Licensa

31/12/2013

Leon Tolstoi

Nascido numa família nobre, em Yasnaia Poliana, na Rússia, em 9 de setembro de 1828, Leon Tolstoi ficou órfão aos nove anos e foi educado por preceptores.
Em 1843, iniciou o curso de letras e direito na Universidade de Kazan. Depois de formado, passou um período em Moscou e logo se alistou na guarnição do Cáucaso, seguindo seu irmão Nicolenka, oficial do exército russo.
No Cáucaso, escreveu o livro "Infância" e a primeira parte de "Memórias". "Infância" foi publicado em 1852 e alcançou grande êxito. Depois de nomeado suboficial, em 1854, Tolstoi voltou brevemente a sua terra natal, mas retornou à vida militar, participando da Guerra da Criméia.
Em 1856, abandonada a carreira militar, Leon Tolstoi passou a viver em sociedade, ampliando suas relações pessoais. Viajou à Europa, visitando diversos países. Ao regressar, isolou-se em sua propriedade rural, determinado a dedicar-se à literatura. Casou-se nesse período com Sofia Bers, com quem teve 13 filhos, dos quais apenas 10 sobreviveram.
Em 1865, iniciou a elaboração de "Guerra e Paz", uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Trata-se de um extenso romance que aborda as guerras napoleônicas e traça um quadro da sociedade russa do século 19.
Em fins da década de 1870, Leon Tolstoi escreveu o romance psicológico "Ana Karenina", que também obteve grande repercussão. Aos poucos suas inclinações voltaram-se para a religião. Leon Tolstoi tornou-se pouco a pouco um cristão evangélico, uma espécie de apóstolo, pregando para os seus. Ao renegar a religião ortodoxa, acabou excomungado pela Igreja.
Suas posições políticas também se radicalizaram, tendendo ao anarquismo. Tolstoi criou uma escola alternativa, para a qual chegou a redigir os livros didáticos.
Suas convicções cada vez mais exaltadas atraíam a atenção de místicos do mundo inteiro. Ao mesmo tempo, ampliava-se sua fama de grande romancista.
Distanciando-se cada vez mais de sua família, Tolstoi decidiu entrar para um mosteiro. Planejou a fuga e, no dia 31 de outubro de 1910, finalmente embarcou num trem, acompanhado apenas da filha Alexandra e de um criado. Com a saúde abalada, foi obrigado a descer na cidadezinha de Astapovo, sendo acolhido pelo próprio agente da estação.
O fato tornou-se público e telegramas e visitas começaram a chegar de toda a Rússia e de outras partes da Europa. Leon Tolstoi resistiu apenas alguns dias, falecendo pouco depois, em 20 de novembro de 1910, em Astapovo. Fonte
Poema da gare de Astapovo
O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos 
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Mário Quintana

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O mais triste de um passarinho engaiolado é que ele se sente bem.

Cartão de Natal - João Cabral de Melo Neto

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de voo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

30/12/2013

REINAUGURAÇÃO

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmistificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nessa idade - velho ou moço - pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade. Fonte
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

19/12/2013

Sou ..........como sou ....FELIZ

“Posso ter defeitos, viver
Ansioso e ficar irritado algumas
Vezes, mas não me esqueço
De que a minha vida é a maior
Empresa do mundo, e posso
Evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale
A pena viver apesar de todos
Os desafios, incompreensões e
Períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima
Dos problemas e tornar-se num
Autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si,
Mas ser capaz de encontrar um
Oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada
Manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos
Próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um
“Não”.
É ter segurança para receber
Uma crítica,
Mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo-as todas, um dia vou
Construir um castelo...”
Autor desconhecido
 

17/12/2013

ORAÇÃO DA RECONCILIAÇÃO - Por Paulo Roberto Gaefke

Resultados da Pesquisa de imagens do Google para http://27.media.tumblr.com/tumblr_lho797URy01qgczzko1_500.jpg
Senhor,
nesse mundo conturbado onde as pessoas
se olham, mas não se vêem,
se cumprimentam, mas não se reparam,
se falam, mas não se entendem,
convivem, mas não vivem,
se aproximam, mas não se envolvem,
onde os direitos não são respeitados,
e os deveres são esquecidos,

eu venho humildemente lhe pedir,
que abençoe este dia que começa,
com o seu amor incondicional,
que eu possa receber esse amor,
em forma de perdão,
e que esse perdão, eu possa levar
onde a luz ainda não chegou.

