Licensa

24/07/2014

O importante da amizade

O importante da amizade não é conhecer o amigo;
e sim saber o que há dentro dele!...

Cada amigo novo que ganhamos na vida, nos aperfeiçoa 
e enriquece, não pelo que nos dá, mas pelo 
quanto descobrimos de nós mesmos.

Ser amigo não é coisa de um dia. São gestos, palavras, 
sentimentos que se solidificam no tempo 
e não se apagam jamais.

O amigo revela, desvenda, conforta.
É uma porta sempre aberta em qualquer situação.

O amigo na hora certa, é sol ao meio
dia, estrela na escuridão.

O amigo é bússola e rota no oceano,
porto seguro da tripulação.

O amigo é o milagre do calor humano
que Deus opera no coração.

22/07/2014

Ave Maria (J. S. Bach/ C. Gounod)

Inaugurado solenemente em 29/09/2001 pelos nossos padrinhos Inezita Barroso e Pena Branca, o Instituto é hoje uma ONG que tem como objetivo central a pesquisa, difusão e divulgação da cultura caipira.
Atualmente a principal atividade do Instituto é o resgate do repertório musical da Viola Caipira, pois não existem publicações formais ou informais com as letras e arranjos dos registros fonográficos originais, além de fomentar, através da convivência e pesquisas de campo, a cultura caipira, onde o estudante de viola é levado à imersão no universo cultural de seu instrumento, sem o qual se faz impossível a autenticidade de seu aprendizado.
Sendo assim, todas as peças executadas pela OPVC e os materiais didáticos utilizados no curso de viola caipira oferecido pelo CEM - Centro de Educação Musical Tom Jobim por mais simples ou complexas que sejam, são gerados, desenvolvidos e arranjados no Instituto, através dos materiais fonográficos disponíveis no mercado que constam do acervo.
Ave Maria (J. S. Bach/ C. Gounod)
Orquestra Paulistana de Viola Caipira - OPVC
Regência: Rui Torneze
DVD Viola in Concert - Gravado ao Vivo no Teatro Pedro II - Ribeirão Preto/SP - Julho/2009

21/07/2014

Bianca Toledo: Propósito se vive um dia de cada vez. Isso é foco

Todos estão à procura de um propósito. 
Até porque viver por viver é a maior chatice. 
Se todos os dias não houver um desafio, uma vontade que impulsione os nossos pés, andamos em círculos. 
E eu não sei se só eu percebi isso, mas a vida passa rápido demais! 
Os dias estão acelerados, as marcas no rosto aparecem de surpresa indicando que muito da vida passou, e muitas vezes percebemos que não realizamos o que gostaríamos ou o sentido da vida se perdeu em algum lugar.
Pior que a fome de pão é o vazio da ausência existencial que corrói os seus dias. 
As cores do mundo querem embaçar sua vista e Deus quer te dar foco. 
Ainda que você esteja equivocado em suas escolhas, falar com Deus e ouvir os conselhos de quem elegeu para te mentorear pode te livrar de grandes ciladas. 
Caminhar sozinho é um grande risco. Você pode estar dominado por suas vontades e elas normalmente estão focadas em si mesmo e distantes do amor.
Propósito se vive um dia de cada vez. Isso não é letargia, isso é foco. 
Livre da ansiedade e em comunhão com o Senhor que é dono do mapa que te conduz à coroa da vida, seus dias serão plenos. 
Ele é o dono do prêmio dos que venceram toda esta luta aqui. 
Agradar a todos não muda os seus dias. 
Conquistar elogios não muda os seus dias.
Competir e disputar o sucesso não muda os seus dias.
Se vingar não muda os seus dias. Justificar os seus erros também não. 
Amar sim. 
Quer ser diferente? Ame mais! 
A começar por si mesmo. 
Respeite o seu tempo por aqui, fazendo valer os seus dias.
Seja um belo legado aos que vierem depois de você. Simplesmente sendo absolutamente feliz. 
Você pode não ter começado este dia entregando ele nas mãos de Deus, mas pode fazer isso agora. 
Peça a Ele que restaure a sua visão da vontade d´Ele pra sua vida, o seu foco, as suas prioridades. 
Que Ele te ajude a ver a maneira como lida consigo e com os outros neste dia.
Foco é permanecer com os olhos em Deus, zelando pela comunhão entre vocês à todo o tempo. Compartilhar com Ele os seus dias, deixando a vontade d´Ele vencer a sua. 
Todas as vezes que ficar confuso quanto ao que fazer, simplesmente seja do Amor, seja pro Amor, seja o Amor. (1 Co 13)
O imediatismo pode te prender em projetos mais rápidos e lucrativos, te roubando a oportunidade de viver algo eterno.
Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo ( que te permite fazer o que é certo). 2 Tessalonicenses 3:5
Deus abençoe seu dia! Fonte

