Licensa

25/05/2014

Pessoas que evoluem com as dificuldades - Por José Manuel Moran

Conheço pessoas que passaram por muitas dificuldades e saíram delas mais fortalecidas. Conheço outras que, diante das mesmas dificuldades, desanimaram, fugiram, desistiram ou se acomodaram.
Há pessoas lutadoras, proativas, que procuram avançar nas circunstâncias mais adversas, nos fracassos, perdas, traições. Enquanto outras se perdem, se frustram, não reagem, fogem. Uns lutam, outros desistem; uns tentam novos caminhos, outros procuram pretextos e culpados.

Cada pessoa tem sua história, circunstâncias, influências, valores e razões. Mas, objetivamente, são mais as que desistem que as que persistem; as que se acomodam que as que empreendem, arriscam, evoluem.

É difícil compreender e prever por que as mesmas circunstâncias provocam reações tão diferentes, por que as mesmas informações são trabalhadas de formas tão diversas, por que o que para uns é um desafio que os estimula, para outros é um obstáculo que os imobiliza.

Quanto mais avançamos em idade, mais visíveis se tornam as diferenças nas atitudes diante da vida. Algumas pessoas idosas são encantadoras, atraentes, proativas, cheias de vida e planos. Dá gosto conviver com elas. Mesmo com dificuldades físicas, não se queixam, procuram não dar trabalho, tentam ser independentes até o limite extremo. Infelizmente vemos muitas outras que passam mais tempo se queixando do que vivendo; lamentando que construindo, remoendo do que superando.

A velhice se constrói desde jovem. As atitudes profundas diante da vida, diante de si mesmo e dos outros, nos ajudam a construir percursos interessantes ou frustrantes. Não são as experiências que definem como evoluímos, mas como as enfrentamos. Muitos jovens envelhecem rapidamente por dentro, por uma visão imediatista, autocentrada de mundo. As pessoas mais generosas, abertas e confiantes conseguem encontrar melhores respostas, superar melhor os obstáculos, conviver com gente mais interessante e ter uma qualidade de vida mais plena.

É decepcionante perceber quão grande é o número de pessoas que não conseguem enxergar muito além do básico, que não desfrutam de experiências ricas de convivência, de realização e plenitude em todas as dimensões.
Há pessoas que remoem mágoas por décadas, que não esquecem nem perdoam, que cortam laços com pessoas íntimas e não reveem suas decisões. Outras não se perdoam por alguns fracassos, perdas ou abandonos.

Todos temos as informações e os meios de superar obstáculos. Mesmo nas circunstâncias mais complicadas, uns encontram forças para superar-se, para reerguer-se, para fortalecer-se, enquanto outros, tudo é difícil, complicado, intransponível. É triste constatar como se enredam em teias complicadas que os envolvem, os atormentam, os asfixiam. Com o tempo se conformam, entregam, desistem e perdem inúmeras chances de mudar.

A vida passa rápido, nos dá chances de aprender com o erro e as dificuldades. Os que aprendem com eles, conseguem avançar mais e realizar-se cada vez mais. 

Ampliação do tema Aprendemos com as dificuldades,
do meu livro Aprendendo a Viver, 6ª Ed. SP, Paulinas, 2011, p. 23-24

Há doenças piores que as doenças - Fernando Pessoa

Há doenças piores que as doenças, 
Há dores que não doem, nem na alma 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com imaginá-las 
Que são mais nossas do que a própria vida. 
Há tanta coisa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa e nós... 
Por sobre o verde turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas... 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada. Fonte

Fila Indiana

Para mim os homens caminham pela face da Terra em fila indiana.
Cada um carregando uma sacola na frente e outra atrás.

Na sacola da frente, nós colocamos as nossas qualidades.
Na sacola de trás guardamos os nossos defeitos.

Por isso durante a jornada pela vida, mantemos os olhos fixos nas virtudes que possuímos, presas em nosso peito.

Ao mesmo tempo, reparamos impiedosamente nas costas do companheiro que está adiante, todos os defeitos que ele possui.

E nos julgamos melhores que ele, sem perceber que a pessoa andando atrás de nós, está pensando a mesma coisa a nosso respeito.