Senhor,
atende ainda a minha aflição,
eu preciso de uma Graça urgente,
nesse caso que relato com esperança,
na certeza de que seus anjos virão,
e através da Tua misericórdia infinita,
eu vou conseguir alcançar, essa Graça que preciso:
*(fale da sua necessidade mais urgente)

Agradeço-te Senhor por estar aqui,
pela proteção que não vejo, mas sei que estás aqui,
e confio no Teu infinito amor e espero confiante.
Amém
Bon dia!

ORAÇÃO AO DORMIR - Por Paulo Roberto Gaefke

Pedro Cassiano,
Senhor, neste dia que se finda, eu não sei o que me aguarda,
nem imagino se terei um novo amanhã,
Não tenho a menor ideia de que provas o Senhor me reservou para os meus dias,
se terei saúde, se terei paz,
penso se não me faltará uma companhia carinhosa,
temo não ver de novo a luz do sol,
temo o desemprego,
a falta do alimento,
o vestuário.

Não sei Senhor, quais as dores que me visitarão,
quantos irão me trair,
quantos me deixarão sem ao menos dizer adeus.
Quantos amores viverei?
Quantas decepções terei?
Não sei Senhor, o que me reserva os dias,
eu só sei que jamais receberei uma prova que eu não possa suportar,
que por maior que seja o problema, não me faltaram recursos para superá-lo.

Tenho certeza Senhor, que anjos dirigidos por tua vontade,
tomarão conta da minha vida,
e se eu tiver paciência e humildade,
poderei escutá-los e entender o porquê das minhas dores,
angústias e desilusões.

Eu só tenho uma certeza meu Deus,
que me amas,
que me sondas,
que me diriges,
e que um dia,
por mais distante que seja,
eu o contemplarei e poderei dizer que fui feliz,
por entender que vivi todas as situações de maneira natural.
Chorei, sim, mas quantas vezes eu sorri?
Tive desilusões, sim, mas quantos amores eu vivi intensamente?
Tive dores, sim, mas quantos passeios ao sol eu fiz?
Perdi, sim, mas quantas vezes eu ganhei?
Amei, sim, amei muito,
e foi por tudo isso que aprendi a valorizar a minha vida.
Obrigado Senhor!
Eu acredito em você, sempre!

Fernando Pessoa

Escreveu Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
Travessias são sempre difíceis e revestidas de peculiaridades. Por isso há os ritos de passagem. Seja para celebrar com um bom choro a saída do útero materno para a vida, para tolerar os primeiros dias de um luto com cerimônias religiosas e presença da família e amigos, as festas de saída da adolescência para a vida adulta, a celebração do casamento, o trote na universidade...
Essas são as travessias mais visíveis e que tomam formas diferentes dependendo das culturas. Sempre existiram no decorrer dos séculos.
Mas existem outras. As que estão acontecendo nos costumes, nas regras de comportamento, nas leis que se aprimoram para acompanhar as mudanças das novas exigências, nas aspirações dos povos, nos sistemas de governo que conhecemos e no direito pleno de cidadania. Agora, com a rapidez desencadeada pela modernidade da comunicação digital globalizada.
Influencia para o bem ou para o mal, com todas as notícias ou reflexões que mal temos tempo de digerir. Mas a mente vai se acostumando com as pérolas e o lixo, e o trator da vida segue seu caminho.
São interessantes as contradições que brotam desses processos. Não se chega à outra margem do rio sem respingos. Há risco de afogamento. O difícil é fazer o percurso, mas, se vislumbrada a chegada, não há força que segure a mudança e o crescimento.
Temos visto isso na exigência de transparência nos governos, na busca da ética nos políticos, no respeito, na tolerância, na sustentabilidade para o nosso planeta, no direito de os seres humanos se unirem de acordo com seus desejos, nas famílias se constituírem por amor. E com todas as contradições de interesses e crenças caminhando em luta feroz. Entretanto o avanço para um processo civilizatório com mais justiça e dignidade para todos é inexorável. Assim caminha a humanidade.
Os movimentos de massa, que chegam na outra margem, começam com pessoas que percebem o novo, algumas que se inquietam, outras que não se conformam, com os milhares que sonham e que são visionários e com os poucos que captam o futuro e lançam fagulhas que, de tão fortes, incendeiam milhares de mentes e suscitam ações. Pessoas que fizeram suas travessias. Outras que pegam carona.
As certezas e os sonhos a serem descartados são o mais difícil na travessia. A isto se refere Fernando Pessoa em poucas linhas. Largar as roupas que nos levam aos mesmos lugares.
MARTA SUPLICY escreve aos sábados nesta coluna.