20/07/2014

Homenagem a RUBEM ALVES

Sobre o morrer

Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Quero tempo para escrever o meu haikai

 
"NINGUÉM QUER morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a morte é o destino de todos nós."(Steve Jobs)
Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina. Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haikai.
Mallarmé tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só. Achei-o louco. Depois compreendi. Para escrever um livro assim, de uma palavra só, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calaram. Mas isso é coisa que só a Morte ensina. Mallarmé certamente era seu discípulo.
O último haikai é isto: o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das me-díocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis.
A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável... Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. E certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim...
Curioso que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a Morte são os vivos. A Morte, ao contrário, só fala sobre a Vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de "ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se" (Cecília Meireles). E ela nos faz sempre a mesma pergunta: "Afinal, que é que você está esperando?" Como dizia o bruxo D. Juan ao seu aprendiz:
"A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e pergunte-lhe se isso é verdade.
Sua Morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque... Sua Morte o encarará e lhe dirá: 'Ainda não o toquei...'"
E o feiticeiro concluiu: "Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a Morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem suas vidas como se a Morte não os fosse tocar nunca".
Às vezes ela chega perto demais, o susto é infinito, e até deixa no corpo marcas de sua passagem. Mas se tivermos coragem para a olharmos de frente é certo que ficaremos sábios e a vida ganhará simplicidade e a beleza de um haikai. Fonte

Beethoven - Silencio

19/07/2014

Morre aos 73 anos o escritor João Ubaldo Ribeiro

O Verbo For
João Ubaldo Ribeiro

Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmissível e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa não ser reacionário. Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor necessário — evidentemente o condizente com a nossa condição provecta —, tudo sairia fora de controle, mais do que já está. O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo às minhas coevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício).
O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por fora. Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho.
Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário, dicionário), o mestre não perdoava.
— Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra — dizia ele ao entanguido vestibulando.
— "Catilina, quanta paciência tens?" — retrucava o infeliz.
Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a platéia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala.
— Ai, minha barriga! — exclamava ele. — Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de alimária. Senhor meu Pai!
Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.
O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo "dar um show". Eu dei show de português e inglês. O de português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:
— Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional!
— As margens plácidas — respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a xícara.
— Por que não é indeterminado, "ouviram, etc."?
— Porque o "as" de "as margens plácidas" não é craseado. Quem ouviu foram as margens plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. "Nem teme quem te adora a própria morte": sujeito: "quem te adora." Se pusermos na ordem direta...
— Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia!
Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra "for" tanto podia ser do verbo "ser" quanto do verbo "ir". Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.
— Esse "for" aí, que verbo é esse?
Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.
— Verbo for.
— Verbo o quê?
— Verbo for.
— Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo.
— Eu fonho, tu fões, ele fõe - recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles fõem.
Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe.

Esta crônica foi publicada no jornal "O Globo" (e em outros jornais) na edição de domingo, 13 de setembro de 1998 e integra o livro "O Conselheiro Come", Ed Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2000, pág. 20.

