Licensa

28/04/2013

Subir pelo lado que desce

Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.
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Ouvindo esta frase, imaginei qualquer pessoa nessa acrobacia que as crianças fazem ou tentam fazer: escalar aqueles degraus que nos puxam inexoravelmente para baixo. Perigo, loucura, inocência, ou uma boa metáfora do que fazemos diariamente?

Poucas vezes me deram um símbolo tão adequado para a vida, sobretudo naqueles períodos difíceis em que até pensar em sair da cama dá vontade de desistir. Tudo o que quereríamos era taparmos a cabeça e dormirmos, sem pensarmos em nada, fingindo que não estamos nem aí…

Porque Tanatos, isto é, a voz do poço e da morte, nos convoca a cada minuto para que, enfim, nos entreguemos e acomodemos. Só que acomodar-se é abrir a porta a tudo aquilo que nos faz cúmplices do negativo. Descansaremos, sim, mas tornando-nos filhos do tédio e amantes da pusilanimidade, personagens do teatro daqueles que constantemente desperdiçam os seus próprios talentos e dificultam a vida dos outros.

E o desperdício da nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo-morto.

Não que não tenhamos vontade ou motivos para desistir: corrupção, violência, drogas, doença, problemas no emprego, dramas na família, buracos na alma, solidão no casamento a que também nos acomodamos… tudo isso nos sufoca. Sobretudo, se pertencermos ao grupo cujo lema é: Pensar, nem pensar… e a vida que se lixe.

A escada rolante chama-nos para o fundo: não dou mais um passo, não luto, não me sacrifico mais. Para quê mudar, se a maior parte das pessoas nem pensa nisso e vive da mesma maneira, e da mesma maneira vai morrer?

Não vive (nem morrerá) da mesma maneira. Porque só nessa batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, podemos também saborear a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios.

Mesmo que pareça quase uma condenação, a ideia de que viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce é que nos permite sentir que afinal não somos assim tão insignificantes e tão incapazes.

Então, vamos à escada rolante: aqui e ali até conseguimos saltar degraus de dois em dois, como quando éramos crianças e muito mais livres, mais ousados e mais interessantes.

E porque não? Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos ainda uma vez… recomeçar.
Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005

O incrível poder das histórias em quadrinhos

Em parceria com Maurício de Sousa, o Educar para Crescer desenvolveu uma cartilha em quadrinhos para falar sobre a importância da Educação 
O cineasta Federico Fellini lia. O filósofo Umberto Eco é ávido consumidor e o artista plástico Roy Lichtenstein fez uso de balões com falas em algumas de suas obras. Esses artistas declararam que a leitura das histórias em quadrinhos serviu de inspiração e influenciou seus trabalhos. Há outros exemplos de personalidades que poderiam ser citadas, mas não é o propósito deste texto listar celebridades e fãs da também chamada arte sequencial. Trata-se só de uma curiosidade, já que houve um tempo em que psicólogos e educadores chegaram a afirmar que os gibis estimulavam a preguiça mental. 
"Por muitas décadas, as histórias em quadrinhos foram vistas à margem do que se entende por leitura. Uma visão equivocada porque os quadrinhos são e sempre foram leitura igualmente válida", defende Paulo Ramos, professor da Unifesp e autor de vários livros sobre quadrinhos.
De fato, hoje não há mais dúvidas sobre o valor desse tipo de narrativa. Tanto que os quadrinhos são recomendados pelos PCN e reconhecidos como uma ferramenta de alfabetização. Na visão da professora Maria Angela Barbato, da Faculdade de Educação da PUC-SP, as histórias em quadrinhos acabam sendo também um instrumento no processo de desenvolvimento da leitura e da escrita porque as crianças naturalmente gostam desse tipo de linguagem.
"Existem crianças, inclusive, que desenvolvem a leitura com os gibis", diz ela.
Outro fator que torna os quadrinhos tão atraentes para as crianças é a ligação emocional que elas costumam desenvolver com os personagens. Um exemplo da força dessa conexão está na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2008 pelo Instituto Pró-Livro, na qual Mauricio de Sousa, o pai da Turma da Mônica, aparece em décimo lugar na lista dos escritores mais admirados pelos leitores, depois de Monteiro Lobato, Jorge Amado, Machado de Assis, entre outros. 
Ainda há que se ressaltar que, para a formação de um leitor competente, capaz de usar a linguagem em diferentes contextos e situações, é preciso dar a ele acesso a variados tipos de leitura. Como explica a professora Maria José da Nóbrega, assessora da Secretaria Municipal da Educação de São Paulo, 
"cada gênero de texto desenvolve habilidades específicas, por isso é importante que a criança tenha disponível diferentes fontes de leitura, como jornal, livros, revistas e histórias em quadrinhos. A família tem um papel vital nisso".
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Oito motivos para incentivar seu filho a ler histórias em quadrinhos. Confira!