Ondjaki - Jogo de Ideias (2010)

O jovem escritor angolano Ondjaki, autor de "Bom dia camaradas", "Os da minha rua", "O assobiador" e o infantil "Ynari", entre outros, traduzidos em diversos países, inclusive aqui no Brasil, lê um trecho de seu livro "Quantas madrugadas tem a noite" e fala sobre a dificuldade que teve para escrever essa obra. Fala também de sua experiência de vida em vários países; sobre a importância da língua portuguesa e do seu olhar sobre a guerra civil, em Angola.
Entrevista ao jornalista Claudiney Ferreira, no programa Jogo de Ideias, gravado durante a 6ª edição do Fórum das Letras de Ouro Preto, em novembro de 2010.

Ondjaki – Ser Ser

seja ruído
seja beijo
seja voo
seja andorinha
seja lago
seja pacatez de árvore
seja mármore de elefante
seja alma de gaivota
seja luz num olhar
seja um cardume de tardes
e grite: JÁ SOU

Ondjaki (Luanda, 1977)
Poeta, contista, artista plástico.

15/12/2013

DOM

Tumblr
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.
(Helena Kolody, in Poesia Mínima, 1986)

Resposta a Clarice Lispector - Por Renata Whitaker Horschutz

Clarice Lispector
A crônica “Pertencer”, de Clarice Lispector, retirada da obra “A descoberta do mundo”, (p. 110), foi publicada primeiramente no Jornal do Brasil, no dia 15 de junho de 1968. Ao lê-la, senti um impulso de dar-lhe uma resposta, o que me motivou a escrever este texto. 
Clarice não gostava de falar de sua vida íntima, fugia das perguntas, que a faziam sentir grande desconforto, inventando fatos e datas. Seu maior legado autobiográfico encontra-se nas crônicas que escreveu para o Jornal do Brasil, de 1967 a 1973. 
Estas crônicas estão publicadas nos livros “A descoberta do mundo” (1984) e “Aprendendo a viver” (2004). Suas publicações, que muitas vezes não passavam de uma frase, geravam muitas reações no público leitor. 
Primeiramente, lerei a crônica, que é breve, para que os ouvintes possam ser envolvidos pela autora, e em seguida discorrerei sobre o que significa para um ser humano pertencer a algo, ou a alguém, e abordarei as consequências do sentimento de não pertença
A maneira como Clarice aborda este arquétipo toca-nos e faz-nos refletir muito sobre a vida do ser humano e nossa clínica. Ela consegue colocar de forma tão poética o viver humano, traduzindo em palavras aquilo que pensamos ser indizível. 
Pela clareza com que ela nos revela o sofrimento de desamparo de não se sentir pertencente ao mundo, tocou e desassossegou tão profundamente minha alma, que resolvi dar-lhe uma resposta, buscando uma solução que possibilite ao indivíduo sair desta experiência originária de desamparo, podendo assim descobrir uma maneira de dar significado a sua existência. 
Inspiration... I recommend her books to anyone who is willing to get lost in between the lines.
Querida Clarice
Suas palavras a respeito do que significa para um ser humano pertencer a algo ou a alguém tocaram-me profundamente. O modo como você aborda o arquétipo e consegue colocar de forma tão poética o viver humano traduz em palavras aquilo que pensamos ser indizível. Ao partilhar conosco suas palavras, você nos tira da solidão e da angústia. 
É incrível a clareza com que você nos revela o mundo que muitas vezes nos aprisiona, sem que consigamos enxergar uma saída. Você nos faz sentir a frustração do totalmente pensado, do consciente, e refletir sobre fatos que continuam a existir em nossa sociedade, dita evoluída
Para citar um pouco da história sobre o abandono, sabemos que na Grécia antiga meninas, ou crianças com deficiência eram mortas ou abandonadas ao nascerem. Da mesma forma, na Roma antiga, ao nascer uma criança a decisão de ficar com ela ou não cabia ao pai que, caso não a quisesse, * poderia rejeitá-la, colocando-a na rua ou no lixo. 
Apesar de estas histórias nos chocarem, hoje em dia ainda muitas crianças são abandonadas, desprezadas e expostas a seu próprio destino. Muitas vezes a rejeição e o abandono são feitos de maneira tão sutil que quase passam despercebidos, porém somente da consciência. 
Em nossos consultórios de psicologia ouvimos muitas dessas histórias, e o mais grave disso é que muitas pessoas nos procuram com sintomas diversos, como angústia, depressão, ansiedade, pessoas que se sentem deserdadas pela vida, investindo sua energia no trabalho, ou em relacionamentos, sem qualquer resultado. Muitas delas nem sequer têm a percepção de terem sido rejeitadas quando pequenas, ou ainda no ventre materno. 
Embora o nascimento de uma criança seja comemorado, por vezes internamente é sentido pela família como algo não planejado, não aceito, e aquele filho não é amado. 
Desde cedo aquela criança já se sente não pertencente a nada ou a ninguém. Nasceu e ficou simplesmente nascida, como diz Clarice, não recebeu a marca do pertencer e, por este motivo, sente-se como que deserdada pela vida. Quando lhe surge uma oportunidade de pertencer, simplesmente não consegue, não por não o desejar, mas por incapacidade, chegando à triste conclusão de que a responsabilidade é toda sua
A pessoa que foi “abandonada” lá no início de sua vida muitas vezes desconhece o que ocorreu, simplesmente experimenta que nada em sua vida dá certo, tem medo de amar e ser rejeitada, pode até entrar em um processo de autodestruição, emaranhando-se na não pertença. 
Porém, precisamos ser criativos e buscar a ação que possibilita o acontecer e o aparecimento do singular de si mesmo, ou seja, a saída desta experiência originária de desamparo, por não se ter recebido a marca do pertencer. 