Ética do Livro: Os 13 Mandamentos

 
Emprestar um livro é, antes de tudo, um ato de desprendimento. Quem empresta uma obra literária, um volume de filosofia ou técnico, uma peça ou um ensaio de divulgação científica está ajudando a difundir o conhecimento ou ao menos divertindo alguém. Existe algo de nobre até mesmo em emprestar o mais lamentável dos best-sellers de fórmula. Contudo, nem sempre a recíproca é verdadeira. Muitas vezes quem pega emprestado não respeita o voto de confiança que recebeu. É extremamente comum que livros emprestados não retornem ou, o que pode ser até pior, retornem deformados. De emprestado para imprestável. Há quem não se importe, mas, para os amantes da cultura, a situação é de calamidade pública. É preciso que se difunda uma ética do livro, uma ética que estabeleça a etiqueta da relação entre aquele que empresta e aquele que pega emprestado. Lembrando que a comunidade dos letrados é uma verdadeira roda-vida, um “circulo do livro” em sentido lato: quem empresta hoje, pega emprestado amanhã.
Tentando contribuir, apresento abaixo uma sugestão, um esboço, do que pode ser essa ética: 
(validos também para CD’s, DVD’s, HQ’s, revistas e congêneres)
1 — Se pegou emprestado, devolva.
2 — Trate o livro alheio como gostaria que o seu fosse tratado. Não rasure, suje ou rasgue.
3 — Só pegue emprestado se for mesmo ler. Não jogue em um canto ou coloque em uma fila.
4 — Se perdeu, compre outro e devolva.
5 — Se pegou por impulso e sabe que não vai ler, devolva.
6 — Se vai pegar sucessivamente emprestado, está na hora de comprar seu próprio exemplar.
7 — Se for uma ferramenta de trabalho, seja rápido.
8 — Não pegue sucessivamente emprestados livros da mesma pessoa, sem devolver os anteriores.
9 — Não constranja seu próximo pedindo emprestado livros raros ou com valor sentimental.
10 — Não empreste livros que pegou emprestado.
11 — Demorar para devolver é o mesmo que não devolver.
12 — Esquecer de devolver é o mesmo que surrupiar.
13 — Não misture com seus livros. Fonte