Contribuem na pré-alfabetização
A sequência de imagens dos quadrinhos permite que a criança compreenda o sentido da história antes mesmo de aprender a ler. Ao fazer isso, ela organiza o pensamento, exercita a capacidade de observação e interpretação e desenvolve a criatividade. Na fase de pré-alfabetização, o contato com os gibis também ajuda a criança a se familiarizar com as letras.

Ajudam no processo de alfabetização
A ordem lógica dos quadrinhos serve de apoio para que a criança decifre o que está escrito e supere a dificuldade de fluência, típica de quem acabou de se alfabetizar. Outro fator positivo é que a letra maiúscula usada nos balões facilita a leitura. Para quem está aprendendo a ler, letras minúsculas podem ser mais difíceis de decodificar, principalmente aquelas que têm traçados semelhantes, como q, p, d e b.

Despertam facilmente o interesse das crianças
A leitura de gibis é uma atividade lúdica para as crianças, que naturalmente se identificam com a linguagem dos quadrinhos e, muitas vezes, estabelecem uma relação afetiva com seus personagens.

Estimulam o hábito da leitura
Um bom modo de estimular um hábito é enfatizando o seu lado prazeroso. No caso dos quadrinhos, os textos rápidos associados com imagens, os elementos gráficos e a identificação com os personagens são alguns dos elementos que tornam a leitura agradável. Isso pode encorajá-las a ler textos cada vez mais complexos. Alguns pesquisadores defendem que os leitores de quadrinhos também acabam se interessando por outros gêneros de texto.

Exercitam diferentes habilidades cognitivas
A leitura de histórias em quadrinhos é um processo bastante complexo. É preciso decodificar textos, imagens, balões, onomatopeias e, muitas vezes, recursos de metalinguagem. Além disso, induz a uma habilidade chamada inferência, que é a capacidade de concluir coisas que não estão escritas. Nas HQs, por exemplo, o leitor deduz a ação que é omitida entre um quadrinho e outro. Tudo isso demanda um trabalho intelectual.

Unem cultura e entretenimento
Histórias em quadrinhos podem transmitir um leque bem amplo de informações sobre contextos históricos, sociais ou políticos e ainda assim manter sua característica de entretenimento. Só para citar alguns exemplos bem conhecidos: as aventuras de Asterix trazem divertidas referências sobre história antiga, as histórias de Tintim são ricas em indicações geográficas e as tirinhas da questionadora Mafalda fazem crítica a questões político-sociais da Argentina. Já Joe Sacco, que é quadrinista e jornalista, desenhou histórias sobre a guerra da Bósnia e os conflitos entre Israel e Palestina.

São de fácil acesso e baixo custo
Os títulos mais populares podem facilmente ser adquiridos nas bancas de jornal por um preço bem acessível. Os gibis também são encontrados em bibliotecas e gibitecas. Outra opção são as trocas, prática que costuma ser incentivada pelas escolas e prefeituras.

São recomendadas pelos PCN, RCNEI e PNBE
Algumas das razões para isso já foram descritas nos itens anteriores, mas vale ressaltar que tanto os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), como o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (RCNEI) e o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) falam sobre a importância da criança interagir com diferentes tipos de texto. Além disso, a relação entre texto e imagem está cada vez presente em diferentes gêneros e é preciso ensinar como ler a imagem também. Fonte