Sem qualquer pretensão, consegui divisar três possibilidades, embora apenas uma me pareça realmente eficaz. 
A primeira consiste em envergar uma máscara, condição que reduz o ser humano ao aprisionamento pelos códigos sociais, o que marca a ausência de uma presença, uma perda de alma, uma experiência de um vazio existencial profundo, onde só se é para fora. Ainda que o indivíduo marcado pela não pertença tente mostrar para si mesmo e para os outros sua capacidade, muitas vezes consome-se por não receber o que esperava em troca, podendo até chegar a adoecer. Outros, para se sentirem enxergados, arruínam tudo, fazem coisas erradas, autodestrutivas, jogam boas oportunidades de vida fora. 
A segunda reduz o indivíduo a um organismo biológico, privando-o da transcendência, uma negação do potencial criativo inerente a qualquer ser humano. É viver por viver, nascer e tornar-se simplesmente nascido. 
A última possibilidade que vislumbrei está em alcançar o registro simbólico da experiência vivida, tanto para que significados sejam adquiridos, como também para que um processo de transformação ocorra e o indivíduo possa, assim, realmente ser, ou seja, estar no mundo e além dele, podendo integrar sua condição de instabilidade frente ao outro através de uma presença que não pode ser reduzida pelo desejo ou vontade do outro. 
Cada ser humano está, como diz Clarice, singularizado por uma pergunta, presente desde seu berço. Ela se esboça desde os primeiros movimentos da criança, no gesto que faz em direção ao outro, nos sentidos que se abrem O modo como tal questão é encontrada pelo indivíduo confere-lhe determinado papel ou lugar na vida familiar. As famílias organizam-se ao redor de mitos e estes são constituídos através das gerações, o que marca a história familiar. 
O bebê estrutura-se nesse campo. Ele é portador das questões enraizadas na organização mítica que caracteriza sua família e que irá se estender à sociedade, * acabando por se relacionar às grandes questões de toda a humanidade. Portanto, Você, Clarice, não está só. 
Quem sabe este sentimento de não pertencer é um mito familiar que precisa ser transformado. Justamente aí pode estar sua ação criativa: promover uma ruptura com esse mito, ser singular entre os outros, tornar-se de fato um indivíduo indivisível. 
O sentimento de não pertencer, como já disse, pode ocorrer dentro da própria família, quando alguém se sente estranho no meio familiar, a despeito, muitas vezes, de aparente acolhimento. Internamente, o indivíduo sente-se vítima de intrusão, não se vendo como parte daquele núcleo. Um recém-nascido não acolhido é exposto, deixado literalmente “ao Deus dará”, sendo assumido e marcado pela divindade, motivo pelo qual tal pessoa jamais conseguirá pertencer a algo ou a alguém.
Ao se ligar à transcendência, a pessoa deixa de flutuar no vazio e passa a sentir o Mistério que há em sua vida, pois os que são abandonados por seus semelhantes são acolhidos por Deus, portanto verdadeiramente livres, não podendo pertencer especificamente a ninguém, mas à humanidade, o que os torna uma dádiva para quem deles se aproxima. 
Vemos isto na alquimia e na religiosidade, onde do lixo são retirados os maiores tesouros, conforme, por exemplo, o Salmo 113: “Ergue da poeira o fraco e tira do lixo o indigente e os torna governantes”. 
Algumas pessoas, porém, não se conscientizam do abandono que sofreram e vivem emaranhadas no sentimento de não pertença, assumindo um comportamento destrutivo em relação a si mesmas e ao mundo. Outras, contudo, após um profundo mergulho interno e a provação de atravessar períodos de muita dor, conscientizam-se de que pertencem a algo maior, tendo a percepção de que o sentimento de não pertença se transforma em um forte sentimento de liberdade, de generosidade e de amor para todos.
Alguns, ao sentirem essas pessoas como especiais e ao verem seus esforços, podem percebê-las como seres heroicos, mas na verdade elas possuem o Sagrado dentro de si, pertencem a Deus. Ao falar de Deus não estou me referindo a nenhuma tradição religiosa, mas a algo ainda maior, a um Mistério que nos transcende. Por isso muitas vezes estas pessoas sentem-se destoando das que as circundam. 
Clarice, concluo então que você, ao pertencer à literatura, encontrou sua experiência pessoal, a sua maneira de colocar-se no mundo e de significar sua existência, e não só pertence a alguém, mas a toda humanidade. 
Ao buscar a hospitalidade de alguém para se sentir existente, algo de que todo ser humano necessita, você não poderia encontrar isto em sua família, pois sua alma é muito maior. 
Querida Clarice, em cada um de nós existem os que nos constituíram, o que nos torna portadores de toda humanidade. Portanto, suas palavras deixaram-nos um belo legado, ao nos retirar da solidão e nos ajudar a refletir, a tomar consciência de muitas coisas sobre a vida. Você contribui para a ampliação do quadro de referências de todos os seus leitores, pois ao ler a sua obra nos sentimos preenchidos, tocados e, conjuntamente, por você somos elevados à transcendência. 
Com carinho, 
Renata. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
LISPECTOR, C. , A descoberta do mundo, Ed. Rocco, RJ, 1999. SAFRA, G. 
Autora: Renata Whitaker Horschutz - Psicóloga; analista Junguiana; membro da AJB (Associação Junguiana do Brasil); membro do IJUSP (Instituto Junguiano de São Paulo), membro da IAAP (International Association for Analytical Psychology), membro da ISST (Intenational Society for Sandplay Therapy), especialista em atendimento infantil.

