esperanças?
Isto é, se acaso alguma vez interrompemos a nossa agitação para fazer um questionamento destes. Pois, em geral, atordoamo-nos na agitação do dia, da moda, do consumo, da corrida pelo melhor salário, melhor lugar, melhor mesa no restaurante, melhor modo de enganar o outro e subir.
Ainda que infimamente no nosso ínfimo posto.
Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005

A menina e o pássaro encantado – Ruben Alves

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

* * *

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

26/09/2014

Finalizar ciclos - Fernando Pessoa


Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final..
e insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país?
A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu.
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó.
Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração..
.... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.
Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou jamais voltará.
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era e se transforme em quem é.
Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu própria, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te :
“Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”
 Fonte

TREM DE ALAGOAS - Ascenso Ferreira

Composto com a mesma cadência do som do comboio arrastando-se melodiosamente pelos trilhos, o poema de Ascenso além da beleza prosódica traz o registro de um mundo lindo que não mais existe. O entremeio obscuro (entre os iluminados das cidades) onde cabiam suposições mágicas de Caiporas e Pais-da-Mata foi substituído por um universo de certezas de consumo: o mundo iluminado dos shoppings centers onde o que falta pode ser comprado. Sabores de frutas boas de chupar, de amores perdidos no translado e os tesouros das furnas do tempo onde se arqueia nossa lembrança são o doce conteúdo dessa viagem que se torna ainda mais agradável ao entendimento na voz de Paulo Autran. Recomendo a leitura e escuta simultâneas. Bom translado.

TREM DE ALAGOAS
Ascenso Ferreira

“O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.
Adeus !
- Adeus !
Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar…
- Adeus morena do cabelo cacheado !
Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Na boca da mata
ha furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:
- Ali dorme o Pai-da-Mata
- Ali é a casa das caiporas
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Meu Deus ! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto avistamos
bem perto outro mar…
Danou-se ! Se move,
se arqueia, faz onda…
Que nada ! É um partido
já bom de cortar…
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Cana caiana,
cana rôxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar…
- Adeus morena do cabelo cacheado !
- Ali dorme o Pai-da-Matta !
- Ali é a casa das caiporas
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…” Fonte

O Medo (por Drummond)

“Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nos, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.”

20/09/2014

Infância - de Laulau e Laurabeatriz

Chutei bola na chuva,
Roubei laranja, banana,
Goiaba e uva,
Xinguei a professora,
Apanhei dos mais velhos,
Bati nos mais novos,
Quebrei uma duzia de ovos,
Rachei a cabeça,
Cortei o dedo,
Tremi de medo,
Escorreguei na lama,
Fiz xixi na cama,
Soltei pipa,
Esfolei o joelho,
Criei um coelho,
Andei no mato,
Perdi um sapato,
Pesquei na represa,
Ganhei um presente,
Tive dor de dente,
Caí do muro,
Chorei no escuro,
Faltei na escola,
Descobri um tesouro,
Sonhei com besouro,
Libertei passarinho,
Fui uma história em quadrinho.
Onde está o poeta Lalau, está a ilustradora Laurabeatriz. Parceiros desde 1994 em livros de poesia para crianças, já lançaram "Bem-te-vi" (o primeiro trabalho juntos), "Futebol", da série "Bem brasileirinhos", "Girassóis", "Fora da gaiola" e muitos outros títulos que atraem pequenos (e grandes) leitores no país todo. São 20 títulos ao todo, muitos deles altamente recomendados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. 
Essenciais na literatura infantil, os trabalhos de Lalau e Laurabeatriz são complementares. Ele inventa rimas e versos, e ela os transforma em imagens. "Ilustrar é sempre uma viagem. Eu embarco com a minha bagagem, e vamos viajando...", descreve a ilustradora Laurabeatriz. Para Lalau, escrever poesia para crianças é uma deliciosa brincadeira! "Procuro levar ao pequeno leitor muito mais do que a rima pela rima, mas sim o inusitado, a surpresa, as múltiplas possibilidades de uma mesma palavra. A criança gosta disso, e tem grandes chances de fazer com que a palavra seja um brinquedo lúdico e companheiro de todas as horas. O amor pela leitura está intimamente ligado a isso. Qual criança no mundo não gosta de brincar e se divertir?", conta o poeta. Fonte

"Classificados Poéticos" de Roseana Murray

Vende-se uma casa encantada
no topo da mais alta montanha.
Tem dois amplos salões
onde você poderá oferecer banquetes
para os duendes e anões
que moram na floresta ao lado.
Tem jardineiras nas janelas,
onde convém plantar margaridas.