27/04/2013

Uma história pode mudar seu modo de ver o mundo: Karen Worcman

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Em 1981, quando ainda cursava a faculdade de História, Karen Worcman começou uma pesquisa sobre imigrantes judeus no Rio de Janeiro. Entre os personagens estava um casal que morou no Gueto de Varsóvia, participou da guerrilha polonesa e havia perdido a maioria dos parentes num campo de concentração. As mais de 100 horas de entrevista fizeram com que Karen se transportasse no tempo e conseguisse ver a história pelos olhos de seus protagonistas. Foi esse o ponto de partida para a fundação do Museu da Pessoa, um museu que tem como matéria-prima a coisa mais importante em uma sociedade: a história de todos nós. Com mais de 12 mil depoimentos, o acervo está disponível quase integralmente na internet. Entre as preciosidades, Mestre Alagoinhas, ex-guerrilheiro que sobreviveu à luta armada e fundou a maior biblioteca rural do país, assassinos, catadores de lixo, pastores, donas de casa, advogados, comerciantes e centenas de pessoas comuns que decidiram compartilhar com o mundo uma parte da alma.
Conheça o museu da Pessoa - parte 1

Como surgiu a ideia do Museu da Pessoa?
Comecei a me envolver com a história oral quando ainda estudava História, no Rio de Janeiro. Ao fazer alguns trabalhos – primeiro sobre o fotógrafo José Medeiros, depois sobre a imigração de judeus para o Rio de Janeiro –, me vinham algumas questões sobre a função social da história. Um dia, descendo a ladeira em que eu morava, me deu um estalo: deveria haver um lugar onde a alma das pessoas pudesse ser preservada, um museu da pessoa. Um museu não de coisas ou fatos, mas de histórias de gente.
Conheça o museu da pessoa - parte 2
Como a ideia se transformou no Museu?
Foi quando vim para São Paulo. No fim de 1991, trouxemos para cá a exposição sobre os imigrantes judeus, adicionando cabines de coleta de depoimentos para que os visitantes registrassem suas histórias. Os jornalistas que me entrevistavam não entendiam como uma exposição sobre a vida de anônimos poderia atrair alguém. Ou por que as pessoas se interessariam em deixar seus depoimentos. Achavam tudo muito estranho. Mas foi um sucesso. Naquele momento, o grupo de fundadores começou a pensar como o Museu da Pessoa deveria ser. Já com a ideia de que uma história pode mudar seu jeito de ver o mundo. Isso para mim é muito transformador. Transformador no sentido social, cultural, emocional. Aprender a ouvir os outros talvez seja o maior desafio que a gente – como cultura ou como indivíduo – tem a enfrentar. Fonte
Uma história pode mudar seu modo de ver o mundo

"Toda palavra" - Viviane Mosé

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Eu procuro uma palavra que me salve.
Pode ser uma palavra verbo.
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura, sem carinho.
Ou palavra muda, 
Molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei.
E reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava,
O excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita.
Não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra como um porto um mar um prado.
Um campo minado um contorno.
Carrossel cavalo pente quebrado véu.
Mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado.
Preciso daquilo que havia negado.
E mesmo tendo medo de algumas palavras
Preciso da palavra medo como preciso da palavra morte,
Que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda".

Viviane Mosé.
Publicado em 26/03/2013
Poema: "Toda Palavra". In: Receita para lavar palavra suja - poemas escolhidos em prosa e verso, Edições Arteclara, 2004, p.19 (livro esgotado).

20/04/2013

A parábola dos talentos – Rubem Alves

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Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: O mundo inteiro ainda deverá transformar-se num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade.

As suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Dava muito trabalho cuidar de todos os jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insetos, as fontes, as frutas, o perfume… Sozinho ele não daria conta Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados.

Aconteceu que ele precisou de fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, e disse-lhes: Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero que vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas… A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores espalhadas pelas rochas… E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins.

Ditas essas palavras, partiu. Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas Boanerges não era jardineiro. Mentira ao oferecer-se para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro disse: Cuidar de jardins não é comigo. É demasiado trabalho…

Trancou então o jardim com um cadeado e abandonou-o. Passados muitos dias voltou o Senhor, ansioso por ver os seus jardins. Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Hermógenes mostrou-lhe o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu.

E foi a vez de Boanerges… E não havia forma de enganar: Ah! Senhor! Preciso de confessar: não sou jardineiro. Os jardins dão-me medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das lagartas, das aranhas. As minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer na terra, essa coisa suja…

Mas o que me assusta mesmo é o fato das plantas estarem sempre a transformar-se: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim.

Se estivesse em meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra estaria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras dão-me tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguichos e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas tranquei-o com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem.