Pertencer - Por Clarice Lispector

Clarice
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. 
É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. 
Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho! Fonte
Clarice Lispector | via Facebook

Arthur e o Infinito - Um Olhar Sobre o Autismo




Confira o trailer do filme:

Arthur e o Infinito conta a história de uma família e seus conflitos, ao ter o filho mais novo, Arthur, de seis anos, diagnosticado como autista. Marina, sua mãe, assume a responsabilidade de dedicar todo o seu tempo para o filho e buscar caminhos para compreender melhor seu mundo, mostrando a realidade das emoções e sentimentos da família.

14/12/2013

Orgulho de pertencer a uma etnia deve ser construído na garotada


Entrevista com Júlio Emílio Braz, autor de 'Uma Pequena Lição de Liberdade'. Fonte

SINOPSE
O autor, Júlio Emílio Braz, vencedor de prêmios nacionais e internacionais de literatura, traz em Uma pequena lição de liberdade a história da escravidão no Brasil e a luta da resistência negra nos quilombos. O livro é uma aula de história e um ótimo subsídio a professores que desejam trabalhar o tema da consciência negra.

10/12/2013

TRECHO DO FILME "INVICTUS"

"E eu agradeço a Deus, por minha alma inconquistada, sou mestre do meu destino, capitão da minha alma." Mandela, recitando o poema que dá nome ao filme.
Depois de ver o filme, a maioria deve pensar que a escolha do diretor Clint Eastwood para este filme é no mínimo inusitada. Acostumado a contar histórias de vingança, aqui ele conta uma história de superação através do esporte que ajudou a unir uma nação. Mandela, mesmo depois de sair da prisão, não tem esse instinto de vingança. Diferente de muitas pessoas que trabalham para ele.
A história começa logo depois da eleição de Mandela. O país se encontra totalmente dividido entre negros e brancos. Se antes os negros não estavam satisfeitos com a presidência, agora são os brancos que não estão satisfeitos. Um treinador de rúgbi declara a seus atletas, todos brancos, que o país está largado aos cães enquanto do outro lado da rua, num campo de terra batido, a outra parte da população comemora a eleição de "um deles".
Caminhando na rua, Mandela lê no jornal acima de uma foto dele: "Ele pode vencer uma eleição, mas poderá governar um país?". "Uma pergunta pertinente.", ele diz. Mandela deve governar um país cuja uma parte da população não o quer lá. Essa é a sua principal preocupação, não por conta da sua imagem ou de sua popularidade, mas porque aquilo mostra a desunião de seu país. Antes de tudo ele quer uma única nação.
Para isso ele conta com a ajuda do capitão do time, Pienaar, que serve como intermediador entre os desejos de seus comandados e do presidente. Mandela chega a entregar para o capitão, um poema chamado Invictus, que o ajudou a enfrentar todos os anos que passou na prisão. Então a África do Sul passa de um time desacreditado que chegou a final do campeonato mundial para disputar contra um time tido como muito superior.
Claro que no final, o filme fica entregue aos jogos, o que é uma pena. Quer dizer, estamos falando de um personagem praticamente mítico, que é Mandela. Praticamente um santo. Passou 27 anos na prisão e saiu para liderar o país que o aprisionou. O que ele faz? Lidera o país com uma igualdade que chega a assustar. Realmente, Morgan Freeman era o homem certo para esse papel. Ele transmite uma paz e tranquilidade que saem da tela.
Esse é o único porém do filme. Estamos diante de uma situação que podia ser o suicídio político desse homem maravilhoso, e temos que aguentar um jogo desinteressante. Preferia mais Mandela e menos rúgbi, mas ainda assim é um bom filme de assistir. Fonte
O filme Invictus retrata o momento pós-Apartheid na África do Sul. Tudo acontece quando Nelson Mandela (Morgan Freeman) é libertado da prisão onde estava. Após sua saída, Mandela se candidata a presidente. Com sua vitória, muitas pessoas brancas, que trabalhavam para o antigo governo, vêem seus cargos ameaçados pelo fato de o novo presidente ser negro; pensando em uma possível vingança. Logo que Mandela entra e vê que todos estão arrumando suas coisas para deixar seu trabalho, ele dá um discurso, mostrando que em seu governo não iria ter nenhum tipo de diferença racial, e que não perderiam seus cargos.