Mude ainda dá tempo, e não esqueça…

Sorria !!! …

Fonte: Mensagens e Poemas

18/05/2014

A escola secreta de Nasreen – uma história verdadeira do Afganistão

A minha neta Nasreen vive comigo em Herat, uma antiga cidade do Afeganistão, onde outrora floresceram as artes, a música e a educação. Mas depois chegaram os soldados e tudo mudou. As artes, a música e a educação desapareceram. Nuvens negras pairam agora sobre a cidade.
A pobre Nasreen fica em casa todo o dia, porque as raparigas estão proibidas de frequentar a escola. Os talibãs não querem que as raparigas estudem, como eu e a mãe de Nasreen fizemos quando éramos crianças.
Uma noite, vieram eles e levaram o meu filho, sem qualquer explicação. Esperamos dias e noites pelo seu regresso. Cansada de esperar, a mãe de Nasreen pôs-se, finalmente, a caminho, à procura dele, embora fosse proibido às mulheres e raparigas andar sozinhas pela rua.
Muitas luas passaram à minha janela enquanto eu e Nasreen esperávamos. Nasreen nunca falava nem sorria. Ficava sentada, à espera que o pai e a mãe aparecessem.
Eu sabia que tinha de fazer algo.
Ouvi rumores sobre uma escola secreta para raparigas que ficava por detrás de um portão verde, num caminho perto da nossa casa. E queria muito que Nasreen frequentasse essa escola. Queria que ela conhecesse o mundo, que estudasse, como eu tinha feito. Queria que ela falasse de novo. Assim, um dia, Nasreen e eu apressamo-nos a chegar ao portão verde. Felizmente, nenhum talibã nos viu. Bati ao de leve. A professora abriu o portão e corremos para dentro. Atravessamos o recreio da escola – uma sala numa casa particular cheia de raparigas. Nasreen sentou-se ao fundo da sala. Quando a deixei rezei: “Por favor Alá, abre-lhe os olhos para o mundo.” Nasreen não falou com as outras raparigas. Também não falou com a professora. E em casa manteve-se em silêncio.
Eu receava que os talibãs descobrissem a escola. Mas as raparigas eram espertas. Entravam e saíam a diferentes horas para não levantar suspeitas. E quando os soldados se aproximavam do portão, alguns rapazes desviavam a sua atenção. Ouvi falar de um talibã que bateu ameaçadoramente no portão, exigindo que o abrissem. Mas tudo o que encontrou foi uma sala cheia de raparigas a lerem o Corão, o que era permitido. As raparigas tinham escondido os seus trabalhos, enganando assim o soldado.
Uma das raparigas, Mina, sentava-se junto de Nasreen todos os dias. Mas nunca falavam uma com a outra. Enquanto as raparigas aprendiam, Nasreen vivia fechada em si mesma. A minha preocupação agravava-se. Quando a escola fechou para as longas férias de inverno, Nasreen e eu sentávamo-nos junto ao fogão. Alguns familiares poupavam comida e lenha para nos dar.
Mais do que nunca, tínhamos saudades da mãe de Nasreen e do meu filho. Alguma vez viríamos a saber o que tinha acontecido?
No dia em que Nasreen regressou à escola, Mina sussurrou-lhe ao ouvido:
— Tive saudades tuas.
— E eu também — respondeu-lhe Nasreen.
Com aquelas palavras, as primeiras desde que a mãe fora à procura do pai, Nasreen abriu o seu coração a Mina. E sorriu pela primeira vez desde que o pai fora levado à força. Pouco a pouco, dia após dia, Nasreen finalmente aprendeu a ler, a escrever, a somar e subtrair. Todas as noites mostrava-me o que descobrira naquele dia. Abriam-se, para Nasreen, as janelas naquela sala de aula. Conheceu e estudou os artistas, os escritores, os sábios e os místicos que, muito tempo antes, tinham tornado Herat importante.
Nasreen já não se sente só. O conhecimento que vai acumulando estará sempre com ela, como um bom amigo. Agora ela pode ver o céu azul para lá das nuvens escuras.
Quanto a mim, tenho a consciência tranquila. Continuo à espera do meu filho e da sua mulher. Mas os soldados nunca poderão fechar as janelas que se abriram para a minha neta.
Insha’ Allah.
Nota da Autora
O Fundo Internacional para as Crianças, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a ajudar crianças de todo o mundo, contactou-me para escrever um livro baseado numa história verdadeira. Senti-me imediatamente atraída por uma organização no Afeganistão que fundou e apoiou escolas secretas para raparigas durante a ocupação Talibã, entre 1996 e 2001. O fundador destas escolas — que pediu anonimato — partilhou comigo a história de Nasreen e da sua avó. O nome de Nasreen foi alterado.
Antes de os Talibãs controlarem o Afeganistão:
70% dos professores eram mulheres;
40% dos médicos eram mulheres;
50% dos estudantes de Cabul eram do sexo feminino.
Depois da ocupação Talibã

  • as raparigas estavam proibidas de frequentar a escola ou a universidade;
  • as mulheres estavam proibidas de trabalhar fora de casa;
  • as mulheres estavam proibidas de sair de casa sem um familiar do sexo masculino;
  • as mulheres eram obrigadas a usar a burca que cobria toda a cabeça e o corpo, deixando apenas uma pequena abertura para os olhos;
  • não era permitido cantar, dançar ou lançar papagaios. As artes e a cultura foram banidas na terra natal do famoso poeta Rumi. As esculturas colossais de Bamiyan Buddhas, esculpidas na montanha, foram destruídas.
Tinham começado anos e anos de isolamento e de terror. Mas também havia atos de coragem de cidadãos que desafiavam, de muitas formas, o regime Talibã, incluindo o apoio a escolas secretas de raparigas. A sua coragem nunca vacilou. Fonte
Jeannete Winter
Nasreen’s Secret School – A true story from Afghanistan
New York, Beach Lane Books, 2009
(Tradução e adaptação)

17/05/2014

Sementes do Nosso Quintal

Quando começamos a trilhar o caminho deste projeto nos deparamos com um conflito e uma delicada conversa entre cultura e educação. Fomos questionados pelas instituições governamentais que não compreenderam a relação de um projeto que trata de educação com a cultura.
Não foram poucos os argumentos que tivemos que elaborar para deixar claro que se tratava de um trabalho justamente sobre a cultura na educação. Percebemos ao longo desses anos de dedicação a este projeto que há uma carência enorme de cultura na educação e de educação na cultura e acreditamos ser esse um dos grandes buracos do nosso sistema educacional:
Por que cultura e educação são tratados como temas ou áreas distintas? Por que a cultura não faz parte do cotidiano das escolas? Por que os educadores não assumem mais sua bagagem cultural como um precioso insumo para o seu trabalho? 
Se somos seres nascidos, imersos e produtores de cultura, temos que nos educar a partir dela e nela. É a partir da cultura que nos conhecemos, conhecemos nossa identidade, nossa comunidade, nosso país, nossos desejos e potenciais. Como desejar, amar e cuidar de nosso bairro, cidade, país, planeta, se não for pela identificação com a cultura que faz desabrochar um sentimento de amor e pertencimento.
Na minha opinião essa deve ser a base de uma educação coerente, sensível, criativa e forte. 
Propomos este diálogo permanente. Gostaríamos de ouvir a opinião de vocês e exemplos concretos que demonstram como é rico e possível vivenciar a nossa cultura desde os primeiros anos. Fonte