E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: Este jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar deste jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins.

E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, irá partir pedras na minha pedreira…

Rubem Alves
Gaiolas ou Asas – A arte do voo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004

Pensar é transgredir

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Não me lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demasiado fútil, nem demasiado acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos cornos, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para se reinventar é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero tornar-me ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do quotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: «Parar p’ra pensar, nem pensar!»

O problema é que, quando menos se espera, ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do centro comercial, no trânsito, em frente da televisão ou do computador. Simplesmente ao escovar os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem termos programado, paramos para pensar.

Pode ser um susto: como espreitar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão abrir-se para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, correndo de um lado para o outro, achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem somos, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado ao urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e, quem sabe, finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro, abafando os nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e das possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: «Escrever a respeito das coisas é fácil», já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada de excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer segurança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o mau. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque, se desistimos disso, apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que façamos seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005

MINHA SINFONIA...

"Viver felizes, com muito ou pouco recurso...não importa... buscar a elegância e não o luxo...o requinte em lugar da moda.
Ser valorosos, não respeitáveis...ter fartura, sem se preocupar com riqueza...
Estudar muito, pensar com discrição, falar gentilmente...
Agir com franqueza...
Ouvir estrelas e pássaros...crianças e sábios, com o coração aberto...
Aceitar tudo com alegria...agir com bravura...
Aguardar as oportunidades...nunca se apressar...
Deixar o espírito espontâneo e natural...
Crescer em meio à simplicidade...
Esta é a minha sinfonia..."

(William Henry Channing)

Os filhos Crescem

Tudo vai passar, eles vão crescer e dispensarão nosso colo.
Vai chegar a fase em que os amigos serão mais importantes que os pais.
Que nossas demonstrações de afeto em público serão consideradas “um grande mico”.
Que em vez de torcer que eles durmam, torceremos para que eles cheguem logo em casa.
Que não se interessarão mais pelos velhos brinquedos.
Que o alvoroço na hora do almoço, vai dar lugar a calmaria.
Que dirão coisas tão maduras que nosso coração irá se apertar.
Que começaremos a rezar com muito mais frequência.
Que morreremos de saudade de nossos bebes crescidos.
Por isso...
Viva o agora. Releve as birras. Conte até 10.
Faça cosquinhas, conte histórias, de abraço de urso.
Deite ao lado deles na cama.
Abrace-os quando tiverem medos.
Beije o machucado (sim, beijo de mãe cura de verdade).
Solte pipas, brinque de boneca. Faça gols, comemore.
Divirta-se, acorde cedo nos domingos para aproveitar mais o dia.
Rezem juntos.
Estimule-os a cultivar amizades.
Faça bolos. Carregue-os no colo.
Faça com que saibam o quanto são amados.
Passe o máximo do tempo possível juntos.
Assim, quando eles partirem para seus próprios vôos,
Você ainda terá tudo isso guardado no coração.

(Cinthia Moralles)

19/04/2013

Público X Privado

O professor Pedro Goergen, da Unicamp, comenta sobre uma antiga discussão humana: o público e o privado. O professor descreve rapidamente como essas duas esferas se organizam e, depois, aponta para a importância da participação consciente das pessoas na esfera pública. E uma das funções da escola é justamente formar um cidadão capaz de participar da vida pública.
Para refletir:
Participação X consciência
Como e quem forma essa consciência?
Qual é o papel da escola?

17/04/2013

Sociedade sem Escolas - Ivan Illich

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O programa relata a crítica do austríaco Ivan Illich ao papel excludente do sistema educacional feita no livro "Sociedade sem Escolas", muito influente na década de 1970.

Alguns trechos: 
"Não há movimento de verdadeira libertação que não reconheça a necessidade de adotar uma tecnologia de baixo consumo energético."

"Necessitamos de pesquisas sobre usar a tecnologia para criar instituições que sirvam à interação pessoal, criativa e autônoma."

"Todos medem seu exito pelo fracasso dos demais"

"Precisamos de uma lei que proíba toda discriminação - na contratação empregatícia, nas eleições, na admissão a centros de aprendizagem - baseada na prévia frequência a determinado curso.

"Na realidade, a aprendizagem é a atividade humana menos necessitada de manipulação por outros. Sua maior parte não é resultado da instrução. É, antes, resultado de participação aberta em situações significativas."