Tem quartos de todas as cores
que aumentam ou diminuem
de acordo com o seu tamanho
e na garagem há vagas
para todos os seus sonhos.
O "tem" aparece três vezes reforçando a aliteração, indicando posse, e contribuindo para projetar a descrição. Assemelha-se muito ao anúncio diário, que no caso de venda de um imóvel, por exemplo, também irá descrever o que ele tem de mais atrativo, para despertar o interesse do possível comprador ou locatário. Quanto mais descritivo for o anúncio, maior será a probabilidade de atingir o seu objetivo.

Ao indicar: "no topo da mais alta montanha", "moram na floresta ao lado", há uma expectativa de situar quem está lendo, num espaço concreto. Sem perder o foco, ela brinca com a antítese, valorizando o tamanho, como em: "alta montanha" – "anões e duendes" (baixa estatura). "aumentam ou diminuem", "amplos salões"; e ressalta a sonoridade nos versos com a assonância.

A relação com o leitor torna-se cada vez mais estreita quando cita: "Tem jardineiras nas janelas onde convém plantar margaridas". O aconselhamento sugere esta relação de intimidade, as margaridas simbolizam a delicadeza, a sensibilidade, a simplicidade.

No último verso, ela dá ênfase à multiplicidade de opções que o homem tem para ser feliz. No trecho: "tem quartos de todas as cores", estes, simbolicamente podem ser comparados aos diferentes caminhos que vão levar a felicidade. Os "sonhos" vão adequar-se ao desejo de cada um, como é ressaltado em: "e na garagem há vagas para todos os seus sonhos".

Ao longo desta análise estilística, observamos que, apesar de o livro Classificados Poéticos ter sido publicado há 22 anos, ainda é atual. O homem continua destruindo a natureza, matando animais, matando outros homens, ainda há engarrafamentos...

Em alguns momentos encontramos uma subjetividade mais acentuada que obteve reforço nos indicadores de tempo e lugar. Todo o sentimento passado na poesia de suas palavras demonstrou o interesse em estar o mais próxima possível daquele que compartilha de suas experiências, das alegrias e das tristezas, das perdas e ganhos e não podia ser diferente, uma "ponte" foi construída entre a autora e o leitor.

Percebemos que Roseana demonstrou um estilo voltado para a relação estabelecida entre o desejo e a emoção, sem esquecer de enriquecer o conteúdo com doses de sabedoria. Estilisticamente esse fragmento do livro enquadra-se na definição de Mattoso Câmara Júnior: "Estilo é a linguagem que transcende do plano intelectivo para carrear a emoção e a vontade".

Referências
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro, Lucerna, 2005.
CÂMARA JR, J. Mattoso. Contribuição à estilística portuguesa. Rio de Janeiro, Ao livro Técnico. 1977.
CRESSOT, Marcel. O estilo e suas técnicas. São Paulo. Martins Fontes. p.13-21.
GALVÃO, Jesus Bello. Subconsciência e afetividade na língua portuguesa. Rio de Janeiro. Ao livro técnico. 1979, p.55-84.
LAPA, M. Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. São Paulo. Martins Fontes, 1991.
MARTINS, Nilce Sant'Anna. Introdução à estilística. São Paulo. T.A. Queiroz. p.189-218
MURRAY, Roseana. Classificados Poéticos. São Paulo. Companhia Editora Nacional. 2004.

"Classificados Poéticos" de Roseana Murray

Perdi maleta cheia de nuvens
e de flores,
maleta onde eu carregava 
todos os meus amores embrulhados
em neblina.
Perdi essa maleta em alguma esquina
e algum sonho
e desde então eu ando tristonho
sem saber onde pôr as mãos.
Se andando pelas ruas
você encontrar a tal maleta,
por favor, me avise em pensamento
que eu largo tudo e vou correndo...
Nessa parte, ocorre uma aproximação maior com o leitor. Além de explicitar seus sentimentos, ela o convida a uma participação ativa quando cita: "Se andando pelas ruas você encontrar a tal maleta, por favor, me avise em pensamento", a relação fica tão estreita que basta "o pensamento" para haver a comunicação. Esse envolvimento faz com que o texto flua melhor.