SINOPSE E ROTEIRO
O filme retrata o cotidiano de uma escola de educação infantil sem precedentes que, através do pensamento-em-ação de sua idealizadora, a controversa e carismática educadora Therezita Pagani, nos revela o potencial estruturante da educação infantil verdadeira, firme e sensível.
Somos levados a uma escola onde a criança está acima de métodos e fórmulas de se educar. Onde natureza, música, arte, conflitos, magia e cultura popular regem o encontro das crianças, que convivem diariamente entre diferentes faixas etárias.
Sementes do Nosso Quintal” é, antes de tudo, um filme que trata da vida de todos nós, através de uma escola.
ROTEIRO
A Te-arte, assim como a vida de um modo geral, não segue roteiros, planejamentos, rótulos, currículos ou métodos. Segue o rumo da experiência humana no seu ciclo de desenvolvimento, com todos os elementos que a compõe, ou seja, um arsenal de possibilidades e relações que não se encaixam em pré-roteiros, e muito menos em currículos pedagógicos pré-estabelecidos.
Criar um roteiro para apresentar uma experiência com esse teor humano não foi tarefa fácil. Acrescente a isso o trabalho de anos de captação de imagens (450 horas captadas) que olhou para a criança com uma mistura de encantamento e espanto, tentando entender e apreender mais do que simplesmente mostrar. 
“Tínhamos em mãos um material riquíssimo: a infância sendo contada a partir de um escola que a entende e a respeita como tal. Como roteirizar tudo isso? Como contar uma história? Como apresentar essas relações assim como elas se dão: em alguns momentos em aparente desorganização, porém, em profundo sentido para as crianças? A opção foi por um roteiro que olhasse para a infância em primeiro plano, sendo amparada, respaldada e conduzida por mãos experientes, firmes e solidárias.”, explica Renata Meirelles.
Por isso o filme inicia com um aparente “caos” que, apesar de estar presente no espaço escolar, fala de assuntos comuns ao ser humano: estranhamento, desconstrução, morte, construção e alimentação. Trata-se de uma introdução, ou batismo de fogo, ao espaço diegético: o universo escolar, onde a vida destes seres em formação de valores e em franquíssima convivência ocorre, nunca isenta de conflitos.
Aos poucos o filme nos coloca ao lado de alguns personagens com quem reciclamos o barro, mexemos na lama, encaramos um ganso solto, observamos e nos esquivamos da experiência da morte, brincamos, cantamos, dançamos, experimentamos sabores, choramos e vivenciamos sentimentos, desafios, questionamentos e os ciclos da cultura popular brasileira. Nunca seguindo uma lógica rígida, mas trazendo nuances do subjetivo e do imaginário, assim como é a infância.
A música, outro elemento fundamental no dia-a-dia da escola e, no pensamento-em-ação de Therezita, na formação e desenvolvimento do ser humano, é outro elemento de transcendência que perpassa o filme. Ela ocorre o tempo todo, e não é nunca inibida. Seja da habilidade afro-brasileira ancestral do mestre popular Tião Carvalho, músico maranhense que há 30 anos é educador na escola, seja de um casal de pais músicos eruditos, da apresentação de um grupo paulistano que faz música com o próprio corpo ou da sanfona junina, a música é produzida o tempo todo pelas crianças, na sua relação com o seu corpo, com o corpo do outro, dos elementos naturais ou culturais. Segundo Therezita,
a música é o primeiro elemento do ser humano para que ele se conheça, conheça seu ritmo interno, e o espaço que essa música deve ocupar.” 
Nesse sentido, os inúmeros momentos musicais da escola (da afinação de um instrumento ao um verdadeiro sarau de música erudita às oito da manhã, passando por uma roda de bumba meu boi e pelo esquentar do coro de um tambor de crioula) são relacionados com as fases do desenvolvimento infantil narrados e pontuados no roteiro: adaptação > rotina > a criança em si > a escola em si > educar-transformar>ciranda das memórias.
Quanto ao tempo do filme, que muitos comentam ser longo, ele também refletiu o tempo da infância, que é um tempo estendido, um tempo outro, um tempo do imaginário, e nos convida a nós adultos, a deixar os atropelos e a correria das tarefas um pouco de lado para brincar, contemplar e imaginar, e resgatar a nossa criança interior.