"Não é preciso que se lhes roube a criatividade. Sob o jugo da instrução, desaprendem a tomar suas iniciativas e ser elas mesmas. Valorizam apenas o que já foi feito ou o que lhes é permitido fazer."

"Pessoas quando pressionadas a especificar como adquiriram o que sabem e valorizam, prontamente admitem que o aprenderam, na maioria das vezes, fora e não dentro da escola."

16/04/2013

Supervisão Escolar

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Como supervisão e administração escolar se relacionam? Qual o papel do supervisor? Por que é importante sua participação na vida escolar? Qual a trajetória histórica do supervisor? O programa discute essas questões e dá voz a Carlos Monarcha, professor da UNESP, e a Helenice Maria Sbrogio Muramoto, que foi supervisora escolar no Estado de São Paulo por mais de 10 anos.
"Os educadores precisam compreender que ajudar as pessoas a se tornarem pessoas é muito mais importante do que ajudá-las a tornarem-se matemáticas, poliglotas ou coisa que o valha."
(Carl Rogers)

14/04/2013

O homem honesto

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Era uma vez um rei que queria muito encontrar um homem honesto, em quem pudesse depositar toda sua confiança para exercer um cargo importante na administração dos seus bens. Não sabia que critério adotar na escolha e resolveu pedir a colaboração de seu conselheiro real.
O conselheiro respondeu: - Reúna no salão todos os candidatos ao posto que eu lhe indicarei o homem mais honesto. Vossa majestade deverá apenas, no horário oportuno, pedir que eles dancem.
O rei estranhou a ideia, mas decidiu atender e convocou os pretendentes ao salão de audiências, passando um a um por um corredor longo e escuro. Depois da prova, novamente reunidos o rei pediu a palavra:
- Antes de mais nada, desejo ter o prazer de vê-los dançar!
- Não sei dançar - exclamou o primeiro.
- Sofro de reumatismo - disse o segundo.
- Meus pés estão inchados - retrucou o terceiro
E as desculpas se sucederam.
Apenas um homem, de aparência modesta, dispôs-se tranquilamente a fazer a vontade do rei, embora não considerasse um conhecedor na arte da dança, pôs-se a dançar.
Imediatamente o conselheiro tomou a palavra:
- Este é o homem honesto! pode escolhê-lo majestade. E explicou, mandei colocar sacolas abertas cheias de moedas de ouro, no corredor por onde esses homens tiveram de passar. Se algum desonesto enchesse o bolso de moedas, ficaria impedido de dançar, porque as moedas tilintariam nos bolsos ou cairiam no chão. os que recusaram a dançar, temeram revelar sua fraqueza e na frente do rei, os ladrões foram desmascarados. Fonte

13/04/2013

Projeto Político Pedagógico

ANTÓNIO NÓVOA Foto: Marina Piedade
"Imagine que a escola é um pote." O pedido tem sido repetido pelo educador português António Nóvoa, um dos mais respeitados nomes na área de formação de professores, em palestras ao redor do mundo. Ele mostra no telão a imagem de um recipiente em que dentro se veem itens como Matemática, Língua e História. "Porém as crianças precisam ter noções de meio ambiente, certo?", diz. "E aulas de cidadania e higiene", completa ele, inserindo, por meio de uma animação, mais conteúdo na vasilha. "Alguém precisa preveni-los também contra a aids, a violência sexual..." Quando o pote já está quase cheio, ele mesmo responde: "Tudo isso é importante, mas não deve ser responsabilidade da escola".
Qual é o principal desafio de um gestor escolar atualmente?
ANTÓNIO NÓVOA Acredito que é decidir o que é essencial ensinar aos alunos e garantir que as disciplinas elementares não sejam prejudicadas pela avalanche de conteúdos que são propostos atualmente. Hoje, a equipe docente se ocupa da Educação Ambiental, alimentar e comportamental e com programas de prevenção a aids, acidentes de trânsito e violência sexual. Todos muito importantes, mas que não são responsabilidade da escola. Ao tentar colocar tudo no mesmo pote, falta espaço para o básico. 