14/07/2014

Freinet: Fonte de inspiração para ser professor - Por Emilia Cipriano

“Se não encontrarmos respostas adequadas a todas as questões sobre educação, continuaremos a forjar almas de escravos em nossos aprendizes.” 
Célestin Freinet
A Pedagogia Freinet está centrada em quatro grandes princípios: afetividade, comunicação/documentação, autonomia e cooperação. Em sua obra destacamos a afetividade como exercício que desenvolve a capacidade de um sujeito em se deixar afetar pelo outro, a comunicação dialógica integrando conhecimentos e relações, autonomia e cooperação que se complementam entre si para a construção do ser social.
Em tempos de mudanças, o grande desafio do contexto em sala de aula é conceber e vivenciar experiências educativas que contemplem esses princípios, articulando a criação de vínculos afetivos ao desenvolvimento do ser humano.
É fundamental pensar que a educação não se faz apenas com a perspectiva das questões materiais. Excelência na educação se faz quando o foco está nos processos de humanização. A partir do instante em que se passa a pensar a escola como um espaço de relações de humanização dos direitos, nós nos encontramos com o pensar de Freinet “a educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida”.
Escola viva pautada na comunicação, autonomia e cooperação garante que o humano se torne cada vez mais humano, pois materializa uma concepção de educação transformadora. Para que exista uma educação que transforme, é preciso uma educação que humanize, que traga a afetividade como foco, “a cultura humana será, então a flor esplêndida, promessa segura do fruto generoso que amadurecerá amanhã”. (Freinet)
O ser professor implica em vivenciar as múltiplas relações entre as pessoas, os conceitos, o contexto em que se vive, os vários objetos culturais e as formas de percepção de mundo.
O desafio deste tempo presente é perceber que os significativos avanços tecnológicos estabelecem relações virtuais que estão isolando as pessoas, portanto é imprescindível construir espaços presenciais de relações humanas, onde esteja presente o toque, a percepção do outro, o sentido que a vida tem, o respeito às perspectivas: ética, estética e política.
A ética está relacionada a tudo que é voltado à solidariedade, à compreensão humana, à troca, ao respeito ao outro. A estética a todo processo criativo, com o exercício da ludicidade, das relações voltadas para o encantamento, para o belo; uma beleza que não seja estereótipo da superficialidade, mas a beleza do exercício de olhar para o mundo com os olhos de quem quer enxergar, enxergar várias formas, de arte, de expressão. E a política? É a dimensão da cidadania, da participação, do exercício efetivo dos direitos. Acreditamos que uma educação de excelência deve contemplar essas dimensões em sua profundidade, sem esquecer que não se faz excelência sem as relações presenciais.
O professor, ao se perceber como um ser reconhecido socialmente, consegue fazer a ponte entre o significado de seu fazer e a função social que a escola exercita.
Ser professor é ser materializador de sonhos, ser professor é ser construtor de identidades humanas. Ser professor é entender que “a democracia de amanhã se prepara na democracia da escola”. (Freinet)
Portanto é preciso entender o professor como uma autoridade construtora de seres humanos humanizados. Nesse contexto histórico nunca se precisou tanto de um professor. Este precisa de um espaço de reflexão com seus grupos, com seus pares.
“Seria necessário lembrar aos pais e professores que um educador que já não tem gosto pelo trabalho é um escravo do ganha-pão e que um escravo não poderia preparar homens livres e ousados; que o professor não pode preparar alunos para construírem, amanhã, o mundo dos seus sonhos, se você não acreditar nessa vida; que não poderá mostrar-lhe o caminho se permanecer sentado, cansado e desanimado, na encruzilhada dos caminhos”. (Freinet)
Andando por esse país inteiro, o que identificamos a cada momento é que o professor quando chamado para desenvolver uma ação proativa, ele corresponde, ele tem desejos, e apresenta muitas iniciativas.
Cada vez que desenvolvemos com o professor essa competência ele vai construindo e reconstruindo o seu cotidiano, socializando e valorizando as suas experiências. Assim, olhamos para ele com o olhar de quem possui saberes próprios da docência e que esses saberes merecem ser compartilhados.