14/05/2014

Leonardo Boff fala sobre Ética e Ecologia - Desafios para o século XXI

Ética para a nova era
Nenhuma sociedade no passado ou no presente vive sem uma ética. Como seres sociais, precisamos elaborar certos consensos, coibir certas ações e criar projetos coletivos que dão sentido e rumo à história. Hoje, devido ao fato da globalização, constata-se o encontro de muitos projetos éticos nem todos compatíveis entre si. Face à nova era da humanidade, agora mundializada, sente-se a urgência de um patamar ético mínimo que possa ganhar o consentimento de todos e assim viabilizar a convivência dos povos. Vejamos, sucintamente, como na história se formularam as éticas.
Uma permanente fonte de ética são as religiões. Estas animam valores, ditam comportamentos e dão significado à vida de grande parte da humanidade que, a despeito do processo de secularização, se rege pela cosmovisão religiosa. Como as religiões são muitas e diferentes, variam também as normas éticas. Dificilmente se pode fundar um consenso ético, baseado somente no fator religioso. Qual religião tomar como referência? A ética fundada na religião possui, entretanto, um valor inestimável por referi-la a um último fundamento que é o Absoluto.
A segunda fonte é a razão. Foi mérito dos filósofos gregos terem construído uma arquitetônica ética fundada em algo universal, exatamente na razão, presente em todos os seres humanos. As normas que regem a vida pessoal chamaram de ética e as que presidem a vida social chamaram de politica. Por isso, para eles, politica é sempre ética. Não existe, como entre nós, politica sem ética.
Esta ética racional é irrenunciável mas não recobre toda a vida humana, pois existem outras dimensões que estão aquém da razão como a vida afetiva ou além como a estética e a experiência espiritual.
A terceira fonte é o desejo. Somos seres, por essência, desejantes. O desejo possui uma estrutura infinita. Não conhece limites e é indefinido por ser naturalmente difuso. Cabe ao ser humano dar-lhe forma. Na maneira de realizar, limitar e direcionar o desejo, surgem normas e valores. A ética do desejo se casa perfeitamente com a cultura moderna que surgiu do desejo de conquistar o mundo. Ela ganhou uma forma particular no capitalismo no seu afã de realizar todos os desejos. E o faz excitando de forma exacerbada todos os desejos. Pertence à felicidade, a realização de desejos mas, atualmente, sem freios e controles, pode pôr em risco a espécie e devastar o planeta. Precisamos incorporá-la em algo mais fundamental.
A quarta fonte é o cuidado, fundado na razão sensível e na sua expressão racional, a responsabilidade. O cuidado está ligado essencialmente à vida, pois esta, sem o cuidado, não persiste. Dai haver uma tradição filosófica que nos vem da antiguidade (a fábula-mito 220 de Higino) que define o ser humano como essencialmente um ser de cuidado. A ética do cuidado protege, potencia, preserva, cura e previne. Por sua natureza não é agressiva e quando intervem na realidade o faz tomando em consideração as consequências benéficas ou maléficas da intervenção. Vale dizer, se responsabiliza por todas as ações humanas. Cuidado e responsabilidade andam sempre juntos.
Essa ética é hoje imperativa. O planeta, a natureza, a humanidade, os povos, o mundo da vida (Lebenswelt) estão demandando cuidado e responsabilidade. Se não transformarmos estas atitudes em valores normativos dificilmente evitaremos catástrofes em todos os níveis. Os problemas do aquecimento global e o complexo das varias crises, só serão equacionados no espírito de uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva. É a ética da nova era.
A ética do cuidado não invalida as demais éticas mas as obriga a servir à causa maior que é a salvaguarda da vida e a preservação da Casa Comum para que continue habitável.
Leonardo Boff é autor de Saber cuidar. Ética do humano, compaixão pela Terra, Vozes. 

Ética do cuidado - Por Leonardo Boff

"Hoje mais do que nunca se faz necessária uma ética do cuidado, porque tudo está descuidado. A cada dia cerca de 20 espécies de seres vivos desaparecem de forma definitiva dada a presença agressiva do ser humano. Ele se fez um homicida das grandes expressões da biodiversidade da vida". As palavras são do teólogo e escritor Leonardo Boff, em suas reflexões no Espaço Cultural CPFL. Ao participar das discussões sobre a vertigem do mundo contemporâneo, que produz desencontros e provoca dúvidas quanto ao próprio futuro da vida na Terra, Boff propôs o resgate da ética e do sentido da responsabilidade humana com relação ao equilíbrio perdido da natureza. "Não existe meio ambiente. Existe ambiente inteiro", alertou, para definir: "Esse ambiente inteiro é a comunidade de vida da qual somos parte e parcela, com a responsabilidade e missão de cuidar disso". Para Boff, é urgente a correção de rumos, uma revisão de postura das ações humanas em relação à biodiversidade, à atmosfera, para que seja garantida a continuidade da vida. Ele lamentou: "O ser humano veio sistematicamente agredindo e pilhando os recursos da natureza. Só que hoje ele chegou a um limite. A continuar essa lógica, ele pode ir ao encontro do pior. Pode ir ao encontro do destino dos dinossauros." Em suas ponderações, ele manifestou esperança em que o ser humano assuma nova postura em relação à natureza, à vida toda, retomando o sentido da transcendência inerente a sua condição. Disse o teólogo: "É essa dimensão do ser humano que transcende o princípio da pura necessidade, do puro desejo de postos de dominação, para dimensões de amorosidade, de cuidado, de generosidade. E de solidariedade." 