Mesmo já tendo-se por encerrado o Apartheid, ainda restavam muitas marcas da segregação no país. Muitos brancos estavam revoltados com o fim da separação, e não aceitavam conviver de forma pacífica com os negros. Frente a isto Mandela procura formas de unificar a nação, e encontra essa chance no esporte, o Rúgby.
O time de rúgby da África do sul, era um dos piores do mundo, e todos os negros torciam contra ele, independentemente contra quem ele fosse jogar, principalmente o presidente Mandela quando estava preso. O time já tinha ganhado uma "cara branca", por tal motivo os negros torcia por ele. Um claro exemplo disso ocorre quando uma igreja, doando roupas para crianças carentes, uma delas nega quando recebe uma blusa do time nacional de rúgby, com medo de sofrer represália por estar vestindo o símbolo do Apartheid.
Visando quebrar um dos principais símbolos da segregação, Mandela convoca o capitão do time, e dá a ele motivação e incentivo, e o orienta para que se esforce e sirva como exemplo aos outros jogadores. Visando transformar o antigo símbolo da segregação no símbolo de orgulho nacional, Mandela então começa a pensar na possível vitória do campeonato Mundial de Rúgby, que será realizado na África do Sul. Como parte dessa transformação, ele orienta que o time comece a fazer trabalhos sociais em comunidades carentes do país, carregando à frente do time o slogan "one team, one country" que significa, Um time, Uma nação, querendo trazer ao povo o orgulho pelo time, mesmo que começasse pelas crianças, que até então só adoravam jogador Chester, que também serviu como "nova cara ao time".
Com muito esforço e suor, o time nacional ganha a copa do mundo de Rúgby, e consegue unir brancos e negros, apagando antigas cicatrizes deixadas pelo Apartheid, e transforma o time no orgulho nacional. Fonte

O TEMPO E O VENTO, RESENHA E TRAILER DO FILME

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A construção do estado do Rio Grande do Sul a partir do enclave político, conhecido como a Guerra dos Farrapos, documentada pela saga literária de Érico Veríssimo, é revista pelo épico cinematográfico, O Tempo e O Vento, de Jayme Monjardim.
Com o contorno romântico do relacionamento entre a personagem Bibiana Terra (Marjorie Estiano e Fernanda Montenegro) e Rodrigo Cambará (Thiago Lacerda), 150 anos do inicio da história gaúcha são narrados no embate de republicanos da família Terra Cambará contra os federados da família Amaral.
“O Tempo e o Vento“: técnica e atuações impecáveis em uma narrativa resumida
Monjardim explora a região de Santa Fé entretecendo-a com grandes planos gerais vistos pelas belas lentes fotográficas de Afonso Beato (com quem já trabalhou com Almodóvar, Stephen Frears e o próprio Jayme Monjardim), e preenchidas com músicas magnificentes, em uma trama bastante resumida e contada de maneira mais simplória possível. É neste contexto de singela grandiosidade – entre o agrado popular e erudito – que O Tempo e O Vento se estabelece.
A transposição da literatura em imagem é personificada pelo excelente elenco, notadamente a atriz Fernanda Montenegro, em mais uma grande atuação, além de Cléo Pires, no papel de Ana Terra, embora apareça brevemente. Com a narrativa sintetizada, justamente este e outros tantos personagens interessantes acabam por sucumbir, quando se começa a se apegar a eles, a trama se segue, perdendo a identificação junto ao público.
Contudo, o compêndio não deixa escapulir os quatro símbolos cruciais da trama, bem explícitos em tela; a cruz simbolizando a defesa, o punhal o ataque, a tesoura o nascimento e a roca a passagem do tempo. Tal travessia, somada ao vento, vem e passa. Exato como no texto e filme: “Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece”.
O Tempo e O Vento - Antonio Carlos Jobim