Como saber o que é essencial?
NÓVOA Há um pensamento notável de Olivier Reboul, filósofo francês (1925-1992). Ele diz que deve ser ensinado na escola tudo o que une e tudo o que liberta. O que une é aquilo que integra cada indivíduo num espaço de cultura, em determinada comunidade: a Língua, as Artes Plásticas, a Música, a História etc. Já o que liberta é o que promove a aquisição do conhecimento, o despertar do espírito científico, a capacidade de julgamento próprio. Estão nessa categoria a Matemática, as Ciências, a Filosofia etc. Com base nesse princípio, podemos selecionar o que é mais importante e o que é acessório na Educação das crianças.

Até que ponto o gestor pode mexer no currículo quando há uma política nacional definida pelo governo?
NÓVOA Muitas propostas de Educação complementares ao currículo não são impositivas. Cabe aos diretores de cada escola escolher o que priorizar. Tanto é assim que em vários países, embora a política educacional seja única, verifica-se um dualismo cada vez mais acentuado: as elites investem na Educação privada, cuja base estrutural é a aprendizagem, enquanto as escolas públicas estão cada vez mais centradas em dimensões sociais e assistenciais. Essa Educação feita em duas velocidades é o pior dos cenários para o nosso futuro, pois só aumenta a desigualdade de oportunidades.

O que responder aos que cobrarão o ensino de outros temas?
NÓVOA Que não se pode pretender que a sala de aula resolva todos os problemas. Muitas vezes, se ouve a pergunta: o que a escola pode dar à sociedade? Agora é tempo de inverter a questão: o que a sociedade pode dar à escola? Como a comunidade vai ajudar na missão educativa? À escola o que é da escola. À sociedade o que é da sociedade. Fonte

12/04/2013

Centro Virtual de Cultura Surda

ARARA AZUL: UM ESPAÇO DEDICADO À CULTURA E À DIVERSIDADE
O CENTRO VIRTUAL DE CULTURA SURDA tem como OBJETIVOS - ver vídeo
• Contribuir para o rompimento de bloqueios comunicativos que possam ocorrer entre pessoas surdas e pessoas ouvintes - ver vídeo
• Oferecer à comunidade surda, cada vez mais, materiais em Libras e em LP para que tenham autonomia de leitura e acessibilidade ao estudo acadêmico - ver vídeo
• Despertar nos profissionais da área da surdez o interesse pelo uso de materiais digitais bilíngues, em Libras e em LP, no exercício de suas atividades - ver vídeo
• Colaborar para a construção de uma sociedade justa e fraterna, com respeito às diversidades linguísticas - ver vídeo
Mãos que Falam - a inclusão surda (2011)