11/05/2014

Filme "Em Um Mundo Melhor*"


O ator sueco Mikael Persbrandt é o protagonista de Em Um Mundo Melhor.
Como ser uma pessoa boa, ética e justa em um mundo onde a maldade, a injustiça e a falta de humanidade muitas vezes parecem prevalecer? Essa é a pergunta que a diretora dinamarquesa Susanne Bier nos faz em "Em Um Mundo Melhor" (2010), longa-metragem premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. A diretora de 51 anos tem uma filmografia bastante sólida com 12 filmes no currículo. Entre eles, destacam-se: Corações Livres (2002), Brødre (2004) e Depois do Casamento (2006). Em Um Mundo Melhor marca a quarta parceria de Bier com o roteirista Anders Thomas Jensen, com quem divide os créditos pelo roteiro do filme. 
O roteiro de "Em Um Mundo Melhor" impressiona pela sua maturidade e pela maneira com que cada fração da história se comunica e se completa, criando uma unidade de sentido. O filme é centrado em duas famílias. No primeiro núcleo familiar, temos Anton (Mikael Persbrandt), um médico que trabalha na África e que está se divorciando de Marianne (Trine Dyrholm). Ao que tudo indica, Anton estava mantendo um caso extraconjugal e foi descoberto pela esposa. O filho de casal, Elias (Markus Rygaard), tem doze anos e sofre bullying na escola. A outra família é formada por Claus (Ulrich Thomsen) e Christian (William Jøhnk Nielsen), pai e filho respectivamente. Christian tem a mesma idade de Elias. A mãe do pré-adolescente morreu de câncer e agora pai e filho têm que superar essa perda juntos. Christian, no entanto, não consegue se relacionar com Claus. Elias e Christiam se conhecem na escola e iniciam uma amizade. 
Cada personagem do filme é desenvolvido com extremo cuidado e carinho pelo roteiro. Anton nos é apresentado exercendo a sua função de médico na África, em uma região dominada pela miséria, pela aridez e pela falta de recursos. O trabalho do personagem revela a humanidade e a preocupação social do mesmo. Podemos afirmar que os dois grandes opostos do filme são: Anton e o jovem Christian. Enquanto o primeiro acredita no poder da não-violência e de compreensão do próximo, o segundo se sente impelido a fazer justiça com as próprias mãos, respondendo uma agressão com outra agressão. Não é injustificável o espírito vingador e rebelde de Christian, uma vez que ele parece enxergar como o mundo é cruel e injusto. Quando ele se utiliza de uma arma para punir o agressor do amigo, ele quer fazer o certo, ele quer corrigir uma injustiça. No entanto, o garoto acaba ficando cada vez mais sombrio e violento. 
Elias (Markus Rygaard) e Christian (William Jøhnk Nielsen) são melhores amigos no filme.
Dividido entre a filosofia pacífica do pai e a atitude vingativa do melhor amigo, está o doce Elias. O personagem encanta por ser naturalmente bom e ético. O menino, que aparentemente não tem amigos e sofre com a distância do pai e o divórcio, encontra em Christian uma alternativa para a sua solidão. O medo de perder a amizade de Christian, é o que faz Elias se tornar vulnerável à violência do amigo. É tocante como o filme retrata a cumplicidade infantil. Claus e Marianne compartilham a mesma dificuldade de se comunicar com os filhos. Claus é um personagem impotente diante do ódio avassalador e da indiferença do filho. Já Marianne sofre por não conseguir perdoar o marido, que além de ser um excelente pai, lhe faz muita falta. 
Susanne Bier revela-se uma mestre em explorar as emoções dos personagens, por vezes diante de situações limites. Em várias cenas, é possível compreender tudo que um personagem está sentindo apenas pelo olhar do mesmo e pela maneira com que a diretora conduz a cena, muitas vezes apostando nos closes ou mesmo na instabilidade da câmera. Podemos destacar o momento em que Anton tem que prestar socorro a um terrível criminoso, líder de uma milícia que aterroriza a região em que o médico trabalha. Nesta cena, é palpável a hesitação e o conflito interno do personagem. Em outra cena extremamente forte, em que Marienne tem uma atitude cruel com Christian, é nítido que ela se arrepende quase instantaneamente, percebendo a gravidade do que falou.
Não apenas a direção dos atores é fenomenal, mas também os próprios atores. Os jovens William Jøhnk Nielsen e Markus Rygaard podem ser considerados grandes revelações. Se o primeiro impressiona pela intensidade de sua atuação, o segundo nos conquista pela naturalidade de sua performance. Já o ator sueco Mikael Persbrandt é o coração do filme. Sua interpretação é precisa, contida e seu personagem emana humanidade e sensatez. Trine Dyrholm, que chegou a ganhar alguns prêmios por sua performance, dá um show em cada cena em que aparece. A atriz dinamarquesa estará no próximo filme de Bier, previsto para estrear em 2012. Por fim, Ulrich Thomsen completa o quinteto de atores principais e confere, ao seu personagem,fragilidade e vulnerabilidade. 
Um dos grandes êxitos de Em Um Mundo Melhor é a sua excelente direção de fotografia, que explora perfeitamente a intensidade e multiplicidade das cores da ensolarada e árida África, assim como a beleza das paisagens dinamarquesas. A narrativa é ainda pontuada por uma trilha sonora bela e minimalista. É interessante constatar que os roteiristas optaram por uma resolução otimista do filme, para o que poderia ser um final trágico. Ainda que um final "mais realista" fosse mais impactante, fico feliz com a escolha da dupla Bier-Jensen, já que, com isso, eles parecem nos dizer que é possível acreditar em um mundo melhor. Fonte

10/05/2014

Para guardar as lembranças construtivas e edificantes


Para guardar as lembranças construtivas e edificantes. 
Um zíper,
Que permita abrir a mente quando se deseja encontrar respostas, outro para fechar nossa boca quando for necessário, e outro para abrir nosso coração. 
Um relógio,
Para mostrar que é sempre hora de amar. 
Um rebobinador de filmes, 
Para recordar os momentos mais felizes de nossas vidas. 
Sapatos da moral e da ética,
Para pisarmos com firmeza e segurança por onde quer que formos.
Uma balança,
Para pesar tudo que é vivido e experimentado.
Um espelho,... Nós mesmos!!! 
Para admirar uma das obras mais perfeitas de Deus...