Temos muita esperança de que os professores deste país, frente a todas as adversidades, continuem constituindo espaços de construções relacionais. O professor precisa ser o centro que acredita nesse movimento dos aprendentes e ensinantes e dos ensinantes e aprendentes em ações dialógicas. Quanto mais se desenvolver essa prática, quanto mais espaço se der para essa discussão, mais poderemos construir coletivamente. Freinet era adepto das pedagogias ativas e colocava o trabalho como elemento central na organização das aprendizagens escolares. Sua pedagogia baseava-se na cooperação entre os alunos e os educadores, e os tempos e espaços escolares deveriam ser estabelecidos em função do interesse dos alunos.
“Esperamos dos professores, trabalhadores ativos, de iniciativas generosas; o cidadão cioso das suas liberdades, mas capazes de se disciplinar para servir cooperativamente as causas justas; os homens que saberão sair das fileiras e partir para a vanguarda, enfrentando temerariamente as dificuldades; os pioneiros que por vezes importunam, os monges e os religiosos, os exploradores e os robôs, os soldados e os burocratas, mas que avançam, progridem, constroem e criam”. Freinet
Frente aos pensares de Freinet diríamos que o professor é um mobilizador, é um articulador que trabalha com a perspectiva coletiva, constrói uma relação de compromisso ético com o seu grupo, compromisso de construção, compromisso de olhar para a totalidade, compromisso com a afetividade, comunicação, autonomia e cooperação.
A postura do professor é fundamentada em diferentes olhares: a) - olhar para a escola enquanto um movimento em que todos os participantes têm papel decisivo; b) - olhar da singularidade fundamental quando cruzado com o coletivo; c) – olhar para a relação da prática educativa e os discursos, esse alerta é muito importante, precisamos tomar cuidado com um discurso extremamente elaborado e uma prática empobrecida; d) – olhar estruturante, a forma de como são organizados os momentos de reflexão e os espaços nesta relação entre os seus pares; e) - olhar da ação junto às famílias, à comunidade, considerando que a família precisa ser parceira dos professores na construção dos olhares dos aprendizes; f) olhar do acreditar na perspectiva de superação e de transformação dos seres em processos de desenvolvimento humano. 
À medida que o professor possibilita uma aprendizagem significativa, em que a cada espaço o aluno faça uma relação com o seu cotidiano, o professor se compromete não apenas com o aqui e o agora, mas com a comunidade, com a sociedade, com um olhar mais amplo. É nesse momento que o professor constrói, de fato, a possibilidade de uma geração que está aí, precisando tanto de referências para se constituir como um cidadão democrático.
A aprendizagem na escola é um passaporte imenso para poder entender e transformar tantas situações adversas que estamos vivenciando. Falar em educação de excelência é perceber que o foco de uma escola é o aprendiz. E o aprendiz não é apenas a criança, mas também o professor, as famílias, a comunidade.
A imersão na pedagogia Freinet possibilita tanto ao aprendiz refletir e identificar o que está fazendo com a sua vida como ao educador compreender qual o sentido que está dando para os projetos educativos vivenciados e como pode contribuir para romper com a alienação, porque “a Escola Moderna não é nem uma capela nem um clube mais ou menos restrito, mas, na realidade uma via que nos conduzirá àquilo que, todos juntos, construirmos." (Freinet)
A relação de humanização desse momento histórico é talvez a maior contribuição que o educador tem a realizar para o exercício da cidadania, considerando que o conhecimento é para constituir o humano mais competente para ser feliz, para ter espaço na vida, para acreditar nas pessoas, para poder, de fato, ecologicamente, acreditar num universo que não destrua a si mesmo, que não fique apenas voltado a questões de controle, do exercício de exterioridade, mas que tenha essa noção de vida abundante, pulsante a cada segundo.
Nas reflexões de Freinet, encontramos o olhar de uma educação que não seja alicerçada em rótulos frívolos, uma educação inclusiva em sua essência, uma educação que traga para cada um o seu contexto para pensar a totalidade; um movimento profundamente responsável que revele implicações, mexendo com conceitos fundamentais de comunicação, de cooperação de autonomia e de afeto. É um movimento de quebrar cristalizações, de desconstruir conceitos autoritários, ainda historicamente existentes em nossa cultura porque conforme dizia Freinet, "Nós nos habituamos todos de tal forma a comandar as crianças e a exigir delas uma obediência passiva que não pensamos na possibilidade de haver outra solução para a educação que não seja a fórmula autoritária”. 
Necessitamos entrar na essência das questões, debater com profundidade e percebermos o nosso ser nas relações que efetivamente construímos.
Concluindo, “o educador não é um forjador de cadeias, mas um semeador de alimento e de claridade” (Freinet). O Educador é um fundador de mundos. Fonte