Os elementos "nuvens" e "flores" são aproximados, e, ao analisarmos a oposição de lugar em que se encontram (um no céu, outro na terra), temos a figura de pensamento antítese. "Lugar" é mais uma vez mencionado e encontra suporte em termos como: "esquina", "ruas", "vou correndo"; todos fazendo referência a lugares.

O jeito sonhador e romântico é evidenciado também em "nuvens" e "flores". E este romantismo é grifado em: "todos os meus amores embrulhados em neblina", ou seja, amores que já não mais iluminam, que foram encobertos por outros sentimentos. A ligação com o passado fica evidenciada nessa passagem, o sentimento de tristeza por ter deixado para trás sonhos que não foram adiante, e, que passam a sensação de vazio que ela mesma exemplifica em: "sem saber onde pôr as mãos", isto é, não tem mais o apoio que esses "sonhos" forneciam.

A metáfora ganha espaço dentro deste universo imaginário. É incontestável a qualidade estilística decorrente de uma visão impressionista, atraindo com mais eficácia o público infanto- juvenil. Fonte

"Classificados Poéticos" de Roseana Murray

Troco um fusca branco
por um cavalo cor de vento
um cavalo mais veloz que o pensamento
Quero que ele me leve pra bem longe 
e que galope ao deus-dará
que já me cansei deste engarrafamento...
O verbo "trocar" vem na primeira pessoa do singular, marcando o estado emotivo, o envolvimento direto da autora. Ela compartilha o seu desejo de seguir sem destino, desabafa sua insatisfação com os problemas diários e expõe a sua vontade de mudança.

A aliteração e a assonância surgem trazendo um efeito sonoro e refletindo a vibração de sentimentos. Destacando a passagem "e que galope ao deus-dará", vamos experimentar no primeiro momento, a impressão de que ela não está preocupada para aonde vai e como vai viver, o simples fato da mudança já é suficiente. Analisando o termo: "deus-dará", vamos perceber a relação entre a escolha e o efeito. Estilisticamente temos o uso do "D" servindo para reproduzir um som de passos pesados e ainda o uso do "A" reforçando as batidas bem audíveis. Sendo assim, "deus-dará" remete ao som do galopar do cavalo.

Os termos "vento" e "veloz" sugerem sonoridade de caráter contínuo. Podemos comparar à sensação de corrente de ar quando alguém passa correndo muito próximo de nós, dependendo da velocidade temos a percepção do vento, como uma espécie de sopro mais forte. Assim ocorre no texto, as palavras parecem bailar no ar. Quanto à utilização da anáfora, em: "um cavalo cor de vento", "um cavalo mais veloz que pensamento", serve para destacar o elemento principal, o que de certa forma, não acontece no anúncio comum do jornal, que evita repetir palavras, para não onerá-lo. Fonte

"Classificados Poéticos" de Roseana Murray

O livro "Classificados Poéticos" de Roseana Murray baseia-se no formato tradicional do classificado do jornal, utilizando palavras comuns dentro deste universo, tais como: vendo, troco, procuro, alugo... Ao utilizar palavras simples, que fazem parte do cotidiano, a autora consegue aproximar-se do leitor e levá-lo à reflexão. Analisando com mais atenção, percebemos os efeitos estilísticos refletidos em seus versos. Sentimentos, anseios, inquietações são retratados, de forma romântica, lúdica e envolvente. A interpretação do que é exposto por Roseana é mais complexo e mais significativo, do que aparenta à primeira leitura. Por um lado, um divertido jogo de palavras, faz alcançar mais rapidamente seu público-alvo, o infanto-juvenil; por outro, a autora consegue atingir os demais leitores, aguçando a curiosidade, levando-os a buscar o sentido implícito em cada verso. A aliteração e a assonância trazem sonoridade ao texto. A metáfora e a antítese corroboram para expressar o jeito sonhador, otimista e sensível da escritora. Cada trecho do poema leva a sensações diferentes. Há perfeita harmonia entre os elementos utilizados, gerando um desejo, quase infantil, de libertar-se dos preconceitos e participar ativamente, desse “mundo de sonhos”.