08/05/2014

Difícil ser funcionário - Por João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

O poema acima, escrito em 29-09-1943, revela a decisiva influência de Carlos Drummond de Andrade nas primeiras produções do autor. Inédito, foi extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira", nº. 01, publicado pelo Instituto Moreira Salles em Março de 1996, pág.60.

Saiba mais sobre o poeta e sua obra em "Biografias".

07/05/2014

Quando os outros incomodam

Jung chamou de sombra todos os aspectos da nossa personalidade que foram reprimidos.
Tendemos a reprimir os aspectos que nos atrapalham na adaptação ao mundo e também, aquelas características que são moralmente inaceitáveis.
Tudo o que é reprimido e desconhecido na nossa personalidade tende a ser projetado no mundo e projeção vem sempre carregada de muita emoção. Tanto o amor quanto o ódio apontam para aspectos da nossa personalidade que estamos enxergando nos outros.
Por isso, o que nos chama a atenção em outras pessoas é sempre uma boa pista sobre os aspectos que não conhecemos e não aceitamos em nós mesmos.
Assim acontece quando os outros nos incomodam. Como não aceitamos os lados sombrios em nós, não os aceitamos nas outras pessoas. É por isso que Jung sugeria escrevermos um texto sobre as características das pessoas que nos incomodam e, ao terminar, voltar ao início da página intitulando, “Eu sou assim”, dois pontos…
É para ler e reler, muitas e muitas vezes, apesar dos arrepios.
Observe como, apesar de não concordarmos com certos modelos, as pessoas que são coerentes e assumidas tendem a não incomodar. Isso porque incoerência aponta para a sombra, pois é o resultado da luta entre o que somos e o que gostaríamos de ser. A incoerência alheia nos remete à nossa própria batalha entre esconder de nós mesmos e dos outros o que realmente somos e por isso, irrita um pouco (e às vezes muito).
Podemos, então, usar o que nos incomoda ao nosso favor. Quanto mais flagramos e aceitamos os nossos lados que não consideramos tão nobres, mais os aceitamos nos outros.Assim, nos tornamos mais humanos. Fonte

06/05/2014

A dor na sociedade do espetáculo - Por Liziê Moz Correia*

Grave acidente na avenida. O jovem condutor está morto. A família chega ao IML para fazer o reconhecimento do corpo. Choro. As câmeras focam o rosto da mãe. Um repórter, ávido, pergunta se o rapaz era bom filho. Mais lágrimas. Mais audiência.
Em outro ponto da cidade, uma moça chora na praça de alimentação do shopping center. Brigou com o namorado. Romperam o relacionamento, já o sabemos. Ela entrara na internet poucos minutos antes, para mudar seu status no Facebook e falar de suas desventuras amorosas a mais de 500 “amigos”.
E a dor vai, aos poucos, se transformando em espetáculo na nossa sociedade. As emissoras de televisão já não sobrevivem sem o sofrimento alheio. Por um gosto um tanto quanto mórbido que temos em ver o drama dos outros, ou pelo sentimento de satisfação na comparação da desgraça do próximo com a nossa, fato é que observamos diariamente às angústias alheias como quem assiste a uma atração circense.
O enfoque que a mídia dá aos problemas das pessoas, com a dramatização que os torna atraentes para o público, ao mesmo tempo, banaliza a dor e a torna algo piegas e imaturo. De repente, parece que o drama tem de permear todos os acontecimentos da nossa vida, de forma teatral, num show aberto ao público. O sofrimento parece estar em voga – é romântico – e a incapacidade de lidar com os problemas parece ter virado padrão comportamental. Precisamos de remédios ou de uma bebida e contar com o consolo virtual nas redes sociais.
Na TV, as lágrimas estão na pobreza denunciada pelos telejornais, a mesma que conhecemos no nosso dia-a-dia e a qual ignoramos, nas novelas em que o galã trai a mocinha, mas vai morrer de desilusão se ela deixá-lo, nos bang-bangs dos programas policiais, que usam a violência urbana para se promover. Isso sem falar nos programas no estilo “É Namoro ou Amizade?”, nos quais a solidão das pessoas é moeda de troca para um encontro com um belo desconhecido ou o vexame do desprezo em rede nacional.
Será que com essa glamourização das nossas penas perdemos a capacidade de refletir sobre nossas emoções? Os sites de relacionamento estão abarrotados de mensagens carregadas de pesar e ressentimentos – que, a propósito, pouco ou nada comovem os amigos virtuais, cuja grande maioria nem conhecemos pessoalmente. Mas o circo para a comoção pública precisa se armar. Aceitamos, sem maiores questionamentos, que um jornalista vá meter um microfone sob o nariz de uma mãe desesperada por perder um filho; afinal, queremos espetáculo.
Choraremos junto com as famílias do Nordeste, assistindo à reportagem do telejornal das 20h, arrasados de pena porque falta-lhes água. Mas não votaremos, nas próximas eleições, no candidato que proponha uma solução para o problema. Porque secamos as lágrimas; o show acabou. E mais uma vez, as nossas mazelas serviram de ocasião para um sensacionalismo barato.
Olhando para trás, para uma sociedade que passou, será que não sentimos nem uma pontinha de saudade daquela elegância simples de nossos avós? Da roupa suja que se lavava em casa, da dor que se sofria sozinho (ou então na companhia de uns poucos e fiéis amigos), e até mesmo dos amores que eram mantidos em segredo, sem alardes ou crises existenciais? Aprendemos dos antigos o sábio provérbio: “as grandes dores são mudas”, no tempo em que os desgostos não serviam para cenas, as pessoas pareciam mais equilibradas e mentalmente saudáveis e a vida, discretamente, de alguma forma, sempre seguia em frente.