11/04/2013

Conviva com a diferença

Descrição da ilustração: As letras da palavra diferença são ilustradas a partir da diversidade entre pessoas que convivem. Veja a seguir:
A letra "d" representa uma cadeira de rodas para um jogador de basquete;
As letras "i" e "f" servem de bengala para um rapaz;
A letra "e" virou a roda dianteira de uma bicicleta;
A letra "r" é a parte de cima de uma bengala;
A outra letra "e" é formada pelo cabelo e o óculos escuro do rapaz que segura a bengala;
A letra "n" representa o cabelo de uma menina;
A letra "ç" cobre o lado direito da face de um senhor e o cedilha é a sua barba;
A letra "a" é o cabelo de uma moça que não tem o braço esquerdo. Fonte
Uma das coisas que mais incomodam o ser humano, hoje e sempre, é a presença de alguém que seja diferente.
Diferente no agir, no pensar, no se comportar, no desejar, no ostentar, neste caso física ou mentalmente.
O ostentar, no sentido de exibir aquilo de que se tem a posse, já foi e ainda é motivo de muita guerra e muita morte.
O ser diferente por opção, desejo ou orientação diversa daquela da maioria permanece como motivo de segregação, às vezes humilhação, muitas vezes violência.
O que poderia ser apenas fruto da ignorância não o é: reflete em geral uma incapacidade atávica do ser humano de conviver com alguma coisa que exponha, na verdade, o que ele considera uma fragilidade da sua espécie ou aquilo que provoca o desentendimento dentro de uma suposta ordem preestabelecida "necessária" e comumente atribuída ao desejo de algo maior, superior a todos. A Deus, por exemplo, perante o qual, aliás, nada é diferente e tudo é ou deveria ser possível, único e necessário.
Essa introdução toda é para louvar a iniciativa de um grupo de pessoas que criaram o Dia do Orgulho Autista.
São pais, amigos e parentes do portadores desse transtorno de comportamento ainda tão misterioso quanto difícil de se relacionar. Afinal, o portador é aquele indivíduo que vive num mundo só seu, em que tudo o que o cerca - objetos, situações e sobretudo pessoas - nem sequer parecem existir.
Por definição técnica, o autismo seria o "desenvolvimento acentuadamente anormal ou prejudicado na interação social e comunicação e um repertório marcantemente restrito de atividades e interesses".
O que torna seus portadores indivíduos isolados, como que vivendo num mundo à parte e indiferentes a grande parte das convenções que a eles são apresentadas - para não dizer impostas.
E é aí que o grupo do Orgulho Autista argumenta, numa página da internet: "Os defensores do Orgulho Autista acreditam que a noção de pureza racial, em termos de raça humana como um todo, permeia a ciência médica, que parece refletir uma crença de que todo cérebro humano seria idêntico. Os defensores do orgulho autista alegam que a noção de que haveria uma estrutura ideal e, por isso, desejável para o cérebro humano leva muitos praticantes da psiquiatria a assumir que qualquer desvio requer uma "cura" para conformar à norma neurotípica. Acreditam que, no mínimo, deveria haver maior respeito para com os membros da comunidade autista como indivíduos únicos."
E vão além: lembram que a homossexualidade já foi classificada como uma forma de doença mental que poderia ser tratada clinicamente e que esse preconceito foi superado - infelizmente outros ainda persistem - por intermédio de ações como as dos movimentos pelos direitos gays em defesa tolerância social com a diversidade de orientação sexual, dentro de uma postura de orgulho em relação à sua própria condição.
Daí a proposta dos amigos dos autistas ao propor o Dia do Orgulho Autista (18 de junho) como uma forma de contrapor estima e respeito ao descaso, ao preconceito, à hostilidade ou o desprezo que a sociedade moderna reserva para o que é diferente, diverso e, assim, do seu ponto de vista, incômodo.
Autistas junto aos perfeitamente "interados", deprimidos com os contentes, negros mais brancos, homos ao lado de heteros, altos, baixos, gordos demais e magros na medida; ricos e pobres com os remediados no meio; espinhentos, dentuços, lindos, feios, apenas bonitos, normais, louros, acajus, punks, clubbers, engravatados; fêmeas, machos, velhos, jovens e os na "flor da idade"; mancos, atletas, para ou tetraplégicos; gagos, mudos, cegos, surdos; obsessivos, compulsivos, tímidos ou medrosos, sensíveis e tudo o mais que possa tornar um ser desigual de um outro ou, melhor ainda, da maioria, só demonstram como a tolerância é a palavra chave para a sobrevivência dentro de uma cultura de paz.
Aceitar essas supostas divergências, esses "desvios", tolerá-los, é, sim, um desafio inadiável.
O que não se deve é confundir com a aquiescência aos desvios de caráter, tão presentes entre nós, esses impossíveis de serem engolidos.
Mas essa é uma outra história que fica para uma outra vez.

07/04/2013

"Os Estatutos do homem", de Thiago de Mello

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Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Invólucros