13/07/2014

Amizade

Amigos são luzes que iluminam nosso caminho quando só vemos escuridão.
Luzes que nos fazem enxergar com clareza o que nos parece tão confuso.
Luzes que depositam em nossos olhos o brilho de um abraço-irmão.
Amigos são luzes de fogos de artifício celebrando nossas vitórias.
Luzes que nos revestem de brilho diante das coisas mais singelas.
A nos embalar o sono, luzes diáfanas, refletidas na janela.
Amigos são luzes coloridas que nos convidam a sonhar.
Luzes enfileiradas adornando nossa árdua trajetória.
Luzes que se convertem em lágrimas para ao nosso lado chorar.
Amigos são luzes vindas do mar em forma de pérolas,
jóias reluzentes premiando a mais bela amizade.
Luzes de um palco encantado, que representa a verdade.
Amigos são luzes de vaga-lumes que voam alegres no quintal.
Luzes que iluminam nossa alma com seu belo cintilar.
Luzes mágicas, que convertem o mais rude casebre em palácio real.
Quem tem uma amiga-luz é um ser abençoado. Fonte

Manifesto dos Educandos Sem Fronteiras - com João Signorelli o "Gandhi"


Os únicos requisitos são estar matriculado – desnecessário para os que já terminaram os estudos – em alguma escola (pública ou particular) e ter muita, mas muita vontade de se encantar pelo conhecimento.
O método
Nossas aulas têm quatro elementos:
  1. O lúdico: a aula é descontraída, curiosa e divertida.
  2. A transversalidade: nossos educadores são estimulados a navegar por diferentes matérias. A aula de história chega à geografia. A de física à matemática e desta ao inglês... E, juntos, viajamos pelo mundo!
  3. A realidade: é nosso desafio associar os temas das aulas com o cotidiano dos educandos. Eles precisam saber qual a utilidade do conteúdo, a fim de responder àquela velha pergunta: “Para que serve tudo isso?”
  4. A participação e apoio das famílias dos educandos: base indispensável na realização dos sonhos! Fonte

12/07/2014

A casa materna – Vinícius de Morais

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.
É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.
A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.
Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna sabe por que, queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.
A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.
in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)

11/07/2014

CONTATOS SUTIS - VISÕES COM O CORAÇÃO - Por Wagner Borges

Quem quiser ver novos horizontes, precisa olhar com o coração aberto e a consciência generosa... Para ver o que é real e além das aparências.
Para ver, não só as coisas do mundo, mas a luz que anima a própria vida.
Para perceber que há algo além do que os cinco sentidos podem captar.
Para ir além de si mesmo...
Ah, é preciso ver com o coração... Para não se enganar!
Para aprender a lição que o amor tem para dar.
Para apaziguar as emoções e se sentir integrado consigo mesmo.
É preciso ver com o coração... Para compreender outro coração!
Para perceber que há outras consciências, sem o corpo físico, também olhando os corações e o que cada um carrega por dentro.
E elas compreendem e torcem pelo melhor, pois vêem o Divino em cada ser.
Sim, é preciso ver com o coração, para além do mundo, lá na casa das estrelas... Para perceber outros corações, que vêm de outros orbes, em suas naves reluzentes, para tocarem outros corações, na mesma luz...
Sim, aquelas consciências sem o corpo denso, os visitantes estelares, e os homens de boa vontade, todos vendo o Grande Coração do Eterno pulsando em cada pequeno coração...

P.S.: Quando o amor fala, o ego se cala!
E só fica o silêncio da compreensão serena e pacífica.
Quem vê com o coração, sabe...

10/07/2014

A VIDA ENSINA - Por Artur da Távola

Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe. 
Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; 
que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema, aquele que começa pelo fim. 
Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando. Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo. 
Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.Tanto mais lúdica quanto mais complexa. 
Tanto mais complexa quanto mais consciente.Tanto mais consciente quanto mais difícil. 
Tanto mais difícil quanto mais grandiosa. Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge. 
Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas. Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva. 
Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois. Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la. Que aquele garoto que não come, coma. 
Que aquele que mata, não mate. Que aquela timidez do pobre passe. 
Que a moça esforçada se forme. Que o jovem jovie.
Que o velho velhe. Que a moça moce. Que a luz luza. Que a paz paze. 
Que o som soe. Que a mãe manhe. Que o pai paie. Que o sol sole. Que o filho filhe. Que a árvore arvore.
Que o ninho aninhe. Que o mar mare. Que a cor core. Que o abraço abrace. Que o perdão perdoe. 
Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança. Pois, do jeito que o mundo vai,dá vontade de apagar e começar tudo de novo. A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.