A DUPLA FORMAÇÃO DO EDUCADOR: leitor e mediador - Por Edson Gabriel Garcia

Quem acha que a vida é moleza, espie um pouco essa dupla mão da estrada do educador envolvido em ensinar seus alunos a gostarem de ler. Ao mesmo tempo em que vai se firmando como leitor, aprende e repassa o que aprendeu para formar outros leitores. Uma estrada de mão dupla: de um lado caminha o leitor e do outro lado caminha o mediador. Aprendendo a ler, o educador vai se fazendo leitor; descobrindo os caminhos da mediação, vai se fazendo um mediador.
Como leitor, o educador vai acumulando experiência de saborear textos, de encontrar saberes guardados, de lidar com o desejo e com a escolha. Sobretudo, o educador vai se fazendo leitor descobrindo o convite ao prazer da aprendizagem que todo texto faz.
Como mediador, o educador vai encontrando caminhos, formas e jeitos de se colocar entre o leitor aprendiz e o texto. Primeiro, bem perto, bem próximo, quase no meio, entre o leitor e o texto, de forma a sentir a respiração do aprendiz em seus contatos com o texto. Depois, ligeiramente mais distante, mas ainda quase ao lado, ouvindo o compasso dos olhos do leitor aprendiz. Finalmente, distante, ausente, mas ainda próximo, acompanha a precisão do tato na escolha feita pelo leitor, agora mais do que um aprendiz, do próprio caminho no diálogo com o texto.
A vida é assim: a gente aprende e ensina. Aprende com quem já sabe um pouco e ensina quem sabe outro pouco. Aprende com o colega educador do lado, com o recado no mural, com a página marcada do texto lido antes por alguém, aprende com o jogo de olhares dos aprendizes. E aprende consigo próprio. Além de aprender, o educador, leitor e mediador, ensina quem sabe pouco e quem sabe muito. Sabendo pouco ou muito, sempre há espaço para aprender com alguém por perto. Quem ainda não percebeu essa condição da vida, precisa pensar sobre isso. Rapidamente. Quem acha que sabe tudo, sabe pouco. Quem acha que sabe pouco, está pronto para aprender muito. E vai descobrindo, aprendendo, prestando atenção, ensinando, tomando cuidado. De repente pensa que está aprendendo, mas está mesmo é ensinando. E quando pensa que está ensinando, ah! está mesmo é aprendendo.
Aprender e ensinar. Ser leitor e mediador ao mesmo tempo solicita ao educador carinho pelo texto, olhar de curiosidade, persistência e paciência na acomodação constante dos novos sentidos. Solicita ouvidos atentos para a diversidade e pluralidade e demanda amorosidade na dose certa para acompanhar perguntas, dúvidas e indecisões.
Para encerrar esse dedo de prosa, fica um mote para você refletir, na esteira do pensamento pra lá de conhecido de Guimarães Rosa, que escreveu e disse, por entre sertões e veredas “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”: educador mesmo é aquele que se faz leitor e se dispõe à mediação.

* Formado em Letras e Pedagogia, trabalhou em escolas como professor e diretor. Coordenou projetos na Rede Municipal de Educação de São Paulo. Educador, escritor e leitor nas muitas horas quase sempre vagas. Fonte

04/05/2014

Profusão de estímulos - Por ROSELY SAYÃO

Aumenta o número de adultos que não consegue focar sua atenção em uma única coisa por muito tempo. São tantos os estímulos e tanta a pressão para que o entorno seja completamente desvendado que aprendemos a ver e/ou fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nós nos tornamos, à semelhança dos computadores, pessoas multitarefa, não é verdade?
Vamos tomar como exemplo uma pessoa dirigindo. Ela precisa estar atenta aos veículos que vêm atrás, ao lado e à frente, à velocidade média dos carros por onde trafega, às orientações do GPS ou de programas que sinalizam o trânsito em tempo real, às informações de alguma emissora de rádio que comenta o trânsito, ao planejamento mental feito e refeito várias vezes do trajeto que deve fazer para chegar ao seu destino, aos semáforos, faixas de pedestres etc.
Quando me vejo em tal situação, eu me lembro que dirigir, após um dia de intenso trabalho no retorno para casa, já foi uma atividade prazerosa e desestressante.
O uso da internet ajudou a transformar nossa maneira de olhar para o mundo. Não mais observamos os detalhes, por causa de nossa ganância em relação a novas e diferentes informações. Quantas vezes sentei em frente ao computador para buscar textos sobre um tema e, de repente, me dei conta de que estava em temas que em nada se relacionavam com meu tema primeiro.
Aliás, a leitura também sofreu transformações pelo nosso costume de ler na internet. Sofremos de uma tentação permanente de pular palavras e frases inteiras, apenas para irmos direto ao ponto. O problema é que alguns textos exigem a leitura atenta de palavra por palavra, de frase por frase, para que faça sentido. Aliás, não é a combinação e a sucessão das palavras que dá sentido e beleza a um texto?
Se está difícil para nós, adultos, focar nossa atenção, imagine, caro leitor, para as crianças. Elas já nasceram neste mundo de profusão de estímulos de todos os tipos; elas são exigidas, desde o início da vida, a dar conta de várias coisas ao mesmo tempo; elas são estimuladas com diferentes objetos, sons, imagens etc.
Aí, um belo dia elas vão para a escola. Professores e pais, a partir de então, querem que as crianças prestem atenção em uma única coisa por muito tempo. E quando elas não conseguem, reclamamos, levamos ao médico, arriscamos hipóteses de que sejam portadoras de síndromes que exigem tratamento etc.
A maioria dessas crianças sabe focar sua atenção, sim. Elas já sabem usar programas complexos em seus aparelhos eletrônicos, brincam com jogos desafiantes que exigem atenção constante aos detalhes e, se deixarmos, passam horas em uma única atividade de que gostam.
Mas, nos estudos, queremos que elas prestem atenção no que é preciso, e não no que gostam. E isso, caro leitor, exige a árdua aprendizagem da autodisciplina. Que leva tempo, é bom lembrar.
As crianças precisam de nós, pais e professores, para começar a aprender isso. Aliás, boa parte desse trabalho é nosso, e não delas.
Não basta mandarmos que elas prestem atenção: isso de nada as ajuda. O que pode ajudar, por exemplo, é analisarmos o contexto em que estão quando precisam focar a atenção e organizá-lo para que seja favorável a tal exigência. E é preciso lembrar que não se pode esperar toda a atenção delas por muito tempo: o ensino desse quesito no mundo de hoje é um processo lento e gradual. Fonte

