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26/02/2014

TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI

"Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali".
(autor desconhecido - compartilhado por Elodia Roman)

24/02/2014

Aprender - Por José Moran

Aprender não é simples, nem igual e há muitos obstáculos e caminhos
Hoje temos inúmeras possibilidades de aprender, se queremos aprender. Quem deseja conhecer algum assunto sobre qualquer área, encontra inúmeros materiais impressos, digitais, vídeos, cursos gratuitos, pagos e comunidades.
Cada um pode escolher o método que mais se adapta à sua personalidade: aprender sozinho, aprender com colegas, aprender com alguém mais experiente; aprender lendo, vendo, ouvindo, fazendo, debatendo; aprender estando física e virtualmente com outros ou não; aprender de forma mais intencional ou livre, mais formal ou informal, mais imediata ou mediata. No entanto, por que tantos não aproveitam essas maravilhosas oportunidades de aprender?
É possível aprender com tudo, com o espetacular e o trivial, com as realizações e com os fracassos. As mesmas informações e experiências que para uns são estimulantes, para outros podem ser indiferentes ou prejudiciais.
Conteúdos bons, metodologias adequadas, professores competentes são importantes para que os alunos aprendam. Uns aprendem pontualmente – em um determinado tempo, curso, atividade – e depois desistem ou mudam seu foco rapidamente, enquanto outros conseguem construir um percurso mais constante, mais rico, mais complexo que os torna mais interessantes, sábios e “professores” num sentido amplo. Aprender de verdade não é só um processo cognitivo; é também um processo vivencial e emocional constante e profundo, que uns desenvolvem e aperfeiçoam com o passar dos anos, enquanto outros, por inúmeras razões, oscilam e até desistem.
Sabemos que aprender é um processo pessoal e social - aprendemos pela observação, interação, pelas experiências compartilhadas - mas nesse contexto social, cada um aprende de forma diferente. Por que uns, nos mesmos espaços, com os mesmos docentes, aprendem mais e outros menos? Reconhecendo a importância da aprendizagem social, colaborativa, há um conjunto de fatores pessoais que interferem significativamente na aprendizagem, principalmente de longo prazo. 

23/02/2014

Um mundo melhor, mais consciente e solidário.

O Movimento Gota D’ Água surgiu da necessidade de transformar indignação em ação. Queremos mostrar que o bem é um bom negócio e envolver a sociedade brasileira na discussão de grandes causas que impactam o nosso país. Utilizamos nossa experiência em comunicação para dar voz aqueles que se dedicam a estudar o impacto que as decisões de hoje terão no amanhã. Apoiamos soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum. O Gota D’Água é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas e você.
BELO MONTE
A primeira campanha do Movimento discute o planejamento energético do país, que pretende construir mais de 50 hidrelétricas na Amazônia, através da análise do projeto da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu. O braço técnico desta campanha é composto por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: "Movimento Xingu Vivo Para Sempre" e "Movimento Humanos Direitos".

08/02/2014

A Águia que (quase) virou galinha - Paráfrase do livro "A Águia e a Galinha" de Leonardo Boff

A ideia desta estória não é minha. Meu, é só o jeito de contar... É sobre uma águia que foi criada num galinheiro e foi aprendendo sobre o jeito galináceo de ser, de pensar, de ciscar a terra, de comer milho, de dormir em poleiros...

E na medida em que a águia ia aprendendo a ser galinha, ia esquecendo as poucas lembranças que lhe restavam do passado. É sempre assim: todo aprendizado exige um esquecimento... E a águia desaprendeu - o cume das montanhas, os vôos nas nuvens, o frio das alturas, a vista se perdendo no horizonte, o delicioso sentimento de liberdade...

Como não havia ninguém que lhe falasse dessas coisas e convivendo com as galinhas que cacarejavam sempre os mesmos catecismos, ela acabou por acreditar que não passava de uma galinha com alguma perturbação hormonal: tudo nela era grande demais em relação às outras galinhas; aquele bico curvo era sinal certo de acromegalia... e desejava muito que o seu cocô tivesse o mesmo cheiro do cocô das outras galinhas...