Roseana Murray sempre se dedicou a escrever para o público infanto-juvenil. Publicou 43 livros, tem poemas traduzidos em 6 línguas e ganhou diversos prêmios, entre eles, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras em 2002 para o livro "Jardins" da Editora Manati, RJ. Além disso, implantou em Saquarema junto com a Secretaria Municipal de Educação, o Projeto "Saquarema, uma Onda de Leitura".

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate
nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores da floresta.

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves


tenham no rosto um olhar de criança.
Nesse fragmento, a autora usa como determinante, a esperança de encontrar, no momento atual, um lugar considerado perfeito para viver, sem violência e que proporcione a relação harmônica entre os homens e a natureza. Lugar e tempo são reforçados nesses versos, principalmente através da palavra "onde" que aparece repetidas vezes. Isto é, o "onde" determina em que lugar se está agora, passando a ideia do tempo presente. Embora não tenha utilizado o verbo "procurar" no presente do indicativo que seria uma marca mais forte do tempo atual, optando pela forma "procura-se", ela cria um ar de mistério, pois ao analisarmos o sujeito "algum lugar no planeta", questionamo-nos: que tipo de lugar é esse? Será que existe? É possível encontrá-lo?

Podemos destacar também, a palavra "grave" que tem por definição melódica, um som de frequência baixa e traz para o texto um efeito quase sonoro. Ao mesmo tempo, apresenta um sentido dúbio, por um lado indica a musicalidade, por outro remete a um indivíduo que carrega traços de desânimo, de amargura, de negatividade; dessa maneira, "o olhar de criança", simboliza a pureza, a ingenuidade, a simplicidade para enxergar aquilo que está a sua volta. Ampliando essa visão, deparamo-nos com as palavras "dança" e "festa", que dão ênfase à expectativa musical, pois tanto uma como outra se fortalecem com a música.

As palavras "planeta", "festa", "criança", expressam sentido de movimento, de rotatividade. Mesmo quando Roseana cita "engarrafamento" na parte 2, reforça este conceito: anda, pára, anda...; ou seja, um movimento constante.

O artigo indefinido foi bem valorizado nesta obra e tem forte valor estilístico. Ao destacarmos: "uma festa", "uma dança", "um olhar de criança", notamos que não foi determinado que tipo de festa, de dança, de olhar de criança; pode ser qualquer um que já se encontre em nossa memória, ou algum que tenhamos definido como padrão. O importante é que seu uso sensibilize e envolva o leitor. Como afirma M. Rodrigues Lapa em Estilística da Língua Portuguesa (1991. P.91): "A capacidade estilística do artigo indefinido está na imprecisão que dá às representações. Serve para traduzir a imprecisão e o mistério". Ele também assegura que "a indeterminação e o mistério vão quase sempre acompanhados de movimentos da sensibilidade". Fonte

Abujamra interpreta Edson Marques - poema Meu Louco Bisavô


Meu bisavô, no início do século passado, aos 60 anos de idade, abandonou tudo e apareceu por aqui, trazendo no colo uma adolescente para ser sua mulher: uma enorme loucura...
Mas ele era um homem rebelde, um homem que não desistia.
Então abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, fazendas, noras, netos, e velhas emoções...
Tudo por Vitalina: Vitalina, por aquela menina delicada e de cabelos longos ele abandonaria o mundo.
Por ela, abandonou cabeças de gado e todas as "certezas" que lhe haviam dado.
Jogou fora o velho baú de premissas usadas. Pela possibilidade aberta de uma nova vida, tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu!
Já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que se abandonar, para não ter que abandonar a própria existência.
Não fosse por isso eu não estaria aqui, agora.
Sou, portanto, bisneto da rebeldia.
Bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores.
E existo, por incrível que pareça!
No céu da minha boca não há fogos de artifício. Só estrelas!