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Eros e Psique * Por Fernando Pessoa

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera 
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro 
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.

* Extraído de: Obra poética, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1986

Finá de ato *

Adispôs de tanto amor
De tanto cheiro cheiroso
De tanto beijo gostoso, nós briguemos
Foi uma briga fatá; eu disse: cabou-se!
Ele, disse; cabou-se!
E nós dois fiquemos mudo, sem vontade de falá.
Xinguemos, sim, nós se xinguemos

Como se pode axingá:

— Ô, mandinga de sapo seco!
— Ô baba de cururu!
— Tu fica no Norte
Que eu vô pru sul

Não quero te ver nem pintado de carvão
Lá no fundo do quintá
E se eu contigo sonhar
Acordo e rezo o Creio em Deus Pai
Pru modi não me assombrá.
É… o Brasil é muito grande
Bem pode nos separar!

Eu engoli um salucio
Ele, engoliu bem uns quatro.
Larguemo o pé pelo mato
Passou-se tantos tempo
Que nem é bom rescordar…

Onti, nós si encotremus
Nenhum tentou disfaçá
Eu parti pra riba dele
Cum um fogo aceso nu oiá
Que se num fosse um cabra de osso
Tava aqui dois pedaço.

Foi tanto cheiro cheiroso…
Foi tanto beijo gostoso…
Antonce nós si alembremos
O Brasil… é tão pequeno
Nem pode nos separá!

Texto original de autor desconhecido. Adaptação de Gertrudes da Silva Jimenez Vargas

03/05/2014

Pedido de adoção

“Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
- não fosse tão pecadora.

Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.

Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.”

Resumo - Por Adélia Prado

Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.

02/05/2014

“Autistando” de Sheilla Abbud Vieira

"Temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a sermos diferentes, quando a igualdade nos descaracteriza." Boaventura de Souza Santos
Somos todos autistas, a gradação está nos rótulos
Quando me recuso a ter um autista em minha classe, em minha escola, alegando não estar preparado para isso, estou sendo resistente à mudança de rotina
Quando digo a meu aluno que responda a minha pergunta como quero e no tempo que determino, estou sendo agressivo
Quando espero que outra pessoa de minha equipe de trabalho faça uma tarefa que pode ser feita por mim, estou a usando como ferramenta
Quando, numa conversa, me desligo, "viajo", estou olhando em foco desviante, estou tendo audição seletiva
Quando preciso desenvolver qualquer atividade da qual não sei exatamente o que esperam ou como fazer, posso me mostrar inquieto, ansioso e até hiperativo
Quando fico sacudindo meu pé, enrolando meu cabelo com o dedo, mordendo a caneta ou coisa parecida, estou tendo movimentos estereotipados
Quando me recuso a participar de eventos, a dividir minhas experiências, a compartilhar conhecimentos, estou tendo atitudes isoladas e distantes
Quando nos momentos de raiva e frustração, soco o travesseiro, jogo objetos na parede ou quebro meus bibelôs, estou sendo agressivo e destrutivo
Quando atravesso a rua fora da faixa de pedestres, me excedo em comidas e bebidas, corro atrás de ladrões, estou demonstrando não ter medo de perigos reais
Quando evito abraçar conhecidos, apertar a mão de desconhecidos, acariciar pessoas queridas, estou tendo comportamento indiferente
Quando dirijo com os vidros fechados e canto alto, exibo meus tiques nervosos, rio ao ver alguém cair, estou tendo risos e movimentos não apropriados.
Somos todos autistas. Uns mais, outros menos. O que difere é que em uns (os não rotulados), sobram malícia, jogo de cintura, hipocrisias e em outros (os rotulados) sobram autenticidade, ingenuidade e vontade de permanecer assim. 
Scheilla Abbud Vieira - Grupo Educação e Autismo
Os trechos em negritos são alguns dos principais sintomas da Síndrome do Autismo. Fonte