Um dia, apareceu por lá um homem que vivera nas montanhas e vira o voo orgulhoso das águias. Quando viu aquela águia presa naquele galinheiro, perguntou a ela:

- O que é que você faz aqui?

- Este é meu lugar, ela respondeu. Todo mundo sabe que galinhas vivem em galinheiros, comem milho, ciscam o chão, botam ovos e finalmente viram canja: nada se perde, utilidade total...

- Mas você não é uma galinha, ele disse. Você é uma águia.

- De jeito nenhum, retrucou ela. Águia voa alto e eu nem sequer voar sei! Pra dizer a verdade, nem quero, a altura me dá vertigens. É mais seguro ir andando, passo a passo dentro deste galinheiro...

E não houve argumento que mudasse a cabeça da águia esquecida. Até que o homem, não aguentando mais ver aquela coisa triste - uma águia transformada em galinha - agarrou a ave à força e a levou até o alto de uma montanha.

A pobre águia começou a cacarejar de terror, mas o homem não teve compaixão: jogou-a no vazio do abismo...

Foi então que o pavor, misturado às memórias que ainda moravam em seu corpo, fez as asas baterem, a princípio em pânico, mas pouco a pouco com tranquila dignidade, até se abrirem confiantes, reconhecendo aquele espaço imenso que lhe fora roubado.

E ela finalmente compreendeu que o seu nome não era galinha, mas Águia... Fonte

01/02/2014

CANÇÃO DOS HOMENS - Por Lya Luft

Rikka e Papa <3
Que quando chego do trabalho ela largue por um instante o que estiver fazendo - filho, panela ou computador - e venha me dar um beijo como os de antigamente. 

Que quando nos sentarmos à mesa para jantar ela não desfie a ladainha dos seus dissabores domésticos. 

E se for uma profissional, que divida comigo o tempo de comentarmos nosso dia.

Que se estou cansado demais para fazer amor, ela não ironize nem diga que "até que durou muito" o meu desejo ou potência.

Que quando quero fazer amor ela não se recuse demasiadas vezes, nem fique impaciente ou rígida, mas cálida como foi anos atrás.

Que não tire nosso bebê dos meus braços dizendo que homem não tem jeito pra isso, ou que não sei segurar a cabecinha dele, mas me ensine docemente se eu não souber.

Que ela nunca se interponha entre mim e as crianças, mas sirva de ponte entre nós quando me distancio ou me distraio demais.

Que ela não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo, nem comente nossas intimidades com as amigas, como tantas mulheres fazem.

Que quando conto uma piada para ela ou na frente de outros, ela não faça um gesto de enfado dizendo "Essa você já me contou umas mil vezes".

Que ela consiga perceber quando estou preocupado com trabalho, e seja calmamente carinhosa, sem me pressionar para relatar tudo, nem suspeitar de que já não gosto dela.

Que quando preciso ficar um pouco quieto ela não insista o tempo todo para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse falta de amor.

Que quando estou com pouco dinheiro ela não me acuse de ter desperdiçado com bobagens em lugar de prover minha família.

Que quando eu saio para o trabalho de manhã ela se despeça com alegria, sabendo que mesmo de longe eu continuo pensando nela. 

Que quando estou trabalhando ela não telefone a toda hora para cobrar alguma coisa que esqueci de fazer ou não tive tempo. 

Que não se insinue com minha secretária ou colega para descobrir se tenho amante.

Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza e de ternura, me desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz.

Que cuide um pouco de mim como minha mulher, mas não como se eu fosse uma criança tola e ela a mãe, a mãe onipotente, que não me transforme em filho.

Que mesmo com o tempo, os trabalhos, os sofrimentos e o peso do cotidiano, ela não perca o jeito terno e divertido que tanto me encantou quando a vi pela primeira vez.

Que eu não sinta que me tornei desinteressante ou banal para ela, como se só os filhos e as vizinhas merecessem sua atenção e alegria.

E que se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais, ou a machuco consciente ou inconscientemente, 

Ela saiba me chamar de volta com aquela ternura que só nela eu descobri, e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse e me tornasse mais feliz, menos solitário, e muito mais humano.