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Telefones celulares, agendas eletrônicas e computadores portáteis cada vez mais compactos, e portanto com teclas cada vez menores, pressupõem usuários com dedos finos. Se vale a teoria da seleção natural de Darwin, as pessoas com dedos grossos se tornarão obsoletas, não se adaptarão ao mundo da microtecnologia e logo desaparecerão. E os dedos finos dominarão a Terra. Há quem diga que, como os mini-teclados impossibilitam a datilografia tradicional e, com o advento das calculadoras, os cinco dedos em cada mão perderam a sua outra utilidade prática, que era ajudar a contar até dez, os humanos do futuro nascerão só com três dedos em cada mão: o indicador para digitar (e para indicar, claro), o dedão opositor para poder segurar as coisas e o mindinho para limpar o ouvido.
Outra inevitável evolução humana será a pessoa já nascer com um dispositivo — talvez um dente adicional, cuneiforme, na frente — para desembrulhar CDs e outras coisas envoltas em celofane, como quase tudo hoje em dia. E fiquei pensando no enorme aperfeiçoamento que seria se as próprias pessoas viessem envoltas numa espécie de celofane em vez de pele. Imagine as vantagens que isto traria. No lugar de derme e epiderme, uma pele transparente que permitisse enxergar todos os nossos órgãos internos, tornando dispensáveis os raios X e outras formas de nos ver por dentro. Bastaria o paciente tirar a roupa para o médico olhar através da sua pele e dar o diagnóstico, sem precisar
apalpar ou pedir exames.
Está certo, seríamos horrorosos. Em compensação, a pele transparente seria um grande equalizador social. "Beleza interior" adquiriria um novo sentido e ninguém seria muito mais bonito que ninguém, embora alguns pudessem ostentar um baço mais bem-acabado ou um intestino delgado mais estético, e o corpo de mulheres com pouca roupa ainda continuasse a receber elogios ("Que vesícula!"). Acabaria a inveja que as mulheres têm, uma da pele das outras, e a consequente necessidade de peelings, liftings, botox etc. E como todas as peles teriam a mesma cor — cor nenhuma —, estaria provado que somos todos iguais sob os nossos invólucros, e não existiria racismo.
Fica a sugestão, para quando nos redesenharem.
Luís Fernando Veríssimo
Comédias para  ler na escola

06/04/2013

Educação com Viviane Mosé - Café Filosófico - CPFLCultura

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A escola fragmentada, dividida em disciplinas e grades curriculares, e distante da vida dos professores e alunos, se deparar, a cada dia, com um mundo que faz perguntas cada vez mais globais e urgentes, como a necessidade de considerar o todo, o planeta, a cidade. Quais os desafios da educação no mundo contemporâneo? fonte

05/04/2013

Águia

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...Esta é a estória de uma aguiazinha filhote que foi achada por um fazendeiro, com a asa quebrada, na floresta. 
Para salvá-la, ele a levou para a sua fazenda... não tendo onde colocá-la, botou-a junto das galinhas, num galinheiro. 
Deu comida de galinha e cuidou dela como se cuida de uma galinha. 
Ela se curou, mas foi crescendo como se fosse uma galinha
Às vezes achava esquisito ser tão diferente: não cacarejava, seu bico era grande e tinha grandes garras. 
Mas ali ficava, triste, vendo que havia algo que não estava bom, sem fazer nada...
... Até que um dia passa por aquelas paragens um naturalista... 
que, ao ver uma águia (ave de rapina) criada como se fosse uma galinha, leva o maior susto. 
Era preciso ajudá-la a mudar! Pediu licença ao fazendeiro para ensiná-la a voar e começou....
... No primeiro dia... 
pegou a águia e colocou-a no braço, dizendo: você não é uma galinha, é a rainha dos pássaros, uma águia; bata suas asas e saia voando... 
A águia não entendeu nada... 
Nunca tinha visto uma águia antes... pulou para o chão e voltou para o poleiro...
... No segundo dia... 
o naturalista, inconformado, resolveu explicar melhor... 
Levou-a ao alto do telhado e mostrou que ela podia voar dali, que ela tinha asas que a fariam sair voando, 
que suas asas eram maiores que as de uma galinha... além do bico... do seu canto... e que suas garras foram feitas para alcançar seu alimento, 
quando assim lhe conviesse... Bastava que ela batesse as asas e saísse voando... 
A águia entendeu que era diferente, porque assim se sentia; mas ela ainda não sabia como... 
E assim, voltou ao poleiro com toda aquela estória de liberdade, asas, garras, rainha dos pássaros...
... No terceiro dia... 
o naturalista entendeu que era uma questão de tempo e oportunidade... 
Então ele fez a oportunidade... levou-a para o alto das montanhas, lugar de águia, e mostrou muitas outras águias voando... 
Voltou a dizer: bata as asas e saia voando... 
Suas asas foram feitas para voar alto... você é a rainha dos pássaros... 
Ela ficou observando as outras e, de repente... num grito de liberdade... num grito de águia... saiu voando de asas abertas... 
Diz a lenda que esta águia nunca fez uma galinha de vítima, porque foi com as galinhas que aprendeu a ter o pé no chão, a catar seus grãos de milho e, de vez em quando, sentar no poleiro, esperando sua vez...

Do livro "Hipnoterapia Ericksoniana passo a passo"
Sofia M. F. Bauer - Editorial Psy (pág.123) - 1998