08/12/2013

Nobel da Paz, Mandela era pai de uma pátria com sua luta pela igualdade

Street art South Africa
O repórter Renato Ribeiro, que morou na África do Sul, conta que pode perceber o que Mandela significava para os sul-africanos. Uma palavra comum em vários idiomas resume bem o espírito de Mandela. Ela pode ser traduzida como "sentir que você pertence à humanidade, que todos são seus irmãos. É tudo de bom que se pode desejar ao próximo".
Nasceu em um país em ser que negro significava estar condenado a uma vida de humilhações. Morreu como um homem livre, como um heroi que libertou e uniu seu povo.
O nome: Rolihala Mandela. A terra natal: Mvezo, uma vila na província do Cabo Oriental. Pertencia ao clã dos Madiba, forma como acabaria sendo carinhosamente chamado pelo povo.
Depois que seu pai morreu, ainda menino, se mudou com a mãe para uma vila vizinha - Qunu. Foi nessa aldeia que passou a frequentar a escola e ganhou outro nome, uma tradição da época. Os professores trocavam os nomes africanos por ingleses. Virou Nelson Mandela.
Sempre acreditou no poder transformador da educação. Foi o primeiro de sua tribo a ir para escola, e estudou Direito. A África do Sul já era independente, e governada por descendentes de britânicos e holandeses, uma minoria branca que já tentava impedir a ascensão dos negros.
Em 1948, o que era preconceito virou política de estado. Nascia um dos maiores horrores do século XX: o apartheid, a segregação racial. Os cidadãos eram registrados de acordo com a raça e casamentos mistos eram crimes. Os negros tiveram propriedades confiscadas e eram obrigados a viver em áreas determinadas. Não podiam frequentar os mesmos lugares dos brancos.
O advogado Mandela virou um dos líderes da luta contra o apartheid. Foi morar em Joanesburgo, no distrito de Soweto, o local que ficou famoso como símbolo de resistência ao regime. Acabou preso e em 1964 foi condenado a prisão perpétua.
Foi para a prisão da Ilha de Robben, na Cidade do Cabo. Era o prisioneiro 46664. Vivia em uma cela mínima e ficou 21 anos sem sequer tocar nas mãos da mulher Winnie. As visitas eram sempre com um vidro entre eles.
Em 1989, Frederik de Klerk foi eleito presidente e acelerou as mudanças. Em 11 de fevereiro de 1990, Mandela foi libertado. Deixou a prisão onde há uma estátua em sua homenagem.
Caminhou por uma pequena rua até a beira de uma estrada, onde milhares de pessoas o aguardavam. Daquele dia em diante, a África do Sul nunca mais foi a mesma.
Livre, teve dois desafios: conduzir com o governo a redação de uma nova Constituição com direitos plenos para todos e convencer os negros a não adotarem uma política de vingança contra os brancos.
Pela transição sem violência, de Klerk e Mandela dividiram o Nobel da Paz em 1993. Um ano depois, ele foi eleito o primeiro negro presidente da África do Sul. O país ganhou uma nova bandeira e um novo hino: ‘Deus Salve a África’.
Em 1995, Mandela usou o rugby, esporte preferido dos brancos, para promover a união do país. A África do Sul foi campeã do mundo em casa, e a conquista virou um símbolo da nova nação multiracial.
Ao contrário de outros líderes do continente africano, ao terminar o mandato, recusou a reeleição e se engajou na luta contra a AIDS, doença que hoje atinge um em cada dez sul-africanos e que matou um dos filhos de Mandela.
Em 2004 deixou a vida pública, mas em 2009, fez questão de participar da eleição presidencial. Apoiou Jacob Zuma e, mesmo doente, foi votar. A última aparição pública foi na final da Copa de 2010, quando foi ovacionado por 90 mil pessoas.
Em vez do revanchismo, o perdão. Em vez da perseguição, a conciliação. Nelson Mandela transformou a África do Sul. Criou a nação arco-íris, de todas as cores, de todas as raças. Virou o pai da pátria, o libertador de um povo.
Em sua autobiografia, o último parágrafo é uma mensagem aos sul-africanos: “Eu caminhei essa longa estrada para a liberdade. Mas eu descobri que depois de escalar uma grande montanha, há outras montanhas a serem vencidas. Eu descansei por um instante para apreciar a incrível vista que me cercava. Olhei para trás e vi a distância que percorri. Mas só posso descansar por um momento. Porque com a liberdade vêm outras responsabilidades. E sequer me atrevo a demorar a continuar. A minha caminhada ainda não terminou. Fonte
Ubuntu, uma lição fácil de aprender, melhor ainda de viver