Edson Marques formado em Filosofia pela USP, é um escritor e poeta brasileiro. Participou da fundação da Ordem Nacional dos Escritores e foi o vencedor do prêmio Cervantes/Ibéria, no ano de 1993.

17/09/2014

Lenda árabe, conto de Malba Tahan

Dois amigos, Mussa e Nagib, viajavam pelas longas estradas que recortam as tristes e sombrias montanhas da antiga Pérsia. Eram nobres e ricos e faziam-se acompanhar de servos, ajudantes e caravaneiros.
Chegaram, certa manhã, às margens de um grande rio barrento e impetuoso. Era preciso transpor a corrente ameaçadora. Ao saltar, porém, de uma pedra, Mussa foi infeliz e caiu no torvelinho espumejante das águas em revolta. Teria ali perecido, arrastado para o abismo, se não fosse Nagib. Este, sem a menor hesitação, atirou-se à correnteza e livrou da morte o seu companheiro de jornada. Que fez Mussa? Ordenou que o mais hábil de seus servos gravasse na face lisa de uma grande pedra que ali se erguia, esta legenda admirável:
Viandante: beste lugar, com risco da própria vida, Nagib salvou, heroicamente, seu amigo Mussa.
Feito isso, prosseguiram, com suas caravanas, pelos intérminos de Allah. Cinco meses depois, em viagem de regresso, encontraram-se os dois amigos naquele mesmo lugar perigoso e trágico. E, como se sentissem fatigados, resolveram repousar à sombra acolhedora do lajedo que ostentava a honrosa inscrição.
Sentados, pois, na areia clara, puseram-se a conversar. Eis que, por motivo fútil, surge, de repente, grave desavença entre os dois. Discordaram. Discutiram. Nagib, exaltado, num ímpeto de cólera, esbofeteou, brutalmente, o amigo. Que fez Mussa? Que farias tu, em seu lugar? Mussa não revidou a ofensa. Ergueu-se e, tomando tranquilo o seu bastão, escreveu na areia clara, ao pé do negro rochedo:
Viandante: neste lugar, por motivo fútil, Nagib injuriou, gravemente, seu amigo Mussa.
Surpreendido com o estranho proceder, um dos ajudantes de Mussa observou respeitoso:
- Senhor! Da primeira vez para exaltar a abnegação de Nagib, mandastes gravar, para sempre, na pedra, o feito heróico. E agora, que ele acaba de ofender-vos tão gravemente, vós vos limitais a escrever, na areia incerta, o ato de covardia! A primeira legenda, ò xeique, ficará para sempre. Todos os que transitarem por este sítio dela terão notícia. Esta outra, porém, riscada no tapete de areia, antes do cair da tarde, terá desaparecido como um traço de espuma. Respondeu Mussa:
- A razão é simples. O benefício que recebi de Nagib permanecerá para sempre, em meu coração. Mas a injúria, essa negra injúria, escrevo-a na areia, como um voto, para que, se depressa daqui se apagar e desaparecer, mais depressa ainda, desapareça e se apague de minha lembrança!
Eis a sublime verdade, meu amigo! Aprende a gravar, na pedra, os favores que receberes, os benefícios que te fizerem, as palavras de carinho, simpatia e estímulo que ouvires.
Aprende, porém, a escrever na areia, as injúrias, as ingratidões, as perfídias e as ironias que te ferirem pela estrada agreste da vida. Aprende a gravar, assim, na pedra; aprende a escrever, assim, na areia... e serás feliz.

05/09/2014

O Erro de Querer Ser Igual a Alguém

Aqui, neste misérrimo desterro 
Onde nem desterrado estou, habito, 
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro 
Pelo qual sou proscrito. 
O erro de querer ser igual a alguém 
Feliz em suma — quanto a sorte deu 
A cada coração o único bem 
De ele poder ser seu. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida, 
Eu sou a que na vida não tem norte, 
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte 
Sou a crucificada ... a dolorida ... 

Sombra de névoa ténue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte, 
Impele brutalmente para a morte! 
Alma de luto sempre incompreendida! ... 

Sou aquela que passa e ninguém vê ... 
Sou a que chamam triste sem o ser ... 
Sou a que chora sem saber porquê ... 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver 
E que nunca na vida me encontrou! 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"