Foi-se a Copa? - Carlos Drummond de Andrade

Foi-se a Copa? Não faz mal. 
Adeus chutes e sistemas. 
A gente pode, afinal, 
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos? 
Perdura a inflação de fato. 
Deixaremos de ser tontos 
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio, 
havendo tenacidade, 
ganhará, rijo, e de cheio, 
A Copa da Liberdade.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 - Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) - Considerado um dos maiores poetas brasileiros, autor de uma vasta obra poética, que também inclui contos e crônicas. Morou no Rio de Janeiro a maior parte de sua vida, onde, foi funcionário público. Foi traduzidos para vários idiomas e é uma referência fundamental na poesia brasileira.

05/07/2014

VELHO SOBRADO - POR CORA CORALINA

Um montão disforme. Taipas e pedras, 
abraçadas a grossas aroeiras, 
toscamente esquadriadas. 
Folhas de janelas. 
Pedaços de batentes. 
Almofadados de portas. 
Vidraças estilhaçadas. 
Ferragens retorcidas. 

Abandono. Silêncio. Desordem. 
Ausência, sobretudo. 
O avanço vegetal acoberta o quadro. 
Carrapateiras cacheadas. 
São-caetano com seu verde planejamento, 
pendurado de frutinhas ouro-rosa. 
Uma bucha de cordoalha enfolhada, 
berrante de flores amarelas 
cingindo tudo. 
Dá guarda, perfilado, um pé de mamão-macho. 
No alto, instala-se, dominadora, 
uma jovem gameleira, dona do futuro. 
Cortina vulgar de decência urbana 
defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado 
- um muro. 

Fechado. Largado. 
O velho sobrado colonial 
de cinco sacadas, 
de ferro forjado, 
cede. 

Bem que podia ser conservado, 
bem que devia ser retocado, 
tão alto, tão nobre-senhorial. 
O sobradão dos Vieiras 
cai aos pedaços, 
abandonado. 
Parede hoje. Parede amanhã. 
Caliça, telhas e pedras 
se amontoando com estrondo. 
Famílias alarmadas se mudando. 
Assustados - passantes e vizinhos. 
Aos poucos, a “fortaleza” desabando. 

Quem se lembra? 
Quem se esquece? 

Padre Vicente José Vieira. 
D. Irena Manso Serradourada. 
D. Virgínia Vieira 
- grande dama de outros tempos. 
Flor de distinção e nobreza 
na heráldica da cidade. 
Benjamim Vieira, 
Rodolfo Luz Vieira, 
Ludugero, 
Ângela, 
Débora, Maria... 
tão distante a gente do sobrado... 

Bailes e saraus antigos. 
Cortesia. Sociedade goiana. 
Senhoras e cavalheiros... 
- tão desusados... 

O Passado... 

A escadaria de patamares 
vai subindo... subindo... 
Portas no alto. 
À direita. À esquerda. 
Se abrindo, familiares. 

Salas. Antigos canapés. 
Cadeiras em ordem. 
Pelas paredes forradas de papel, 
desenho de querubins, segurando 
cornucópia e laços. 
Retratos de antepassados, 
solenes, empertigados. 
Gente de dantes. 

Grandes espelhos de cristal, 
emoldurados de veludo negro. 
Velhas credências torneadas 
sustentando 
jarrões pesados. 
Antigas flores 
de que ninguém mais fala! 
Rosa cheirosa de Alexandria. 
Sempre-viva. Cravinas. 
Damas-entre-verdes . 
Jasmim-do-cabo. Resedá. 
Um aroma esquecido 
- manjerona. 

O Passado... 

O salão da frente recende a cravo. 
Um grupo de gente moça 
se reúne ali. 
“Clube Literário Goiano”. 
Rosa Godinho. 