Bono Vox escreve ensaio em homenagem a Nelson Mandela

The man who fought for the freedom of my country. RIP Tata Madiba
RIO — O líder do U2, Bono Vox, escreveu um ensaio em homenagem a Nelson Mandela, morto nesta quinta-feira aos 95 anos. No fim do mês passado, a banda irlandesa lançou sua primeira música em três anos, “Ordinary love”, que faz parte da cinebiografia “Mandela: Long walk to freedom”. O ensaio, intitulado “O homem que não podia chorar”, foi publicado na revista Time.
Como ativista eu basicamente tenho feito o que Nelson Mandela sugere desde a minha adolescência”, diz Bono no artigo. “Ele foi uma presença forte na minha vida desde 1979, quando o U2 fez seus primeiros esforços contra o Apartheid. E ele se tornou parte da consciência irlandesa ainda antes disso. O povo da Irlanda pode compreender com facilidade a subjugação de maiorias étnicas. Do nosso ponto de vista, a questão de quão sangrenta a África do Sul poderia se tornar na longa estrada para a liberdade não era abstrata.
Bono então relata como, ao longo dos anos, os dois se tornaram amigos e a alegria que lhe trouxe a parceria de Mandela com o bispo Desmon Tutu. Além da luta contra o Apartheid, o músico destaca também os esforços de Mandela para enfrentar a epidemia de Aids que atingia tantos países africanos.
Sem sua liderança, na última década o mundo teria aumentado o número de pessoas usando medicamentos contra a Aids para 9,7 milhões e diminuído o número de mortes de crianças em 2,7 milhões por ano? Sem Mandela, a África estaria vivendo sua melhor década em crescimento e redução de pobreza? O quanto ele foi indispensável não pode ser provado com matemática e métricas, mas eu sei no que acreditar.
O cantor e ativista termina explicando o título escolhido para o artigo.
O riso, não as lágrimas, eram o caminho preferido de Madiba — a não ser em uma ocasião na qual vi ele quase perder o ar. Foi na Robben Island, no pátio em frente à cela onde ele passou 18 de seus 27 anos de prisão. Ele estava explicando por que decidiu usar seu número de prisioneiro, 46664, para buscar uma resposta à pandemia de Aids que tomava tantas vidas africanas. Um de seus colegas de prisão me disse que o preço pago por Mandela pelo trabalho nas minas de calcário não foi a amargura nem mesmo a cegueira, causada pelo clarão do reflexo do sol dia após dia. Mandela podia ver, mas a poeira prejudicou seus olhos de modo que ele era incapaz de chorar. Com toda sua visão, não podia produzir lágrimas em momentos de dúvida ou dor. Ele passou por uma cirurgia para acertar isso em 1994. Agora, podia chorar. Hoje, nós podemos.” Fonte

07/12/2013

Procura-se um amigo... Por "Vinicius de Moraes "

Un beso tuyo en mi frente <3
Não precisa ser homem:
basta ser humano, basta ter sentimentos,
basta ter coração.
Precisa saber falar e calar,
sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia,
da madrugada, de pássaros, de cães, de sol,
da lua, do cantar da chuva e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém,
ou então sentir falta de não ter esse amor.

Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão,
nem é imprescindível que seja de segunda.
Pode ter sido enganado, pois,
todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro,
nem que seja de todo impuro,
mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e,
no caso de assim não ser,
deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas,
seu principal objetivo deve ser o de amigo.

Deve sentir pena das pessoas tristes e
compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar
dos mesmos gostos,
que se comova quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples,
de orvalhos, de grandes chuvas e
das recordações da infância.
Precisa-se de um amigo para não enlouquecer,
para contar o que se viu de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das
realizações, dos sonhos e da realidade.

Precisa-se de um amigo que diga
que vale a pena viver,
não porque a vida é bela,
mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no
passado em busca de memórias perdidas.
Que bata em nossos ombros,
sorrindo ou chorando,
mas que nos chame de amigo,
para ter-se a consciência de que ainda se vive.