Luzia de Oliveira. 
Leodegária de Jesus, 
a presidência. 
Nós, gente menor, 
sentadas, convencidas, formais. 
Respondendo à chamada. 
Ouvindo atentas a leitura da ata. 
Pedindo a palavra. 
Levantando ideias geniais. 
Encerrada a sessão com seriedade, 
passávamos à tertúlia. 
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim. 
Músicas antigas. Recitativos. 
Declamavam-se monólogos. 
Dialogávamos em rimas e risos. 
D. Virgínia. Benjamim. 
Rodolfo. Ludugero. 
Veros anfitriões. 
Sangrias. Doces. Licor de rosa. 
Distinção. Agrado. 
O Passado… 
Homens sem pressa, 
talvez cansados, 
descem com leva 
madeirões pesados, 
lavrados por escravos 
em rudes simetrias, 
do tempo das acutas. 
Inclemência. 
Caem pedaços na calçada. 
Passantes cautelosos 
desviam-se com prudência. 

Que importa a eles o sobrado? 

Gente que passa indiferente, 
olha de longe, 
na dobra das esquinas, 
as traves que despencam. 
- Que vale para eles o sobrado? 
Quem vê nas velhas sacadas 
de ferro forjado 
as sombras debruçadas? 
Quem é que está ouvindo 
o clamor, o adeus, o chamado?… 
Que importa a marca dos retratos na parede? 
Que importam as salas destelhadas, 
e o pudor das alcovas devassadas… 
Que importam? 

E vão fugindo do sobrado, 
aos poucos, 
os quadros do Passado. 


©CORA CORALINA 
In Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, 1965 

04/07/2014

Preciso - Por Marina Colasanti

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.


Preciso que uma proa atravesse a carne
cá centro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.

03/07/2014

Zion

Ele é o nó no meu cabelo,
O esmalte descascado na minha unha,
As olheiras no meu rosto.
Ele é o carrinho na minha gaveta de roupas,
O amassado nas páginas do meu livro,
O rasgado no meu caderno de anotações.
Ele é o melado no controle remoto, 
O canal da televisão, 
O filme no dvd.
Ele é o farelo no sofá, 
As tesouras no alto, 
A baba no celular.
Ele é o backup no computador, 
O mouse escondido,
As cadeiras longe da janela.
Ele é a marca de mão nos móveis, 
O embaçado nos vidros
O desfiado nos tecidos.
Ele é o ventilador desligado, 
A porta do banheiro fechada
A gaveta da cômoda aberta.
Ele é o cóque na minha cabeça,
As frutas fora da fruteira,
Os panos de prato amarrando os armários.
Ele é o meu shampoo cheio de água,
A espuma no chão do banheiro,
O brinquedo dentro da privada.
Ele é o interruptor, as tomadas
Os imãs da geladeira, os riscos nos cds. 
Ele é o avião que voa por cima da casa,
O trem que apita de longe,
Todo cachorro que late, todo carro que passa.
Ele é o peixe do aquário, 
A árvore de Natal,
Os “pisca-pisca” de todas as casas.
Ele é o círculo, o susto, as goiabas...
A primeira visão da lua no começo da noite...
O valor do trabalho, a vontade de aprender,
A minha força
A minha fraqueza.
Ele é o aperto no meu peito diante de uma escada,
A ausência do meu sono diante de uma febre,
Os meus olhos fechados diante de uma vacina.
Ele é o meu impulso, o meu reflexo, a minha velocidade.
Ele é as formigas na minha cama,
O cheirinho no meu travesseiro
Os cantinhos, 
O barulho,
A metade,
O azul. 
Ele é o vazio triste no silêncio de dormir 
O meu sono leve durante a noite
A checada nas cobertas de madrugada.
Ele é o meu ouvido aguçado enquanto durmo
A minha pressa de levantar da cama,
A minha espera do bom dia.
Ele é o arrepio quando me chama,
A paz quando me abraça,
A emoção quando me olha.
Ele é o meu cuidado, a minha fé, 
O meu interesse pela vida
A minha admiração pelas crianças, 
O meu respeito pelas pessoas
O meu amor por Deus.
É o meu ontem, 
O meu hoje 
O meu amanhã
Ele é o motivo, 
A inspiração
A poesia.
A lição, o dever
O remédio, a terapia.
Ele é a presença, a surpresa
A saudade...
A esperança

A minha dedicação.
A minha oração.
A minha gratidão.

(Nádia Maria, p/ Zion)